ME51 VERBETESNU
 
 
 

Acidente de trânsito
Adão
Banto
Benzedeira
Caderno Manuscrito
Cartilha ou Compendio da Doutrina Christã
Dança
Desafios
Ecumenismo
Encantamento
Fartura

Galo
Gentileza, profeta
Hilária Batista de Almeida
Horas Marianas
Idade Média
Irmandade
Jesus Cristo na Religiosidade Popular
Jogo
Katecismo Índico da Língua Kariri
Kerb

Latim
Lavagem do Bonfim, no Rio de Janeiro
Manipulação da Religiosidade Popular

Manoelina dos Coqueiros

Nossa Senhora das Dores

Nome
O Homem que deu a Luz ao Diabo
Ofício das Trevas
Papai Noel
 
Pobre: explorado ou incompetente?
Queimadura
Quizila
Racismo
Reza Brava
S.P.Q.R
São Francisco de Assis
Tapuiada 
Temor de Deus
Urbanização
Utopia
Vela
Viola
Visita a um terreiro
Wadubari
Xangô(culto)
Xingar
Yema Cuema
Yemanjá
Zâmbi
Zumbi

 
   

 

ACIDENTE DE TRÂNSITO

          A má conservação de estradas e veículos, carteiras de habilitação compradas, alcoolismo dos motoristas, excesso no horário de trabalho são causas de numerosos acidentes.  w  À beira das estradas, o lugar de um acidente fatal é marcado por uma cruz. Inúmeros profissionais do volante carregam no carro um terço ou um São Cristóvão pequenino, rezam nas capelinhas ao longo das rodovias. Procuram a proteção divina nas suas viagens. Outros, para escapar de ciúmes, ódios e maus olhados, penduram um chifre ou uma figa na traseira do seu caminhão.  w  Sempre aparece alguém que coloca uma vela acesa ao lado da vítima que jaz morta na rua ou na estrada. É uma vela-guia para aquela alma.  w  Muitos ex-votos, deixados nas salas de milagres dos grandes santuários, relatam como pessoas se salvaram de acidentes de trânsito, com a graça de Deus.

ADÃO

          O primeiro homem, não nascido, mas criado por Deus (Gn 1 - 2). v. Alma de Adão. Adão feito de barro e do sopro de Deus Criador. v. Ar.  w  Às vezes é chamado  Santo Pai da humanidade. Existem imagens do Santo Adão w  A moda de viola da criação do mundo, registrada em Goiás, diz: Este mundo foi criado/ por um grande onipotente/ Deus formou ele em seis dias/ e fez tudo diferente/ fez os campo e fez os mato/ fez tudo quanto é vivente/ Fez Adão e fez a Eva/ e pôs no mundo pra semente.//[1]  w  O cearense Patativa do Assaré diz: No mêrmo tempo que Deus/ fez o céu, o má e o chão,/ fez também de barro o home/ que é justamente esse Adão;/ Ele era um belo vivente,/ santo, fié, inocente/ mas depois foi traiçoêro/ fez uma grande desorde/ pru que não cumpriu as orde/ do nosso Deus verdadêro.//[2]  w  O poeta João Martins Athayde, no folhetoO Valor da Mulher” escreve: A primeira pessoa da Trindade/ como Pai Criador teve a lembrança/ de dar sua aparênça e semelhança/ a Adão como prova de amizade/ e se Deus quis dar essa sumidade/ a Adão foi porque bem pretendia/ que o homem tivesse autonomia/ sobre todos os viventes deste mundo/ por ser ele o vivente mais profundo/ entre os feitos da grande sabedoria.//   w  O poeta Manoel d’Almeida Filho escreveu “Encontro de Lampião com Adão no Paraíso”. Seguem alguns versos. Lampião virou-se rápido/ de um lado da macieira/ avistou um homem nu/ como numa brincadeira/ cobria um palmo na frente/ uma folha de parreira.// Quando Adão se declara dono do pomar, Lampião propõe: Nós podemos decidir/ caso meu amigo queira/ na cabeçada, no murro,/ no pontapé na rasteira,/ quem ganhar fica com tudo/ quem perder sai na carreira.// Quando Adão exalta a beleza de Eva. Lampião disse: Duvido/ dessa sua opinião/ que essa sua mulher tenha/ mais beleza e perfeição/ do que Maria Bonita/ a Rainha do Sertão.//  Adão rebate: Pensa que não o conheço/ na vida de cangaceiro/ Sei até que carregou/ a mulher de um sapateiro/quando assombrava os Estados/ do Nordeste brasileiro.// Lampião pergunta como o conhece. Adão respondeu sorrindo/ numa risada normal: / Ouvindo os noticiários/ da Rádio Nacional/ da Globo, da Bandeirantes,/ da Tupi e da Jornal.// Como se vê, a creatividade do poeta deixa Adão bem abrasileirado.  w  A expressão do Pai Adão indica coisa antiga. No tempo em que Adão era cadete: em tempos remotos.  w  Há uma charada sobre Adão muito conhecida: Um homem houve nu mundo/ que sem ter culpa morreu,/ nasceu primeiro que o pai,/ sua mãe nunca nasceu/ sua avó esteve virgem/ até que o neto morreu.//  Câmara Cascudo registra esta versao de Bernardo Cintura e uma variante que consta do romance “História da Donzela Teodora”: Pergunta o sábio a ela:/ Que homem foi que viveu/ porém nunca foi menino,/ existe mas não nasceu;/ a mãe dele ficou virgem/ até quando o neto morreu?// Este homem foi Adão/ que da terra se gerou,/ foi feito já homem grande,/ não nasceu. Deus o formou./ A terra foi a mãe dele/ e nela se sepultou.// Foi feito mas não nascida/ essa nobre criatura./ A terra era a mãe dele/ serviu-lhe de sepultura/ para Abel, o neto dela/ fez se a primeira abertura.//[3]  w  Adão e sua esposa Eva desfilam entre as figuras bíblicas das procissões da Semana Santa. Em Santo Antônio do Monte (MG), vão semeando na terra. v. Costela de Adão.  w  Frase de pára-choque: Feliz foi Adão que não teve sogra nem caminhãow  O pecado de Adão: Eu inté fico abusado,/ seu doutô, quando magino/ em Adão, esse marvado,/ sacudi nois no pecado//.[4] v. Estrela do Céu. v. Procissão de Cinzas. v. Fiado. v. Ferro. Adão e a enxada: v. Agricultura e religião.  w  A expressão: “Somos filhos de Maria, descendência de Adão” está no canto das seis horas w  A dupla sertaneja Nilo e Nelo resume tudo que supomos a maioria dos brasileiros saiba sobre o primeiro casal humano: Adão foi o primeiro homem que no mundo Deus criou/ depois com muita cautela com sua costela a mulher formou./ Então lhes deu o paraíso e fez um aviso para o casal: / Não coma o fruto proibido que é concebido fruto do mal.// Ali tudo era belo foi o jardim que Deus formou/ Mas pra estragar o ambiente veio a serpente o casal tentou/ A mulher chamada Eva não vendo as trevas que causaria/ comeu o fruto proibido ela e o marido e tudo perdia.// Foi assim que assim que veio o anjo e expulsou-os do paraíso/ Por causa da tentação Eva e Adão perderam o juízo/ Por causa desta vaidade a humanidade saiu mal/ Nascemos todos manchados com o pecado original.// Depois do nosso batismo é que nos livramos deste pecado/ E por lembrança de Adão todo o cristão só vê este ditado/ Ele perdeu o paraíso, teve prejuízo por uma cobra/ E o povo ainda diz: Adão foi feliz que não tinha sogra.//  w  Mais sobre o assunto: PAPINI, Giovanni. O Diabo. Lisboa, Livros do Brasil Ltda., 1953. pp.126-130.

[1] TEIXEIRA, José A.. Folclore Goiano. São Paulo, Companhia Ed.Nacional, 1941. p.265.         

[2] ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá. Petrópolis, Ed.Vozes, 1982. pp.183-184.

[3] CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores. Rio de Janeiro, Ediouro, 2000. pp.217-218.

[4] ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá. Petrópolis, Vozes, 1982. p.184.

BENZEDEIRA       

          Também chamada rezadeira. O ministério da benzedeira ou do benzedor é rezar pelos males que afligem o povo, sobretudo os pobres. Não existe benzedeira sem que haja uma comunidade buscando suas orações. Mesmo assim, recorrem a ela pessoas de todas as classes sociais. v. Abençoar. wbênçãos para pessoas, animais e negócios. A benzedeira reza pela paz nas famílias, para tirar cobras de uma fazenda, para se fazer boa viagem. Reza para doentes, mesmo quando estão distantes. A benzedeira também costuma ensinar remédios. v. Medicina caseira. v. Plantas na religião. w O ritual da bênção freqüentemente acontece perto do oratório, onde há uma vela acesa. Muitas rezadeiras têm um quartinho especial para a oração. w Cada rezador ou rezadeira tem seu carisma. A rezadeira idosa é procurada para aconselhar menina-moça na puberdade. A rezadeira reza em crianças doentes de mau olhado. A própria mãe também pode benzer a criança. Às vezes, o rezador ou a rezadeira pega um pouco do mal que faz o doente sofrer. Poe ex., rezar ou benzer quebranto pode fazer a rezadeira bocejar. A rezadeira entende seu trabalho como um serviço que ela assume por tradição, em resposta à necessidade da sua comunidade. w Uma benzedeira em Minas Gerais: "Era assim que Siá Critéria benzia de quebranto: Fazia uma cruz com os pés da criança, rezando três vezes o padre-nosso e ave-maria; virando-a de bruços, tomava-lhe os pés bem juntinhos, sobre os quais fazia o nome do Padre, e oferecia a Nosso Senhor Jesus Cristo. Ou então rezava assim: Deus qui te feis,/ Deus qui ti criou,/ Nossa Senhora é qui tira /esse mal qui ti introu.// E rezava um padre-nosso e uma ave-maria a Nossa Senhora da Aparecida"[1]. w Nem todo mundo tem aptidão de curar pela oração. É claro que a psicologia é fator importante, mas como explicar a cura à distância, cura de crianças e até de animais apenas pela sugestão? Os rezadores dizem que é a que cura, e costumam rezar gratuitamente. Em geral, não se consideram dotados de forças especiais, como sugerem os adeptos da parapsicologia. w Quase sempre é com algum parente próximo que as benzedeiras aprendem as orações, os gestos e os remédios, e não gostam de passar a estranhos as palavras que rezam. w Discriminação e controle social: na Idade Média, muitas rezadeiras, acusadas de serem bruxas, foram perseguidas pela Inquisição. Hoje, o mesmo controle social é exercido em nome da medicina erudita e da psiquiatria[2]. w Caso raro é a benzedeira evangélica. Em Mogi das Cruzes (SP), dona Violeta benze com a Bíblia as pessoas doentes e manda tomar chá de várias plantas colhidas no quintal. (Inf.: José Eustáquio da Costa)

[1] MATOS, Ivo de. 2a.Ed. Mumbuca. Belo Horizonte, Ed.São Vicente, 1980. p.53.

[2] OLIVEIRA, Elda Rizzo de. O que é Benzeção. (Col.Primeiros Passos: 142) São Paulo, Ed.Brasiliense, 1985. p.17

BANTO

          Nei Lopes, autor do “Dicionário Banto do Brasil”[1], escreve: “Dentro do quadro da presença afro-negra no Brasil, verifica-se uma predominância das culturas bantas, que colaboraram para a formação da cultura brasileira principalmente através de suas línguas, entre elas o quicongo, o umbundo e o kimbundo. Contestando uma suposta ascendência de línguas sudanesas, como o nagô (iorubá) no panorama das línguas africanas faladas no Brasil à época da escravidão e que teriam modificado o falar português em nosso país, Renato Mendonça escreve: ‘O quimbundo, pelo seu uso mais extenso e mais antigo, exerceu no português uma influência maior do que o nagô’ (...). De fato, no vocabulário do português falado no Brasil, os termos de origem nagô estão mais restritos às práticas  e utensílios ligados à tradições dos orixás, como a música, a descrição dos trajes e a culinária afro-baiana.  w  No seu livro “Falares africanos na Bahia” (Topbooks, 2001), a etnolingüista Yeda Pessoa de Castro, de Salvador (BA), defende que, do século XVI ao XIX, os bantos foram o grupo negro de maior densidade populacional no Brasil. Diz que “os empréstimos africanos do português no Brasil, são todos de origem banto”, e ressalta: “As denominações das religiões afro-brasileiras são de origem banto: candomblé, macumba, catimbó, calundu – que foi a forma mais antiga de denominação dessas religiões e já se encontra registrada em Gregório de Mattos, no séc. XVII”.[2]  Muitos vocábulos bantos, especialmente do kimbundo e do kikongo, enriqueceram nossa língua pátria: cafundó do Judas, umbanda, Zâmbi, Zumbi. aruanda, quilombo, quibungo, cabula.

[1] LOPES, Nei. Dicionário Banto do Brasil. Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro/Centro Cultural José Bonifácio, s.d. p.20.

[2] AZEVEDO, Eliane. “Com  África na ponta da Língua”. Entrevista com Yeda P.de Castro. In: Jornal do Brasil. 20/11/2001.

CADERNO MANUSCRITO         

           Existem cadernos manuscritos com versos da folia para refrescar a memória dos foliões nos dias antes da saída da folia. Estes cadernos não são usados durante a cantoria. w Outra espécie de caderno contém coleções de cantos religiosos para ocasiões diversos. Misturam-se cantos de missa com benditos da Semana Santa, músicas para o mês de maio, outras para pedir chuva em tempo de seca ou fazer romarias. Encontramos um caderno assim com 125 músicas que foi copiado em 1960 por Maria da Paz Câmara, em Telha (SE). Há nele, por ex.: 4 hinos para São Severino, música para a coroação de Nossa Senhora e uma para queimar as flores no fim do mês de maio, Veni Criator Spiritus (latim!), o pranto de Nossa Senhora, o tradicional Senhor Deus, o canto penitencial meu Jesus a vossos pés, outro ao cruzeiro da missão e uma variedade de músicas para Jesus no Santíssimo Sacramento. Curiosas são as observações escritas entre os cantos, como: "Cópia de Terezinha Lins para a boa amiguinha Maria do Carmo Martins. Têlha, 28 de 5 de 1945". / "Carminha, quando eu morrer, você não se esqueça de rezar por mim, viu!" / "Desculpe os borrões que são demais e a caligrafia que é muito ruim, viu. Saudades sem fim, da amiga".// w Em Mário Campos (MG), charoleiros usam um caderno para fazer sua adoração noturna dos Senhor dos Passos: v. Charola do Senhor dos Passos. w Os cadernos manuscritos, que não são uma raridade, demonstram claramente que as coisas oficiais e as populares são inseparáveis, na religiosidade popular. w Há cadernos interessantes que contém coleções de pontos de umbanda usado nos terreiros. w Outros cadernos contém orações: v. Envultar-se. v. Brasil católico.

CARTILHA OU COMPENDIO DA DOUTRINA CHRISTÃ (Livro)

         Trata-se de uma das cartilhas da Doutrina Crista mais conhecidas no Brasil. Nela, a doutrina e a vida cotidiana andam juntas. A "Cartilha, ou Compêndio da Doutrina Christã", ordenada por perguntas e respostas, do abade de Salamonde no arcebispado de Braga, Antônio José de Mesquita Pimentel. Impressa no Porto em 1871*, contém "toda a Doutrina e orações, que costumam ensinar aos meninos, explicadas com distincção e clareza. Juntam-se-lhe Orações para a Missa, Confissão e Communhão; para rezar o Rozario e Corôa, e visitar a via-sacra e os Passos. Accrescentada com a Táboa das Festas mudaveis, Kalendario dos Mezes e Eclipses. Nov.das Almas; Oração Mental; Oração á Senhora da Conceição da Rocha; modo de visitar a Igreja, e várias orações”. Os Mandamentos da Lei de Deus fazem parte do Catecismo. A Cartilha ainda contém: Oração contra os inimigos, Regras de bem viver, Máximas do Marquês de Maricá, Preceitos para viver sanctamente, Pecados que bradam aos céus, Dons do Espírito Santo, Frutos do Espírito Santo, Novíssimos do Homem, Taboada, Descripção Geographica de Portugal e do Brasil. Seu catecismo começa com as tradicionalíssimas perguntas (séc. XVI): P.Sois Christão? R.Sim, pela graça de Deos. P.Que cousa é ser Christão? R.É ser Discipulo de Christo, sendo baptisado, e professar a sua Sancta Lei, até dar a vida por Elle. P.Qual é o signal do Christão? R.É a Sancta Cruz, porque n'ella morreu Christo”. v. São Mateus. v. Folhinha. v. Estrela do Céu. v. Santa Maria Eterna. v. Perguntas e respostas. v. Obrigações do rico e do pobre.  w  Há cartilhas mais recentes: v. Nova Cartilha da Doutrina Christã (1925). v. Cartilha do Bom Jesus da Lapa (1955). v. Abra a Porta: Cartilha do Povo de Deus (1979).
 

Gravura do ABC encontrada na "Cartilha ou Compendio da Doutrina Christã" (1871)
Neste ABC não há as letras I, U, W, X e Y.


 

A - árvore
B - balança
C - cesto
D - dado
E - espelho
F - fogareiro
G - gato
H - homem
J - jarro

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


K - kâncer (?)
L - livro
M - mocho
N - navio
O - olho
P - pente
Q - quadrante
R - raposa
S - sereia
T - tesoura
V - viola
Z - zenith

DANÇA

          A dança é arte e lazer. É expressão corporal e valoriza o corpo. Pode ser um gesto religioso, uma oração.  w  Danças religiosas: v. Dançar.  w  Entrar na dança é participar, viver. Participar de uma roda de samba ou batuque é integrar-se no grupo. Diz o canto: Sozinho não danço, nem hei de dançar porque tem fulano para ser meu par. Mas, dançou!, significa acabou, perdeu. A dança da vida: v. Roda. v. Folia.  w  A dança aproxima brincadeira e ritual, reúne alma e corpo, reconcilia a vida com tradições e regras. Na dança nem tudo é improvisado. É preciso ter noção de ritmo, compasso, coreografia, canto, enfim, aspectos diversos.  w  Em alguns casos, é necessário dançar para plantar: v. Bananeira.  w  Há danças de grupo: roda, escola de samba, olodum, toré, frevo, corta-jaca, pericom; e individuais. v. Passagem. v. Contradança.  w  O musicólogo Francisco Curt Lange avisa: “Devemos prescindir do raquítico conceito do ouvinte passivo da música ou espectador curioso da dança, produto do século XX, que não tem capacidade de compenetração porque não mais canta nem toca instrumento algum, e também ignora o que significa integrar-se a uma coreografia coletiva”.[1]  w  Na cultura popular existem danças de trabalhadores: vaqueiros, lavradores, pescadores, rendeiras e tecedeiras. No Paraná, há danças dos lenhadores. No Amazonas e no Pará, a dos barqueiros e marujos. Em Minas Gerais e na Bahia, a dos canoeiros. Em São Paulo, no Vale da Ribeira, os artesãos de Apiaí praticam a dança do barro.  w  Na região amazônica, existem as danças que imitam os animais da floresta. v. Cordão de bicho.  w  A dança tradicional de índios e negros faz parte da educação e do caminho da libertação. v. Memória.  w  Crianças gostam de dançar. Casais dançam. O palhaço faz o povo dançar. Torcedores caem na folia. Sem dança, são inimagináveis o carnaval e muitas outras festas w  Há danças de rua, terreiro, salão, teatro, congá e capela. Índios e negros dançam na religião.  w  Curiosamente, a elite mantinha preconceitos contra as danças dos negros (batuque, jongo, samba), consideradas sensuais, lascivas e obscenas, com umbigadas w  Núbia Pereira de M. Gomes diz: “Estudar a dança dos Arturos é resgatar, nos corpos que se movem, a caminhada dos negros os fragmentos da história material e psicologia dos escravos”.[2]  w  Sobre a invenção da dança de São Benedito: v. Moçambique.  w  O baile é pecado? v. Dançar.

[1] LANGE, Francisco Curt. “As Danças Coletivas Públicas no Período Colonial Brasileiro e as Danças das Corporações de Ofícios em Minas Gerais”. In: Barroco I, ano 1969.  p.19.

[2] GOMES, Núbia Pereira de Magalhães & PEREIRA, Edimilson de Almeida. Negras Raízes Mineiras: Os Arturos. Juiz de Fora,MEC/EDUFJF, 1988. p.24.

DESAFIO ou PORFIA

          Duelo entre dois cantadores, duas folias ou dois boi-bumbá w  O desafio entre cantores nos veio de antiga tradição européia. Já é encontrado na literatura latina e estava bem vivo na época dos trovadores. Em Portugal encontramos: “Cantigas ó desafio/ você que me desafiou/ Cantei-lhe uma cantiga/ você logo se calou”.[1]  w  O desafio obedece a certas regras, mas é cheio de improvisações. Segue amostra do linguajar de Azulão, negro cantador pernambucano: No dia que eu me decido/ me pegar c'um cantador,/ antes coisa de uma hora/ percuro um chiqueradô,/ digo a ele: Se previna/ que hoje a luta faz horrô!// Quando me faltá repente, falta tubarão no mar,/ falta padre nas igreja,/ falta Santo nos altar, falta frade nos convento, e seca no Ceará.// Outro repentista cearense, o Serrador, ao vencer um rival cantou: Eu me desmancho em repente,/ não tem quem me desabone!/ Quem for cristão vá vê vela,/ meta na mão de Sinfrone...//[2] A vitória é de quem souber responder às perguntas feitas, exibir mais conhecimentos, demonstrar mestria na métrica e na rima. v. Poesia popular. v. Perguntas e respostas. v. Fute.  w  Antigamente, em São Paulo, em Minas Gerais e em Goiás, quando duas folias se encontravam, havia desafio de cantoria. Hoje, isso acontece só raramente. Na ocasião, cantam tudo o que sabem, decorado e improvisado. Quem mais canta é vencedor. Quem perdesse, era obrigado a entregar a bandeira e retornara para casa. Isto, às vezes, tem causado pancadaria, briga entre os palhaços, roubo da bandeira com as esmolas e até morte. v. Folia dos Santos Reis. Mário de Andrade registra que, no carnaval carioca do começo do séc. XX, aconteciam também rivalidade e afrontas quando dois cordões se encontravam nas ruas. Roubavam o estandarte.[3] Em folias de Reis no Sul de Minas Gerais, Guilherme Porto registra versos amenos: Encontrou as duas bandeiras/ as virtudes são igual/ Senhor mestre, com licença,/ sua bandeira vou beijar.// Também beijei sua bandeira/ com prazer e alegria/ Menino Deus nascido/ abençoai nossa folia.// Despede de minha bandeira/ como Cristo de Belém/ sua folia vai com Deus/ qu’a nossa vai com Deus também.// Pela Sagrada Escritura/ escreveu os Evangelhos/ sobre este nosso encontro/ inimizade eu não quero.//[4]  v. Agressividade. v. Inveja.  w  Vicente Salles comenta a existência do desafio entre foliões do Divino, antigamente no Estado do Pará.[5]  w  Também o jongo conhece desafios ou enigmas na sua cantoria. v. Visaria.

[1] PIRES, A.Thomaz. Cantos populares portugueses. Vol.IV. Elvas, Tipogr.Progresso, 1910. p.95.

[2] MOTA, Leonardo. Cantadores. Rio de Janeiro, Ed. A Noite, 1953. p.68 e 137.


[3] ANDRADE, Mário de. “Os Congos”. In: Lanterna Verde. No.2. Fev/1935. p.48.

[4] PORTO, Guilherme. As Folias de Reis no Sul de Minas. Rio de Janeiro, MEC-SEC/Funarte/ INFL, 1982. p.30.

[5] SALLES, Vicente. Repente & Cordel, literatura  popular em versos na Amazônia. Rio de Janeiro, FUNARTE/ Instituto Nacional do Folclore, 1985. p.39.

ECUMENISMO

          [Do grego "oikoumene", mundo habitado.]  No cristianismo, a palavra “ecumênico” inicialmente significava universal. O mesmo vale para a palavra catolicismo. v. Eclesiocentrismo.  w  A partir do séc. XIX começou a indicar o movimento em prol da unidade dos cristãos. Segundo o Conselho Mundial de igrejas (CMI), "Jesus Cristo fundou uma igreja. Hoje vivemos em diversas Igrejas separadas umas das outras. Contudo nossa visão do futuro é que algum dia viveremos de novo, como irmãos e irmãs, numa igreja indivisa”.[1] v. Seitas e ecumenismo. v. Heresia. v. Tolerância.  w  A unidade visível das igrejas deve ser imaginada como uma união na diversidade, parecida com a união das doze tribos na sua aliança com Deus. v. Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro Mundo.  w  O diálogo entre as religiões, sem proselitismo e sem competição, leva ao enriquecimento mútuo. É quando se passa da discriminação à comunhão. v. Macro-ecumenismo.  w  O ecumenismo acontece na vida cotidiana, das bases para cima. Concretamente: partilha alegre e solidária da experiência do Deus vivo por nossas comunidades e através das diversas confissões e culturas. Esta experiência de aproximação se dá nas lutas dos trabalhadores na cidade, na caminhada dos migrantes, na resistência dos indígenas e negros, na peleja dos menores e na participação das mulheres. v. Cultura e religião. v. Inculturação.  w  Jether Pereira Ramalho, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI), nos fala de um ecumenismo não programado, que acontece no cotidiano da vida dos pobres e dos oprimidos. Diz: “Para o povo, Deus é maior do que todas as nossas divisões. As barreiras colocadas entre os homens e a criação das diversas confissões religiosas que disputam o ‘mercado religioso’ são fruto e produção dos próprios homens e respondem a momentos históricos já ultrapassados e desconhecidos do próprio povo. – Deus está muito acima dessas coisas todas. Está junto do povo humilde e sofredor. Na grande sabedoria popular, a figura e a presença de Deus não se constituem em monopólio de nenhum grupo. Podem haver diferenças, ênfases e estilos especiais, traços culturais distintos, mas acima de tudo isso está a convicção de que Deus é Pai de todos nós”.[2] v. Humildade.  w  Mesmo dentro da Igreja Católica precisamos de uma espécie de ecumenismo cultural, uma união que respeite história, tradições, antepassados, a fé viva de todos os fiéis. v. Sincretismo.  w  A vontade de encontrar e conhecer veio substituir desconfiança, preconceito e inimizade.

[1] Descrição da Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial das Igrejas. Salamanca (Espanha), 1973.

[2] RAMALHO, Jether Pereira. “Um Ecumenismo que nasce do Povo”. In: Os Leigos na Igreja e no Mundo. Edição especial do Santuário de Aparecida. 1987. p.30.

ENCANTAMENTO      

                 [Do latim "incantare", enfeitiçar.] Obra de fada ou bruxo. O mesmo que magia e feitiço. Nas lendas, por uma ação mágica, um monstro pode ser um príncipe encantado. Para um encantamento, podem ser invocadas forças religiosas ou cósmicas. Há encantamentos para o bem ou para o mal. v. Fórmulas mágicas. v. Dragão Negro. v. Feitiçaria. O encantamento também pode acontecer de maneira espontânea. Alguém pode ficar encantado pela beleza ou pela simplicidade de alguém que nos deixa de boca aberta. Dizemos: que maravilha! que encanto! O encantamento e o desencantamento se alternam[1]. w O carnaval parece uma espécie de encantamento coletivo e espontâneo. O desencanto chega com a ressaca, na Quarta-feira de Cinzas. w Num mundo racionalista, não há lugar para o encantamento. Não resta dúvida que a presença de Jesus pela consagração da hóstia, na Missa, por muitos é entendida como uma espécie de encantamento. v. Beata Maria de Araújo. v. Metamorfose. w Na teologia, encontramos os que condenam toda forma de encantamento. v. Crendice. v. Ramalhete espiritual. Outros condenam só os encantamentos para o mal. v. Bruxaria. v. Cerimônia de desencanto. w Existem tesouros encantados e casas e árvores assombradas. w Para os caçadores, há bichos encantados. Por ex. o guará. v. Couro de guará. w Para os raizeiros, há plantas encantadas que só são encontradas após certas cerimônias. O mesmo existe na Angola: v. Quimbanda. w Na etnografia indígena: v. Amuleto. Também no catimbó. w Termo freqüente nos cultos afro-brasileiros, onde encontramos encantamentos para saudar divindades, acalmar uma briga, dar comida à terra. Por ex.: fala-se do encantamento do Sabão da Costa. v. Ofó. w Também o próprio orixá tem encantamento. v. Cair no santo. v. Oxóssi. w Verbetes afins: v. Adivinhação. v. Reino encantado da pedra bonita. v. Cidade do Paraíso terrestre.

[1] Cf.: CARDIGOS, Isabel. In and out of enchantment: Blood Symbolism and Gender in Portuguese Fairytales. Helsinki, Academia Scientiarum Fennica, 1996. A filóloga Isabel David Cardigos fala da contribuição própria da mulher na criação de histórias de fadas.

FARTURA

                  A principal preocupação do pobre é viver hoje e amanhã. O mantimento é o centro da garantia da sobrevivência, junto com a casa para morar. O que o pobre ganha parece contado e mal dá para suprir suas necessidades básicas. v. Miséria. v. Luxo. v. Opulência. v. Prosperidade. v. Pão. w Jesus dá fartura à mulher humilde: v. Feijão. w As referências à comida aparecem sem parar na fala do povo, mostrando a importância da alimentação na luta do dia-a-dia. A parlenda para ensinar às crianças nomes ou números diz: Um, dois, feijão com arroz/ Três, quatro, feijão no prato/ Cinco, seis, feijão para nós três/ Sete, oito, feijão com biscoito/ Nove, dez, feijão com pastéis[1]. Sábado de Aleluia, o povo diz: Aleluia/ Aleluia/ Carne no prato/ Farinha na cuia.[2] A fome atávica leva mãe e crianças a perguntas e respostas em versos tradicionais, até macabros: Estou com fome./ Coma um homem.// Quero mais./ Coma um rapaz.// Quero pouco./ Coma um caboclo.// Quero muito./ Coma um defunto.//[3] w Por outro lado, não são incomuns as utopias da fartura, situadas no passado ou no futuro. Banquete e festa têm um significado escatológico: tempo de fartura aqui e agora, já! Na linguagem popular: país de cucanha e tempo do Paráclito. v. Festa do Divino em Parati (RJ). v. Viagem de São Saruê. w Muitas festas religiosas populares coincidem com o período das colheitas. Nas festas do Divino, da Folia e do Rosário, costuma existir significativa fartura de alimentos. v. Folia do Divino. v. Pentecostes. v. Ritual de rebelião. w Nas festas juninas, o primeiro levantamento de mastro, no dia 12, véspera de Sto. Antônio, "o buraco no chão deve ser tampado com ovos de galinha, grãos de milho e de feijão, pois as galinhas ficam sem peste e as colheitas se tornam boas"[4]. w Doralécio Soares descreve a fartura nas festas de tradição alemã-italiana, em Santa Catarina: "As festas quase sempre são ao redor das igrejinhas ou capelas não faltando às mesmas, muito vinho, a graspa – aguardente de bagaço de uva – e muita comida. É comum as famílias ligadas à igreja prepararem grande quantidade de comida para os que vierem de longe comerem à vontade. Nessas festas, quase sempre, cantam horas a fio, canções que trouxeram e suas raízes culturais"[5]. w Orixá da fartura: v. Oxóssi. Grande fartura há nas festas dos Ibêji.

[1] MELO, Veríssimo de. Folclore Infantil. Brasília, Ed.Cátedra, INL/MEC, 1981. p.54.

[2] MELO, Veríssimo de. Folclore Infantil. Brasília, Ed.Cátedra,INL/MEC, 1981. p.64.

[3]
MELO, Veríssimo de. Folclore Infantil. Brasília, Ed.Cátedra, INL/MEC, 1981. p.74.

[4] FELIPE, Carlos. Quadrilha: teatros, poema e dança. Belo Horizonte, Belotur/SESC, s.d.. p10.

[5] SOARES, Doralécio. "Italianos e Alemães,influências gauchescas". In: Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Ano XXIII, n.37/38. Dez/1985. p.32.

FÉ

             Confiança do homem em Deus e na Igreja. Diz a Oração do Monte Serrate: Sem fé não há salvação nem milagre. Primeiro Deus se revela. O homem responde com a adesão. w Não existe fé sem revestimento cultural. v. Tradição. v. Crer. w O catecismo ensina que é uma das três virtudes teologais: fé, esperança e amor; ou então: "Um dos frutos do Espírito Santo". w A fé encarnada: não há fé sem o cotidiano, nem cotidiano sem fé. É a idéia do ser humano inteiro. v. Medo. A fé está em todo lugar: nas igrejas, nos cemitérios, no barco, em pára-choques de caminhões, nos nomes de lojas, na fábrica, na lavoura, na favela. v. Catolicismo. w Nos ditados: A fé é que nos salva e não o pau da barca. // A fé remove montanhas. v. Não-racional. w Em um canto de pedir chuva, gravamos: Quem tiver suas oração/ guarda ela no coração;/ basta ter fé em Deus/ de ver a chuva no chão.// (Itinga. MG, 1975). w Na Rel. Pop., o risco da fé é comparado a um jogo com Deus. w Fé num Deus vivo: v. Experiência religiosa. O cantor baiano Gilberto Gil canta: Andar com fé eu vou. A fé não costuma falhar. w Fé na ressurreição: v. Páscoa. w Fé em Deus e em si mesmo: v. Boiadeiro. Uma campanha política em São Paulo (1955) usou como slogan: Fé em Deus e pé na tábua. w Fé e ideologia: v. Política e religião. w Fé popular, resgate da dignidade no pobre que diz: O pouco com Deus é muito. v. Aliança. v. Alegria. w No congado, a fé se concretiza no vestuário, no instrumento, na dança: v. Grupo. w Fé e ética: v. Canudos. A pessoa que faz ruindade, mostra não acreditar em Deus. Diz o bendito de Santa Teresa: O pai de Santa Teresa/ fé em Deus ele não tinha/ mandou vir Santa Teresa/ para pôr lá na cozinha.// w A fé cura, diz o povo (Cf. Mt 9, 27-29; Lc 18, 35-43). Também as benzedeiras dizem: É preciso ter fé. Deus cura. É a dimensão religiosa da vontade de curar-se. O xamã e o curador cristão reforçam a fé no Deus da vida, que nos salva. v. Teologia da vida. v. Verdade. w Mais sobre o assunto: GALLAGHER, Michael Paul. SJ. Clashing Symbols: an introduction to Faith-and-Culture. London, Darton/ Longman and Todd, 1997.

GALO

          Nas culturas antigas, o galo simboliza fecundidade e vigilância.  w  Cristo, São Pedro e o galo aparecem 120 vezes em sarcófagos do séc. IV. O galo de então simboliza a luz da aurora, a luta e a vitória de Cristo ressuscitado, vitória da qual participa o São Pedro Mártir (em Roma) e não tanto as três vezes que o mesmo Pedro negou a seu mestre.[1]  w  Do simbolismo da vitória de Cristo sobre as trevas surgiu a Missa do Galow  Na Semana Santa, precisamente no ofício das trevas, a vela que “ocupa o vértice do candelabro triangular” é chamado galo.[2]  w  O galo anuncia o amanhecer. No Nordeste dizem que Deus fez o galo para acordar os homens para o trabalho e avisar do roubo de suas filhas.[3] É chamado relógio dos pobres. v. Criação do Mundo.  w  O galo faz parte do presépio popular por anunciar o nascimento de Jesus, o sol da justiça. Em São Paulo, folias de reis cantam: Deus ti salve este galo/ que cantou no nascimento/ Nossa Senhora abençoou/ pelo bendito galo bento.// [4] Diz um batuquinho do presépio, em louvor do Menino Deus: Na primeira cantada do galo, quando São José se abalou. Não tem como a noite de Natal, não tem, não há. (Araçuaí. MG) Um verso conhecido nas folias: O galo, crista de serra/ é um pássaro escolhido./ Foi ele quem deu a nova/ que Jesus era nascido.// Outro verso diz: Galo canta, bateu asa/ respondeu a mãe de Deus: / Quem canta nessa altura,/ quem louva Jesus, sou eu.// (Araras. SP) Em São Joaquim de Bicas, Igarapé (MG, 1999), os foliões cantam: Era meia-noite em ponto/ o galo santo cantou:/ nasceu o menino Jesus/ em Belém, entre os pastores.// O galo crista de rosa/ foi um pássaro divertido/ foi ele que anunciou/ que Jesus tinha nascido.//   w  Em Cristais (MG), os foliões cantam: Cantou o galo, nasceu cristo/ não se avistou ninguém/ respondeu uma ovelha/ Cristo nasceu em Belém.// Os reis magos viram a estrela/ e saíram a passear/ Foram para Belém/ depois do galo cantar.//   w  Sinal de alerta, desde que cantou três vezes antes de São Pedro trair o Divino Mestre (Mt 26,74). Talvez por isso que o povo acredita que galo cantando fora da hora anuncia coisa ruim. É agouro!  v. Senhor do Galo. v. Galo músico.  w  Quem não quer trabalhar sem remuneração diz: Quem canta de graça é galo e morre pobre no terreiro.  w  Jongueiro: v. Jongo.  w  Galo na torre da igreja: v. Caça. Em João Pessoa (PB), na torre da Igreja de São Francisco, um galo indica a direção dos ventos.  w  Na encomendação das almas, o cantar do galo na madrugada despede as almas e traz a luz do dia.  w  A crença popular do demônio gerado do ovo posto por um galo velho vem de histórias medievais sobre o lendário basilisco. Do ovo posto no esterco quente nasce um galo com o rabo feito cobra. Seu olhar e seu cheiro são mortais. Já no Sl 90,13, o basilisco é símbolo das forças do mal.

[1] POST, P. "Vroeg-christelijke kunst en Liturgie". In: Tijdschrift voor Liturgie. Ano 69. Nº4. Julho/1985. p.214.

[2] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed.Nova Fronteira, 1975. “Galo” p.671.


[3] SOUTO MAIOR, Mário. Painel Folclórico do Nordeste. Recife, Universidade Federal de Pernambuco/Ed.Universitária, 1981. p.29-30.


[4] ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional, Vol.1: festas, bailados, mitos e lendas. (2a.Ed.) São Paulo, Ed.Melhoramentos, 1967. p.448.

GENTILEZA(+1996)

          Nome que se atribui José Datrino, nascido em Mirandópolis (SP) e que ficou conhecido como o profeta dos viadutos da cidade do Rio de Janeiro. Aos 18 anos de idade, deixou sua terra natal para viver em Guadalupe, subúrbio do Rio. Em 1961 converteu-se à idéia de que deveria ser um emissário de Jesus, pregando a paz e o amor entre os homens. Em obediência à mensagem divina que dizia haver recebido, deixou a família e, de barba comprida e vestido de uma túnica branca, passou a percorrer as ruas da cidade. Estendeu a sua pregação a muitos estados do país, e chegou a ser preso durante o regime militar, suspeito de ser comunista ou hippie. No viaduto do Gasômetro, em frente à Rodoviária do Rio de Janeiro, escreveu belos textos, que assinou como Profeta Gentileza. Faleceu em junho de 1996, na sua cidade natal. Daí, artistas, poetas e pesquisadores que estudaram e admiraram o seu grafismo - verdadeira arte de rua - prometeram fazer uma exposição com painéis montados dentro de um circo, para percorrer as principais capitais brasileiras.[1] Embora infelizmente não se possa mostrar o recurso ao grafismo que José Datrino utilizou no seu trabalho evangelizador, um texto sobre as gentilezas de Deus para conosco serve como uma pequena amostra: Deus 1º -> Pae -> Gentileza -> Criadorrr do Univerrsso 2º Filho -> Jessuss -> por Gentileza 3º Espírito -> Santo -> Jozze Agradecido -> Senhor Papae de Jesus -> Santo 4º Senhora -> Mamãe -> Maria -> Aparrecida -> com Amor -> e -> Honrra. v. Sermão.

[1]Jornal do Brasil. 31/05/1996. p.30.

HILÁRIA BATISTA DE ALMEIDA(+1924)

        Tia Ciata de Oxum, Siata ou Assiata. Pessoa importantíssima para o entendimento da integração das culturas negras na cidade do Rio de Janeiro, para onde depois da Abolição rumou considerável fluxo de ex-escravos baianos em busca de trabalho. Nesse momento da virada do século, vamos ver como candomblé e samba convergem para criar, com os ranchos, cordões, cucumbis e afoxés, novas identidades negras, que logo extrapolam e integram a fisionomia cultural mais ampla da cidade do Rio de Janeiro. Fixando-se primeiro no bairro da Saúde e trabalhando no cais do porto, o grupo baiano viu-se obrigado a novo deslocamento para as ruas da Cidade Nova, além do Campo de Santana, com a reforma de Pereira Passos. Já é a vizinhança da famosa Praça Onze, berço do samba no início do século. Constitui-se, assim, o trecho do Rio de Janeiro chamado por Heitor dos Prazeres de Pequena África, como informa Roberto Moura.[1] Preterido pelos imigrantes europeus nas obras de remodelação da cidade, o negro forro procurou estiva do porto, o exército e, principalmente, os serviços que hoje chamaríamos de economia informal, e para os quais ganhara experiência em seu tempo de escravo. Sapateiro, barbeiro, alfaiate, ferrador, pedreiro, lustrador, marceneiro, tecelão, pintor de parede ou de letreiros, vendedor ambulante, ele ia ocupando, com esses trabalhos de biscate ou de subemprego, os espaços que lhe possibilitavam a sobrevivência. Assim vivendo e morando em lugares próximos ou comuns, passavam sem cessar, uns aos outros, ofícios e informações. Tia Ciata era grande doceira e irmã de santo de Tia Bebiana, de ofício pespontadeira, figura importante da primeira fase dos ranchos cariocas, ainda ligados ao ciclo do Natal, aos pastoris. Tia Bebiana armava em sua casa uma Lapinha, e os cortejos dos ranchos iam evoluir em homenagem a ela no dia dos Santos Reis. Os ranchos do bairro da Saúde, por influência de, entre outros, Hilário Jovino Ferreira, o Lalau de Ouro, iriam passar para a Cidade Nova e a Praça Onze, mudando a fisionomia do carnaval. Este, na época, fazia-se com Zé-Pereiras e cordões que reuniam portugueses e gente pobre, gente de cor e gente dos morros do Castelo e da Favela, do Mercado Municipal e dos bairros de Santo Cristo e Saúde, somados a cucumbis e afoxés que introduziram instrumentos de percussão, fantasias e cantos, que foram africanizando o carnaval. Foi grande e alcançou a própria vida da cidade, a influência de tia Ciata na manutenção e transformação enriquecedora resultante da africanidade do seu extenso grupo familiar. Freqüentadora do candomblé iorubano de João Alabá (iniciado na Saúde pelo africano Quimbanbochê), juntamente com outras tias baianas, ganhou respeito por sua posição no terreiro. Daí surgiu a configuração do samba carioca. Graças à relativa estabilidade da situação de seu companheiro de toda a vida, João Batista da Silva, que ela ajudou a empregar no gabinete do chefe de polícia, tia Ciata pôde celebrar em sua casa as festas dos Orixás sem recear a repressão policial. Depois do ritual religioso, que em geral era precedido pela missa católica, chegava a hora da música, da dança, do pagode. Futuros e grandes compositores negros como Pixinguinha, Donga (1889-1974), João da Baiana e Heitor dos Prazeres, estão entre as crianças que freqüentavam a casa de tia Ciata na Praça Onze, absorvendo elementos baianos, mais tarde transformados em samba carioca. Iam-se também armando os embriões da escola de samba, decorrentes da nova forma carnavalesca – desfile processional - do rancho Ameno Resedá (1904) e alguns outros mais. Além de manter em torno dela o rancho "Rosa Branca" e o sujo "Macaco é Outro", tia Ciata armou célebre barraca de comida na festa portuguesa organizada pela Irmandade da Penha, que se converteu, como explica Roberto Moura,[2] num primeiro local de encontro da massa negra com as demais classes urbanas, já que estas não freqüentavam o carnaval popular da Praça Onze e comemoravam sua festa em corsos na Avenida e bailes em clubes. A festa da Penha tornou-se o lugar por excelência para o lançamento e popularização das músicas de carnaval, com o apoio de alguns jornalistas cariocas. Tia Ciata armará ali sua barraca de cozinha nagô até a sua morte, em 1924.

[1] MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Funarte, 1983. p.57-70.

[2] MOURA, Roberto. Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Funarte, 1983.p.73.

HORAS MARIANAS (Livro)

          Manual de oração antigo e muito usado na Rel. Pop. Daí, lhe darmos tanta atenção.  w  Também chamado "Horas Marianas Portuguezas", por tratar-se de uma tradução das Horas Marianas Latinas. Constam da edição de 1825,  a tabuada das festas mudáveis, o calendário dos santos, indulgências (a partir de 1568) para quem rezar o ofício; o prólogo exalta o valor da reza cotidiana das "Horas Canônicas do Officio menor" de Nossa Senhora, "praticado há mais de mil annos", pois alcançou "socorro nos casos mais apertados, auxílio nos perigos mais evidentes e remédio nos mais desesperados sucessos". Constam da Primeira Parte, os Ofícios I, II e III da Virgem Nossa Senhora (convém lembrar que aqui não se trata do Ofício de Nossa Senhora da Conceição), o Ofício da Santa Cruz "aprovado pela Santa Igreja e exposto na lingua portugueza para os Cavalleiros das Ordens Militares, e para todas as pessoas, que por sua devoção o quizerem rezar". v. Estrela do Céu. v. Paraiso de Divinas Flores ou Horas Lusitanas (1766). A Segunda Parte, chamada "Formulario de Orações e Devoções" (1830), contém o Ofício de Defuntos, Salmos Penitenciais, ladainha de Todos os Santos, preces e orações cotidianas, instruções para adorar a Deus, a popular oração Santa Maria Eterna, a semana meditativa, eucarística e mariana, visita à imagem do Senhor Crucificado, o responsório de Sto. Antônio, ordinário da missa em português, o sacramento da penitência, orações para visitar cinco igrejas nos dias das estações, novenas de Nossa Senhora, método de rezar o rosário da Senhora, saudações de São Gregório, orações para acompanhar o Ssmo. Sacramento. v. Santa Maria Eterna.  w  Inicialmente as Horas Marianas são da autoria de Frei Francisco de Jesus Maria Sarmento. O mesmo autor publicou Horas Preciosas e Cartilha Doutrinal. Até à XXª Edição (1796) a obra foi impressa em Lisboa. Já a edição de 1830 foi impressa em Paris. Da edição de 1847 ainda constam, os nomes de Fr. Francisco de Jesus Sarmento e do presbytero J.I.Roquete, que aumentou a obra. Mas a partir das edições em 1849 (600 pp..) e em 1872 (680 pp..), em Paris, a obra é romanizada e leva o nome "Novas Horas Marianas, ou officio menor da SS. Virgem Maria, Nossa Senhora e novo devocionario mui completo de orações e exercícios de piedade", sob a autoria apenas de J.Roquete. Nesta nova edição ilustrada consta a Missa em latim e em português. v. Manual Portuguêz.  w  Em Canudos (BA), Antônio Conselheiro usava as Horas Marianas.[1]  w  Espécie de pequeno ofício (officium parvum) dedicado a Maria, mãe de Jesus.

[1] CUNHA, Euclides da. Os Sertões. (27a.Ed.) Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1986. p.122.

IDADE MÉDIA          

              Período da história, chamado assim pelos renascentistas italianos para indicar que, depois da cultura clássica grega e romana, houve um tempo intermediário de decadência seguido por outro, que foi o do renascer (500-1300) da cultura antiga na Itália. Nos séc. XVII e XVIII, o termo Idade Média passou a significar o período entre a antiguidade e o tempo novo (500-1500). w Segundo a historiografia moderna, trata-se da época da história européia, entre os séculos VII e XV, marcada de modo impressionante pela união entre religião, vida, cultura, Igreja e Estado. Era tempo de castelos, mosteiros e catedrais, cruzadas, relíquias, cátaros e epidemias da peste. w Ao terminar a Idade Média, a união política, espiritual e religiosa começa a desfazer-se. v. Reforma. v. Burguesia. w Na espiritualidade medieval, nota-se grande atenção pela encarnação e pelo mistério da humanidade de Cristo. v. Terra Santa. Alguns grandes santos desta época: São Bernardo, São Francisco de Assis, São Domingos, São Luis, rei da França. w Muitos elementos presentes na Rel. Pop. do Brasil vêm diretamente da Idade Média: o cristianismo guerreiro das cavalhadas de cristãos e mouros e da memória das cruzadas; a influência da Bíblia Pauperum e da Legenda Aurea; a festa de Corpus Christi, o Ofício de Nossa Senhora da Conceição; a lembrança da peste e as devoções das Cinco Chagas, Nossa Senhora das Dores; as folias e o carnaval; o mestre no canto e o cantador-violeiro vêm do menestrel. Ainda há os autos religiosos, a organização dos artesãos em corporações, os exemplos, a fórmula Deus vos salve, e outros.

IRMANDADE

          Associação religiosa de leigos. v. Brasil católico.  w  A irmandade mais antiga de que se tem notícia na Igreja foi fundada para enterrar os defuntos na cidade de Constantinopla em 336*.  w  Na Europa da Idade Média floresceram igualmente corporações e irmandades. Nos séc. XIV e XV, chegaram a englobar a maior parte da população. Respondiam à necessidade vital de ajuda mútua que animava a sociedade medieval. Cuidavam de obras pias e garantiam funerais decentes. Uns praticavam ascese e autoflagelação, outros encenavam peças teatrais. No séc. XV, na Catalunha (Espanha), havia as "hermandades" que formavam milícias locais ou urbanas para cuidar da segurança das estradas da região.  w  A maioria das irmandades eretas no Brasil foram trazidas de Portugal. Desempenharam importante papel social e religioso e, em muitos lugares, foram as primeiras responsáveis pela nova ordem que se instalava.  w  No Brasil, as irmandades existem a partir do séc. XVI, em Pernambuco e na Bahia. Segundo frei Jaboatão (1695-1765), a primeira irmandade foi a Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Vila de Olinda ou Marim de Pernambuco, na capelinha de São Roque, hoje mosteiro de São Bento.[1] Foi iniciada entre 1555-1557 por Dona Maria da Rosa e companheiras do recolhimento de N.Sra.das Neves. No entanto, Mário de Andrade disse numa conferência pronunciada em 1935 na Sociedade Felipe D’Oliveira: “O jesuíta Antônio Pires dá notícia de que em 1552 os negros africanos de Pernambuco estavam reunidos numa confraria do Rosário, e se praticava na terra procissões exclusivamente compostas de homens-de-cor”.[2]  w  Do tempo colonial até à República, o funcionamento da Igreja no Brasil era baseado nas Irmandades que cuidavam da vida cristã dos irmãos, construíam igrejas e, às vezes, hospitais ("Santa Casa"), organizavam as festas religiosas, corais e orquestras, procissões, e enfim possuíam cemitérios. O padre capelão da irmandade cuidava da vida religiosa dos irmãos e era pago para isso conforme as normas do compromisso ou estatuto da respectiva irmandade. Sua relação com os fiéis era muito diferente do vigário que, aliás, em muitos lugares não havia.  w  Às vezes, igual às corporações medievais, as irmandades assumiam evidentes funções sociais, tanto nas cidades de mineração em Minas Gerais, como no litoral.  w  Surgiram nas cidades simultaneamente irmandades para autoridades e escravos, brancos e pretos, ricos e pobres, havendo entre elas uma verdadeira hierarquia. Existiam também as rivalidades entre, por ex., as irmandades dos brancos (Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, Irmandade do Santíssimo Sacramento, Irmandade dos Passos) e a dos negros (Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos). v. Classe. Fritz Teixeira de Salles registra no capítulo 24 dos Estatutos municipais da Ordem Terceira do Seraphim Humano e Glorioso Patriarca São Francisco (1765), da cidade de Mariana (MG): "Se he branco legitimo sem fama ou rumor de Judeu, Mouro ou Mulato, Carijó ou outra infecta nação e o mesmo se praticará com a mulher sendo cazada”.[3] Ao mesmo tempo, existiam irmandades abertas e pacíficas.  w  O estudo das irmandades não é simples. Nos documentos confundem-se os termos irmandade e confraria, usando-se ambos para uma mesma entidade. Também é complexo o assunto: ordem terceira. Além disso, quando pensamos estar lidando com uma simples “Irmandade de Sant’ana”, podemos mais logo descobrir que se trata da “Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto, fundada a 2 de outubro de 1730, tendo como padroeira Nossa Senhora Santana”.[4] No tempo da Colônia, irmandade e corporação eram sinônimos: v. Corporações em Ouro Preto (séc. XVIII).  w  A título de exemplo, registramos as irmandades existentes no Recife (PE) do séc. XVIII:[5] Confraria de Nossa Senhora do Livramento (1696); Confraria de Santa Ana (1749); Confraria de São José de Agonia (1785); Confraria do Santíssimo Sacramento (1771); Irmandade das Almas (1684); Irmandade do Divino Espírito Santo (1732); Irmandade de São Pedro dos Clérigos (c.1700); Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (1725); Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe (c.1781); Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (1674*); Irmandade de N.Sra. do  Rosário dos Brancos (c.1810); Irmandade de Sta. Ifigênia (1756); Irmandade de São Gonçalo Garcia (1745); Irmandade de Sta. Cecília dos Músicos (1788); Irmandade do Sr.Bom Jesus das Chagas (1679); Irmandade do Sr.Bom Jesus das Portas (1676); Irmandade de São José do Ribamar (±1733); Ordem Terceira de São Francisco (1695); Ordem Terceira do Carmo (c.1717).  w  Pesquisa feita por Kátia Mattoso revela que, no começo do séc. XIX, mais de 100 confrarias e irmandades religiosas, em Salvador (BA), reuniam separadamente brancos, mulatos e negros. "Mesmo entre os negros havia cisões e as irmandades do Rosário só admitiam gente de ascendência angolana, enquanto a de Nosso Senhor Redentor da Bahia só aceitava jejes, vindos do Daomé, atual Benin. Sem contar as associações secretas islâmicas formadas por muçulmanos de origem nagô e haussas oriundos da Nigéria”.[6] v. Ogbôni.  w  No capítulo VI do Compromisso (1728) da Irmandade dos Homens Pretos de Sêrro (MG) consta: O procurador terá cuidado saber se há entre os Irmãos e Irmãs desta Santa Irmandade alguma inimizade e dará parte ao Juiz para os fazer amigos; terá cuidado saber se há entre os Irmãos algum que não faça vida com sua mulher por amor de outra e dará parte ao Juiz para os repreenderem e se forem continuar os poderão expulsar da Irmandade e terá cuidado saber se entre os Irmãos há alguns que usem de ervas ou algumas feitiçarias e havendo estes tais serão expulsos da Irmandade sem remissão; terá também cuidado de saber dos Irmãos e Irmãs do seu modo de viver e o dinheiro com que se assentaram por Irmãos, de que modo foi angariado porque deve ser dado de bom grado de seus Senhores ou angariado de seu trabalho como Deus manda.  w  No tempo da colônia, havia poucas paróquias e o papel do padre capelão nas irmandades era bem definido pelos irmãos leigos. Na época da romanização, a igreja destas irmandades entrou em choque com uma nova igreja organizada em paróquias e controlada pelo vigário, muitas das vezes, declarado presidente nato das irmandades. Com a chegada da Contra-Reforma, as irmandades adquiriram um caráter menos civil e mais devocional. Vale comparar as CEBs de hoje com as Irmandades de antes da Romanização. v. Irmandades dos Negros. v. Procissão. v. Oratório. v. Insígnia. É preciso distinguir bem: Antes da romanização existem a Venerável Ordem Terceira de São Francisco; a Irmandade do Santíssimo Sacramento; a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos; a Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, e muitas outras. Durante a romanização chegaram a Ordem Terceira (Ordem Franciscana Secular ou OFS); a Cruzada; o Apostolado da Oração; as Filhas de Maria, a Liga Católica, Jesus, Maria José; os Marianos. Caso especial: Vicentinos (movimento de leigos).  w  Antes da Romanização, as irmandades tinham uma grande independência do clero. Fritz Teixeira de Salles escreve: "Cada irmandade era proprietária, com direitos civis reconhecidos, das igrejas ou capelas que construía; do cemitério onde eram sepultados seus irmãos falecidos; animais de sela, imagens, utensílios e mobiliário dos seus respectivos templos e dos seus escravos, quando os possuía. Trata-se portanto de uma propriedade coletiva. Isto concorreu para desenvolver considerávelmente o poder econômico das corporações”.[7]  w  Até no séc. XIX as irmandades tinham grande poder de decisão nas igrejas locais. O estilo clerical da paróquia romanizada é relativamente recente no Brasil. Foi ela que transformou, por ex., as Irmandades do Rosário em Pia Associação de Nossa Senhora do Rosário.  w  Convém lembrar que, além das irmandades organizadas formalmente, existem agrupamentos como as companhias, folias e cavalhadas responsáveis por festas religiosos. Há também os organizadores das encomendações das almas, das rodas de São Gonçalo, da reza da Santa Cruz e da mesa de São Lázaro. v. Continuidade.  w  Mais sobre o assunto: BOSCHI, Caio Cesar. Os Leigos e o Poder: irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São Paulo, Ática, 1986.

[1] Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão. Novo Orbe Seráfico. 1760. I.2,28. Apud: VAT, Odulfo van der. Frei. OFM.  Princípios da Igreja no Brasil. Petrópolis, Vozes, 1952. p.104-123.

[2] Apud: TINHORÃO, José Ramos. Música Popular de negros, índios e mestiços. Petrópolis, Vozes, 1972. p.56.

[
3] SALLES, Fritz Teixeira de. Associações Religiosas no Ciclo do Ouro. Belo Horizonte, Impr.da Universidade de MG, 1963. p.40.

[4] MENEZES, Joaquim Furtado de. Igrejas e Irmandades de Ouro Preto. Belo Horizonte, Publ.IEPHAMG, 1975. p.84.

[5] Lista baseada nos dados encontrados em: DINIZ, Jaime C. Músicos Pernambucanos do Passado. 2 Vol. Recife, Univ.Fed.de PE., 1969 e 1971.

[6] MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX - Uma Província no Império. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992. Apud: Alencastro, Luiz Felipe de. "Memória da Província" In: Veja. 13/05/1992.


[7] SALLES, Fritz Teixeira de. Associações Religiosas no Ciclo do Ouro. Belo Horizonte, Impr.da Universidade de MG, 1963. p.18.

JESUS CRISTO NA RELIGIOSIDADE POPULAR

        Jesus, nos termos populares, é o Filho de Deus, Filho de Maria, Deus e homem verdadeiro, nasceu pobre em Belém, foi carpinteiro em Nazaré, andou no mundo, viveu para dar exemplo ao mundo, mostrou o caminho do bem e do mal, pedia esmola, deixou as rezas, fez milagres, curou doentes, sofreu e morreu na cruz para nos salvar. Como um pai Ele nos ama, nos perdoa e às vezes castiga. É adorado na casa santa, no presépio e na cruz. Jesus presente no Santíssimo Sacramento: a festa de Corpus-Christi, a lª comunhão, o cálix bento e a hóstia consagrada, o quadro da última ceia. É lembrado e celebrado com folias e pastorinhas no tempo de Natal e com procissões e encenações na Semana Santa. Muitos ajudam as obras da Terra Santa. w Visual: crucifixo, Sagrado Coração, Bom Pastor, Jesus Médico, Menino Jesus no presépio e no braço de alguns santos, Senhor dos Passos, Senhor Morto. Quadros da Sagrada Família, do desterro, da última ceia, do Senhor Bom Jesus e da mão poderosa. A estátua do Corcovado. w Alguns dos santuários: Senhor do Bonfim (Salvador), Bom Jesus da Lapa (BA), Santo Cristo (Rio), Bom Jesus de Matozinhos (MG), Bom Jesus de Pirapora (SP) w Devoções: as cinco chagas nos protegem contra o inimigo e curam doenças. O cruzeiro, a via-sacra, Sexta-feira Santa e a festa da Santa Cruz, são a memória da paixão. v. Sangue de Jesus. O pobre se identifica com o sofrimento de Jesus (e Maria). Muitos rezam a Jesus na hora da morte: Se não puder falar com a boca, digo no coração: Jesus, Jesus, Jesus, minha alma quer se salvar. v. Rede. v. Cama. w Jesus com o Pai e o Espírito Santo: v. Santíssima Trindade. w Jesus com Maria e José: v. Sagrada Família. v. Beatíssima Trindade da Terra. v. Jesus, Maria José. w Existe a devoção com os parentes de Jesus. w Jesus anda com São Pedro, nas histórias de Quando Deus andou no Mundo. Eu sei que Jesus viveu uns tempos no mundo para adivinhar, dar poder a quem não tem. Ele veio para conhecer os bons e os maus. Por isso, ele andava como um velho todo cheio de pereba e esmolambado, pedindo comida e dormida na casa de um e de outro. Ele andava sempre com São Pedro[1]. v. Jesus Pobre. w Freqüentemente Jesus e Maria andam juntos: Maria com Jesus nos braços; procissão do encontro e no descendimento; a oração do sonho de nossa Senhora; e outros tantos. w O menino Jesus está nos braços de vários santos: de Nossa Senhora, de São José, de Sto. Antônio, São Cristóvão, São Benedito. w Títulos: Bom Jesus, Senhor do Bonfim, Senhor dos Passos, Senhor dos Navegantes, Jesus crucificado, Senhor da Boa Vida, Deus menino, Senhor morto, Rei dos reis, Rei da Glória, Justo Juiz, Sagrado Coração, Deus nosso Senhor, o Santo Cristo, Divino Manuel, meu Jesus de Nazaré, filho de Maria, filho de Deus, Deus e homem verdadeiro, Jesus na hóstia. w Há grande amor a Jesus: Por ex.: Senhor meu Jesus Cristo, amor do meu coração, confesso meus pecados, vós sabeis quais eles são; pelas vossas 5 chagas vos nos dais a salvação. - Meu coração é só de Jesus, a minha alegria é a Santa Cruz. w A religiosidade popular é Cristocêntrica. Exemplo interessante: Oferecimento de orações e benditos a Jesus: Oferecemos este bendito/ ao Senhor que está na Cruz/ que nos leve até na glória,/ para sempre, amém, Jesus.// O costume é oferecer os benditos dos Santos e qualquer bendito desta maneira. Muitas orações terminam com estas palavras: Para sempre amém, Jesus. Em muitos caminhões encontramos o nome de Jesus ou a sagrada face. w Jesus ensina a benzeção e o remédio para curar o doente: v. Erisipela. w Jesus nos defende dos inimigos. Numa oração forte (escrita): Jesus Cristo levantou-si/ eu levantei-mi.// Jesus Cristo benzeu-si,/ eu mi bensi.// Jesus Cristo sahiu,/ eu sahi.// Jesus Cristo andou/ eu andei.// Jesus Cristo chegou,/ eu cheguei.// Jesus Cristo falou,/ eu falei.// Jesus Cristo venceu,/ eu venci.// Jesus Cristo ar (r)umou,/ eu arumei.// Graças a Deus, já arumei u que ia aruma houje com fulano.// P†D†S†S†C†Aleluia. (Explicado no verso da folha escrita: Pais Domi São São Cordia Aleluia.) w Identificação de Jesus nos cultos afro-brasileiros: v. Deus Filho. v. Teologia negra.

[1] ITER. A Fé Popular no Nordeste. Vol.II.Documentos. Salvador, Ed.Beneditina, 1974. p.27.

JOGO

          Segundo Núbia Pereira, "viver é jogar e o risco faz parte da existência". E cita um depoimento popular de São Romão (MG): A vida da gente é que nem um jogo. Perder a gente perde, às vezes. Mas ganha também. A morte – meu pai é que falava assim – é o jogo derradeiro. Na hora que ela leva nós, parece que ela ganhou. Mas quando a alma ganha o céu, o inferno é que perde. w No jogo, há o risco tanto de ganhar quanto de perder. Risco semelhante existe no amor ou mesmo na . Encontramos uma certa mística do jogo no verso de roda: Vamos, morena, vamos/ no jogo da douradinha./ Se eu perder, você me ganha,/ se eu ganhar, você é minha.// (Ceará e Minas Gerais) e no verso freqüente nos benditos: Fui no céu jogar com Deus/ na mesa da comunhão./ Deus ganhou a minha alma/ e eu ganhei a salvação.// v. Jogar com Deus. v. Baralho. v. Soldado jogador. v. Lúdico. w Existem jogos públicos como o futebol, malha, taba (RS) e outros, que são pura diversão. v. Pão e circo. Há jogos ligados com adivinhação e com a nossa sorte. w Na opinião do povo do interior, jogar por brincadeira não faz mal. Muitos preferem o jogo de cartas. Em Santa Catarina, os descendentes dos italianos praticam o jogo da mora, um passatempo com os dedos. Jogar por dinheiro é considerado um vício. Deste Jesus teria dito: Quem é de jogo, nunca vencerá na vida. Tem pessoas que não gostam de jogo nenhum. Algumas chegam a dizer que jogo é do capeta e o dinheiro ganho é amaldiçoado. No folheto "A Vaca Misteriosa que falou profetizando", José Costa Leite avisa: O jogador sofrerá/ um castigo nunca visto/ quem ganha no jogo, ganha/ o amor do Anti-Cristo/ fica num lugar sem luz/ e quem perde, perde a cruz/ de nosso Senhor Jesus Cristo.// No folheto anônimo "A Carta Misteriosa do Pe. Cícero Romão Batista sobre os Sinais do Fim do Mundo" lemos: Meus filhos, deixem o jogo/ que o jogo não tem valor/ quem ganha dinheiro em jogo/ ganha do diabo o amor/ para lá viver sofrendo/ e quem perde está perdendo/ a cruz de Nosso Senhor.// v. Padre Jogador. w Para arrecadar dinheiro existem jogos como víspora e bingo, também nas paróquias. – Em 1924, a Conferência Episcopal da Província de Mariana, realizada em Juiz de Fora (MG), proibiu "os bailes em benefício de Instituições Católicas, bem como outras festas beneficentes com jogos de azar ou divertimentos de moralidade duvidosa. Proibimos igualmente as festas religiosas com jogos a dinheiro, nas Praças ou em quaisquer lugares franqueados ao povo, determinando aos Rev.Vigários que recorram às autoridades, e no caso de nada conseguirem, suspendam imediatamente os atos do culto, seja na sede da Paróquia, seja em capelas". (Jornal Ação Social, 12/06/1924) w No Arquivo do Conselho Ultramarino (Lisboa), acha-se uma Carta de D. Lourença de Almeida, governador de Minas Gerais, participando a execução da ordem régia proibindo dos jogos das rifas nas Minas Gerais. Vila Rica, 1729. w Vidência e jogo: v. Madame. w A CNBB tem se pronunciado contra a legalização dos jogos em cassinos. Segundo D. Demétrio Valentini, seria "a legalização da vontade de enriquecer fácil". Dom Luciano Mendes de Almeida acrescenta: "A alta indústria do azar (o jogo) incentiva o ganho fácil, em vez do trabalho honesto e dignificante. É mais uma ilusão para a população, que passa a ser induzida à sofreguidão em conseguir, pela sorte e de repente, o enriquecimento". v. Riqueza repentina. v. Jogo do Bicho. w No candomblé são conhecidos 4 jogos para a adivinhação ritual: o jogo dos búzios; o jogo do ifá (opelê); o jogo do obi; o jogo da alubosa.

[1] GOMES, Núbia Pereira Magalhães. e PEREIRA, Edimilson de Almeida. Mundo Encaixado: significação da cultura popular. Belo Horizonte, Mazza; Luiz de Fora: UFJF, 1992. p.93.

[2] Apud: PAIVA, Osni. "A Supressão da Festa em 1924". In: Informativo da Festa do Divino Espírito Santo, de Matozinhos. Ano II, No.2. Maio de 1999. São João del Rei (MG). p.4.


[3]
Inventário dos manuscritos avulsos relativos a Minas Gerais existentes no Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa). Coord.: Caio C. Boschi. Belo Horizonte, Fundação João Pinheiro/ Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1998. Vol.1. p.73. (Doc. 1175.)

[4] "Igreja Católica comanda oposição". In: Gazeta Mercantil. 9 de dezembro de 1996.

KATECISMO ÍNDICO DA LÍNGUA KARIRI  

        (Livro) | Catecismo da autoria do capuchinho francês Bernardo de Nantes. v.Kariri. Título completo: - "Katecismo índico da língua kariris, acrescentado de várias práticas doutrinaes, e moraes, adaptadas ao gênio, e capacidade dos índios do Brasil pelo padre Fr.Bernardo de Nantes, capuchinho, pregador, missionário apostolico." A obra é dedicada a D.João V e foi impressa em Lisboa em 1709. Foi reeditado em Leipzig, 1896, pelo editor: - B.G.Teubner.

KERB

           No Rio Grande do Sul, a festa dos kerbs é de origem alemã. (No vale do Reno, é chamada "kerbe"). Celebra o fim da colheita com muita dança. Acontece geralmente no mês de maio e pode durar uns três dias. Os festejos começam na igreja, com a missa, e continuam no salão de danças. Lá se dá a procura da "kerbe-flasch", uma garrafa de bebida enfeitada com papel colorido. Quem a encontrar será o Rei-do-Kerb. O acontecimento determina quem paga as bebidas tomadas durante certo intervalo entre as danças. Além da dança da garrafa, há a quadrilha, o lanceiro e o schottisch. Os melhores dançadores são premiados. Segundo Luiz Cosme, "o kerb atraía os colonos de todas as picadas e prolongava-se, com breves intervalos, para repouso e comezaina".[1] w A festa pode ser celebrada na festa da padroeira da cidade. Em Lageado (RS), por ex., a paróquia de Sto. Inácio organizou, no dia 28 de julho de 2001, um jantar-baile de kerb às vésperas da festa do padroeiro (31 de julho). Segundo depoimento de Márcio Longhi, o kerb é uma festa de padroeiro, onde toda a família se reúne. (Porto Alegre, 2002) Também em Poço das Antas, o kerb é festa do padroeiro. José Loinir Plach (2003) explica: "A festa caracteriza-se pela visita dos parentes e amigos que chegam às vezes de longe. O kerb desenrola-se em três dias. Há missa, há festa familiar e há o baile de kerb na sociedade. É dia de muita alegria e festa. Hoje esta festa está perdendo um pouco de seu fundo religioso".

[1] COSME, Luiz. Dicionário Musical. Rio de Janeiro, MEC/INL, 1958. p.64.

LATIM

           A língua usada pela Igreja dentro do Império Romano do Ocidente a partir do século IV. Na cultura ocidental, todos os livros e documentos eram em latim, até que, no séc. XIII, apareceu o uso das línguas nacionais. O Concílio Tridentino (1545-1563) reafirmou o uso do latim na liturgia. A língua do povo voltou a ser admitida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). w A separação entre a devoção popular e clerical, que se deu na Idade Média, talvez tenha a ver com o latim, que virou língua da elite sendo usada na liturgia, na teologia e também em outras ciências. Quando a liturgia latina se fossilizou, surgiu a "devotio moderna" com a imitação de Cristo (Imitatio Christi). w Da tradicional liturgia em latim conhecemos as coleções do secular canto gregoriano e as outras composições musicais posteriores: Gloria in excelsis Deo; Veni Creator; Te Deum; credo; Magnificat; ave-maria; Gloria Patri; Tantum ergo; Miserere; Salve Regina; Ladainha de Nossa Senhora. w Há muitas músicas barrocas sobre textos litúrgicos latinos, composições brasileiras, cantadas sobretudo nas cerimônias da Semana Santa. Na procissão do Senhor Morto, é cantado o canto da Verônica: "Ó vos omnes". w Ainda há muito latim rezado pelo povo. O mais freqüente é a ladainha de Nossa Senhora, rezada nas novenas após o terço. As palavras Domine in adiutorium meum intende são cantadas no início do terço e respondidas pelo povo com corruptelas curiosas. w As palavras: "Pax domui" [a paz esteja nesta casa], eram ditas antigamente pelo sacerdote ao entrar na casa de um doente. Para benzer uma casa, a rezadeira joga água benta e diz: Pais domo são são córdia aleluia. v. P.D.S.S.D.Aleluia. As palavras antiquíssimas: "Sursum corda"[corações ao alto] fazem parte do prefácio e outras orações consagratórias. v. Beata Santa Catarina. w Também as misteriosas letras da Cruz de São Bento representam palavras latinas. No séc. XI, encontramos a oração popular contra dor de dente, em latim. Mais antiga talvez seja a oração do rio Jordão, em latim. w Um verso da Folia de Reis em Serro (MG) diz a Maria: Embale seu filho, embale,/ com o divino São José/ que os anjos estão cantando: / Glória tibi, Dominé.// (glória a ti, Senhor).

[1] Sacrosanctum Concílium, 36. (1963)

[2]
CARVALHO, Celso de. Pe. O Ciclo de Natal num velho recanto de Minas. Diamantina, 1950. (manuscrito) p.20.

LAVAGEM DO BONFIM, NO RIO DE JANEIRO

        Inserida em janeiro de 1999 no calendário de atividades oficiais da Cidade, a lavagem do Bonfim já tem nove anos de existência. Essa lavagem ritual é uma iniciativa do Instituto Nacional e Órgão Supremo Sacerdotal da Tradição e Cultura Afro-Brasileira(INAEOSSTECAB) e da Sociedade "Senhor do Bonfim Ilê Obá Nilá", da Ialorixá Edelzuita de Lourdes Santos de Oliveira. – Dedicada aos cultos afro há mais de cinqüenta anos, a mãe Edelzuita, filha Oxaguiã, é originária do terreiro da Mãe Menininha do Gantois, em Salvador(BA) e veio para o Rio de Janeiro(RJ) em 1968, fundando nesse ano a sua casa de santo em Vila Valqueire. A própria Igreja do Senhor do Bonfim, em São Cristovão, Rio de Janeiro(RJ), em 1807, teria como fundador João Batista, um baiano. No entanto, foi a secular lavagem do Bonfim, em Salvador, que deu origem à do Rio de Janeiro. A devoção ao Bom Jesus do Bonfim, trazida para Salvador, em 1740, pelo capitão-de-marinha português Teodósio Rodrigues de Faria, tornou-se, ao longo dos séculos, nas palavras de Clarival do Prado Valladares, "confluência e encruzilhada de muitas culturas". A transculturação(identificação…?) do Senhor do Bonfim e Oxalá(Oxalufã…?) resultou numa fortíssima presença dos cultos afro, que fazem do templo baiano um dos mais visitados santuários do País por ocasião da festa do Senhor Jesus, ocorre sempre no início de janeiro. Presentes na formação de grandes criações da cultura carioca, como por exemplo o samba, muitas religiões negras são pouco conhecidas pelo grande público. A festa de Iemanjá na passagem do ano vinha sendo uma excessão a esta regra, embora sua visibilidade principal se limitasse para fora a um espetáculo, pela beleza do conjunto de cantos, de dança e das chamas das velas em integração com as águas do mar. Esta exposição visa, portanto, registrar com maior aproximação e preservar para o futuro aspectos culturais e sociais quase desconhecidos da vida da cidade, através da secular e enriquecedora presença, nela, das comunidades afro-brasileiras, sua tradição e sua reinvenção do vivido.

MANIPULAÇÃO DA RELIGIOSIDADE POPULAR

        Segundo Helcion Ribeiro, "a religiosidade Popular, isto é, das classes oprimidas, tem uma força de radical mudança social. No entanto, historicamente ela tem sido usada, inclusive por opressores políticos, econômicos e até mesmo dentro da própria Igreja, para manter o povo sob a opressão. A mesma força libertadora da religiosidade popular se torna, pois, instrumento de alienação. E isto lhe confere um caráter ambíguo".[1] w A utilização da Rel. Pop. por políticos desejosos de manter o poder sempre foi práticada no País, principalmente no Nordeste. Políticos participam de festas e romarias e tem-se utilizado de influentes personagens religiosas para se promover. Exemplos: em 1980, o Presidente João Batista Figueiredo acompanhou o Círio de Nazaré; o Presidente Collor incluiu frei Damião na sua campanha eleitoral; políticos baianos ajudavam Irmã Dulce (+1992) em vez de investir o dinheiro público numa boa política de saúde. Há os que distribuem santinhos no tempo da eleição. v. Política e Rel. Pop.. v. Nome de Deus. v. Cultura dominante. w É através das normas eclesiásticas para as festas religiosas populares que o clero exerce, em maior ou menor grau e principalmente na parte financeira, a manipulação da festa que "tem que render para a Igreja". O problema é o esvaziamento do sentido da festa religiosa popular, a perda da gratuidade e seu significado em relação ao mundo do trabalho. A opção pelos pobres exige a revisão das normas para as festas, num sentido libertador. w De vez em quando aparecem na imprensa notícias sobre o abuso da boa fé dos fiéis, em igrejas que falsamente encenam milagres. No mês de novembro de 1993, diversos jornais denunciaram a Igreja Forte em Belo Horizonte (MG) por vender, por preços exorbitantes, saquinhos de 50 gramas de um pó branco como sendo uma "poderosa farinha que cura todos os males".

[1] RIBEIRO, Helcion. Religiosidade Popular naTeologia Latino Americana. São Paulo, Ed.Paulinas, 1984. p.165.

MANOELINA DOS COQUEIROS (1911-1960)

           Manoelina Maria de Jesus, natural de Coqueiros comunidade rural no município de Entre Rios (MG). Nasceu de uma família de lavradores humildes e analfabetos, filha de Miguel José da Rocha e Rosária Maria de Jesus. Era uma moça simples, pobre, honesta e fervorosa. Cantava benditos tradicionais com os romeiros. O povo do lugar começou a atribuir milagres à Manoelina a partir dos seus 19 anos, e passou a procurá-la. A historiadora de Crucilândia, Conceição Parreiras Abritta,[1] conta: "Chegavam caminhões repletos de pessoas em sua casa, gente à pé, a cavalo, pessoas vindas de todos os lados. A família de Manoelina não tinha mais sossêgo nem para trabalhar. Chegavam sacos repletos até às bordas de correspondência, muitas das quais traziam dinheiro". Como não sabiam ler, às vezes queimavam tudo. Todos queriam ver a "Santa Manoelina dos Coqueiros". A mesma escritora conta que por causa disso tudo, a família mudou para Dom Silvério, distrito de Bonfim (MG), no dia 9 de abril de 1931, sem avisar ninguém. As romarias, no entanto, e a correspondência reapareceram. Em Dom Silvério, Manoelina não saia de casa, a não ser aos domingos para ir à missa e comungar na igreja matriz de Crucilândia (MG). Vestia-se de uma túnica azul comprida e um véu branco na cabeça. Dizem que ela não tomava alimentos de espécie alguma. Dormia em um catre de madeira, sem colchão nem roupa de cama. Pessoa integra, católica e de bons princípios, sempre foi aceita pela sua comunidade e pelos padres. Nada indica que tivesse convicções espíritas, como sugere o prof. Saul Martins[2]. Dizem que ela curou da tuberculose o carioca Antônio Silvério, que em agradecimento ajudou na construção de um cômodo anexo à casa da Manoelina. Nesta "Ermida", Manoelina rezava e recebia as pessoas, muitas das quais traziam ex-votos de cera e retratos. Havia um altar e muitos santos. Ela limitava-se em benzer uma água que distribuía para as pessoas. Rezava e pedia que rezassem. Normalmente não receitava remédios. Muitas coisas surpreendentes aconteceram na sua vida. Uma delas é que Manoelona sempre adoecia na Semana Santa, piorava na Sexta-feira Santa e melhorava na Páscoa, fato confirmado por um médico do lugar. Ela recebia as pessoas de maneira gentil e respeitosa. Como era solteira, alguns a chamavam de Virgem Manuelina. Manoelina Maria de Jesus era estimada pelo povo da região. "Vítima de uma anemia profunda, aos 49 anos de idade, faleceu na manhã do dia 14 de março de 1960, em Crucilândia (MG), Manoelina Maria de Jesus. (...) A chamada Santa dos Coqueiros foi enterrada no cemitério paroquial de Crucilândia, na sepultura número 284", onde até hoje flores são colocadas. v. Almas santas. w Numa fotomontagem distribuída aos romeiros, vê-se uma mulher morena, vestida de branco, véu na cabeça e um crucifixo na mão esquerda. Seus pés descalços pisam sobre a lua. Na parte superior da foto dois anjos trazem as palavras "Deus te guie". w O poeta popular Zé Vicente publicou em Belém (PA, 1931) o folheto "A Santa dos Coqueiros". Em 16 páginas, descreve a vida de Manoelina, começando com as palavras: Foi lá em Belo Horizonte.

[1] ABRITTA, Conceição Parreiras. História de Crucilândia. Belo Horizonte, Página Studio Gráfico, 1988. Citações: pp.100 e 102-103.

[2] MARTINS, Saul. Folclore em Minas Gerais. 2a.Ed. Belo Horizonte, Ed.UFMG, 1991. p.68. O autor opina: "Na área do espiritismo, sobretudo o de Alan Kardec, a primeira grande expressão revelada foi Manoelina ou Santa Manoelina dos Coqueiros, como se tornou conhecida e venerada na década de 30. Seguiram-se Chico Xavier (...), Zé Arigó, .".

NOME

          No interior, quando perguntam pelo nome de um cidadão, dizem: Qual é a sua graça? w O nome é posto no dia do batismo. É o nome de pia. v. Pia batismal. w O nome era procurado na folhinha do ano, no almanaque ou na cartilha, tendo que ser o do santo do dia do nascimento, o nome que a criança trouxe. Nasceu no Natal, será Natalino. Muitas vezes, o próprio sobrenome ficava ligado ao nome do santo, como João Evangelista, João da Cruz, Pedro de Alcântara. Também a ladainha de Nossa Senhora e a lista das festas marianas eram fonte para a procura de nomes : Veneranda e Predicanda para meninas, ou Aparício e Adonai para os meninos, como informa frei José Audrin.[1] Outros escolhem nomes do avô ou da avó, ou nomes conhecidos na família. Hoje existem muitos motivos para escolha do nome. Optam por nomes de artistas, esportistas, um nome africano ou indígena, às vezes escolhem nomes de remédios, sabonete, marca de cigarro. w Muitos montes, rios, lugares devem seus nomes ao santo do dia de sua descoberta: São Paulo, Natal, São Luís. v. Terra da Santa Cruz. v. São Francisco (rio). w Existe a mudança de nome por motivo de uma conversão (Abraão, São Paulo começaram uma nova vida), quando se entra num convento, quando se passa por uma iniciação. Ao ser eleito, o papa escolhe um nome. w Nome querido: v. Nome de Maria. O poeta popular Expedito Sebastião da Silva diz: De padres, bispos e papas/ morrendo o povo se esquece/ mas o nosso padre Cícero/ isso jamais acontece/ cada dia que se passa/ mais seu santo nome cresce.// w Nomes para carinhar ou para xingar: v. Nome da mãe. Muitos dizem no confessionário que xingaram um nome feio. Há muitos nomes para o diabo. O nome próprio do demônio, do raio e das doenças graves nem sempre são pronunciados. Em vez de diabo dizem 'diacho'; o raio vira 'faisca'; o câncer vira 'cê-a'; a lepra é chamado 'o mal'. v. Bater na madeira. w Para saber o nome do futuro namorado: v. São João Batista. w As rezadeiras incluem na oração o nome do doente. Em várias benzeções, a cura é feita com o nome de Deus ou do santo. Em Montes Claros (MG), Ana Correia Vieira reza contra mordida de cobra: Jesus, Maria, José e São Bento/ Grande é o nome de Jesus, Maria, José e São Bento/ Santo é o nome de Jesus, Maria, José e São Bento/ Ilia, Ilós, Edra, Sabata e Sabatana. Reza três vezes, fazendo cruzes com ramos verdes. w Nas tribos indígenas brasileiras, quando da iniciação da puberdade, os rapazes recebem, além do nome de criança, seu nome tribal de adulto. w No candomblé, ao final da sua iniciação, o filho-de-santo em rito especial revela o nome de seu santo ou orixá. v. Orunkó.

[1]AUDRIN,Frei José M.,O.P. Os sertanejos que eu conheci. Rio de Janeiro, Ed.José Olympio, 1963. p.148.

NOSSA SENHORA DAS DORES         

              Festa: oficialmente 15 de setembro, desde 1727. w [Iconogr.] Maria, a mãe de Jesus, em pé, ao pé da Cruz. A Idade Média (desde o séc. XIV) representa Nossa Senhora das Dores assim: sentada e com o Filho morto nos braços. Seu coração é atravessado por uma ou sete espadas. Pode ter, ao seu lado, os atributos da Paixão. v. Nossa Senhora da Piedade. w Jo 19,25 diz: "Junto à Cruz de Jesus estavam de pé a sua mãe e a irmã de sua mãe. v. Nossa Senhora da Soledade. w A Mãe das Dores em pé e o Senhor dos Passos podem ser contemplados em muitas cidades durante a Procissão do Encontro, na Semana Santa. Em alguns lugares é feita a coroação de Nossa Senhora das Dores. w Existe a confraria de N.Sra. das Dores. Também a encontramos em algumas excelências de defunto: Uma incelência de Nossa Senhora das Dores. Eu não sei como ela pode sofrer tantas dores. (Santos Dumont. MG, 1971). w Todas as sete dores de Maria referem-se a sofrimentos de Jesus. v. Setenário. v. Lágrimas de Nossa Senhora. w No Juazeiro do Norte (CE) do Padre Cícero, a festa do dia 15 de setembro é celebrada com grande romaria. N.Sra. das Dores tem festa popular em Caruaru (PE), onde é padroeira, e em Triunfo (PE). w Sua festa em Bias Fortes (MG) movimenta a região. w Lemos no Novo Goffiné Brasileiro que, "segundo uma revelação feita por São João Evangelista, Nosso Senhor prometteu á Santissima Virgem, para aquelles que desejarem compartilhar as Dores da sua bemdita Mãe: uma contrição perfeita dos seus peccados ante da morte; uma protecção especial na hora precisa do trespasse; a assistencia particular da Rainha dos céus nos seus derradeiros instantes".[1] w Cinco dores: consta do manual Paraiso de Divinas Flores ou Horas Lusitanas (1766), "uma devoção mui especial às cinco maiores dores de Maria Santíssima", devoção que vai acompanhada da seguinte advertência: "Referem muitos autores, citados no livro Sermones Discipuli, que hum santo padre ouvio em espirito perguntar Christo Senhor Nosso à sua Mãi Santissima, quaes havião sido as suas maiores dores que no mundo tinha padecido? Respondeu a Senhora que cinco havião sido as maiores que todas. A primeira disse a Senhora, ó filho amabilissimo, quando me profetizou o Santo Simeão que vos havião de matar. A segunda quando vos perdi de vista por três dias. A terceira quando ouvi que vos haviam preso e atado. A quarta quando vos vi crucificado. A quinta quando vos vi por no sepulchro. Ao que respondeu Christo Senhor Nosso: Quem pela vossa primeira dor, mãi amabilissima, me saudar com um padre-nosso e ave-maria lhe darei conhecimento e contrição de seus pecados; se pela segunda dor me fizer o mesmo, conceder-lhe-hei remissão de suas culpas. Se pela terceira fizer o mesmo, lhe concederei as virtudes que perdeu pelo pecado. Se pela quarta fizer o mesmo dar-lhe-hei dom de graça e antes de sua morte o meu corpo sacramentado. E se pela quinta fizer o mesmo, lhe assistirei na sua morte e o receberei na minha gloria. (segue a forma de se fazer as referidas cinco devoções. Por ex.: Senhor meu Jesus Christo, eu vos saudo em honra e reverencia da dor que padeceu minha senhora Maria Ssma., quando lhe profetizou o Santo Simeão etc.etc.). w Invocada nas cólicas e nas dores em geral, em Pernambuco. w Em Urucuçu (BA, 2001), Nossa Senhora é invocada contra dor de cabeça. Eudilce S. dos Santos conta: Certo dia senti uma dor de cabeça muito grande que não tinha remédio que passasse. Na minha rua tinha a dona Joana rezadeira. O povo me disse que ele rezava muito bem. Fui procurá-la. Ela me colocou num tamborete, de costas virada para a porta da cozinha. Pegou um raminho de qualquer planta. Apertava bem como uma mão minha testa e com a outra passava o raminho e dizia: Nossa Senhora das Dores,/ atende o meu clamor./ José, Maria, Jesus Amado/ leva essa dor de cabeça/ para as ondas do mar sagrado// E muito mais coisas ela dizia. Saindo dali, com uma meia hora senti um alívio muito grande. A dor de cabeça tinha ido embora. w Nos cultos afro-brasileiros é identificada, no Rio de Janeiro, com Yemanjá e com Sinhá Bamba e, em Pernambuco, com Yemanjá.

[1] ROHDEN, Huberto. Pe. Dr. Novo Goffiné Brasileiro. 3ªEd. Petrópolis, Ed.Vozes, 1936. p.505.

O HOMEM QUE DEU A LUZ AO DIABO, NO DIA QUE FREI DAMIÃO FOI SUSPENSO DE PREGAR NO CEARÁ (08-10-1975)

        Folheto do poeta cearense Manoel Caboclo e Silva. Quando coisas impossíveis acontecem, algo sobrenatural está acontecendo. Pedro apóstolo caminhou sobre as águas; isso é milagre de Jesus. Um rapaz dar a luz ao diabo, só pode ser um castigo. Aqui, selecionamos apenas alguns versos do poeta popular: Isto foi agora mesmo/ na Fazenda da Mirage/ no mesmo lugar morava/ o moço Chico Tapage/ pegou um santo e quebrou/ com a maior fuleragem.// Nisto chegou o pai dele/ nesta mesma ocasião/ dizendo: Chico Tapage/ tenha mais educação/ por que você não respeita/ a santa Religião?// Respondeu Chico Tapage: / - No mundo vale quem tem/ o homem que tem dinheiro/ todo mundo lhe quer bem/ a graça sem o dinheiro/ nunca valeu a ninguém.// Meu pai, eu vou lhe dizer/ para encurtar a razão/ eu não acredito mais/ na tal de religião/ vi nas páginas dum jornal: / Proibido frei Damião.// (...) Qual foi o crime ou a culpa/ que teve frei Damião/ se o povo gosta dele/ por justa lei da razão?/ Meu pai isto é inveja/ nascida do coração.// De muito tempo já vem/ a tamanha inquisição/ veja que Jesus sofreu/ calúnia e difamação/ imagine um pobre frade/ como é frei Damião.// Quantas missões tão bonitas/ na igreja tem pregado!/ O nome de Jesus Cristo/ tem no coração gravado/ agora no fim da vida/ seu coração humilhado.// Pela sua humildade/ pelo dom de aceitação/ pelas críticas que recebe/ o frade frei Damião/ relembrou os sofrimentos/ do Padre Cícero Romão.// Quedê o carro de luxo/ que não tem frei Damião?/ Quedê as suas riquezas/ que vive assim pobretão?/ - Muitas vezes ele dorme/ deitado no frio chão.// São setenta e sete anos!/ Já precisa proteção/ ser consolado na fé/ da santa religião/ seguindo o resto da vida/ cumprindo a sua missão.// O velho disse: Meu filho/ você vai-se arrepender/ saiba que o ignorante/ só nasceu para sofrer/ quem perde a graça de Deus/ da vida perde o prazer.// Chico disse: Ora essa!/ Lá vem meu pai tapear/ com história de sabido/ querendo o besta enganar/ só me admiro daquilo/ que eu nunca ouvi falar.// Certo é que cada um/ vai pagar pelo que faz/ - Sabe o que aconteceu/ com este pobre rapaz?/ No outro dia ele teve/ um filho do Satanás.// O moço ficou tristonho/ começou a demudar/ deu-lhe tremura nas pernas/ começou a se coçar/ na manobra da coceira/ viu o moleque espirrar.// Foi logo abrindo o livro/ e mostrando seu caderno/ em letras grandes, o decreto/ de ordem do Padre Eterno: / Pecar contra o Espírito Santo/ está condenado ao inferno.// Separações dos casais/ pelos caminhos errados/ praticando os adultérios/ por viverem separados/ os filhos pedindo esmola/ pelas ruas desprezados.// A classe dos libertinos/ que vivem de confusão/ um vive embriagado/ já outro dá pra ladrão/ seus crimes modeream mais/ ouvindo a frei Damião.// Frei Damião tem a graça/ que o Espírito Santo lhe deu/ tem a fé, tem a virtude/ pra converter o ateu/ inveja, orgulho e maldade/ nunca foi problema seu.// v. Sermão. w O poeta Joaquim Batista de Sena escreveu o folheto história da intriga e suspensão do bispo do Crato às missões de frei Damião.

OFÍCIO DAS TREVAS

     Ofício divino, de caráter triste, em algumas igrejas cantado na Semana Santa, principalmente na Quarta-feira Santa que, por isso, também é chamada Quarta-feira das Trevas w  Na catedral de Mariana (MG), o ofício das trevas é rezado às 9.00hs no Sábado de Aleluia.  w  A tradição é antiquíssima. Desde o séc. VII, celebra-se com orações litúrgicas as exéquias do Senhor. No séc.VIII, a liturgia franco-romana já conhece o apagar das luzes durante o ofício, na Sexta-feira e no Sábado. No século IX, também na Quinta-feira Santa. Desde o séc.XII, o nome ‘ofício das trevas’ indica a oração noturna (matinas e laudes) do ofício divino nos dias Quinta-feira Santa, Sexta-feira Santa e Sábado de Aleluia.  As matinas e laudes rezadas seguidas contam 14 salmos e nove leituras, das quais algumas lamentações do profeta Jeremias. É “de trevas” pois, no decorrer dele, apagam-se sucessivamente 14 velas em memória das trevas que cobriram a terra na morte do Senhor. Para este fim, é usado um candelabro triangular com 15 velas. A vela da ponta, a décima quinta, representa o Cristo. As outras representam os onze apóstolos e as três Marias. Segundo vários autores medievais, apagar uma vela após cada salmo significa o abandono de Jesus por seus seguidores, pricipalmente no horto. A liturgia antiga colocava a última vela acesa atrás do altar para trazê-la de volta mais tarde, talvez no amanhecer, simbolizando assim a morte e a ressurreição do Senhor.[1] v. Círio pascal.  w  A décima quinta vela no alto do candelabro triangular é chamado galo ou galo das trevas, também em Portugal.  w  No final do ofício cantado em latim, era costume fechar os livros com força exagerada. Segundo o Goffiné, "remata o officio um rumor confuso, que lembra o tropel e queda tumultuosa da cohorte, que, guiada por Judas, veio alta noite aprisionar a divino Salvador no Horto das Oliveiras”.[2] Já para outros, o barulho no final do ofício significa o terremoto que acompanhou a morte de Jesus, ou então a destruição de Jerusalém.  w  Antigamente, na igreja matriz de Iguape (SP), "sobre o assoalho de largas tábuas de madeira de lei os pés dos fiéis, batendo fortemente, produziam um ruído de trovão, no ofício das trevas na Semana Santa".[3]   w  O “ofício de trevas”, que indicava as orações noturnas de três dias seguidos, hoje se resume em uma única celebração. E, devido ao excessivo verbalismo e a pouca fantasia litúrgica, somente em poucos lugares encontramos esta cerimônia cantada.  w  Jota Dângelo reflete: “O ofício das trevas é, na realidade, o início de todo um ritual, quase em extinção, das solenidades da Semana Santa. Em São João del-Rei elas conservam-se intocadas, precedidas de uma faina e um labor coletivos. Nas sacristias, bastidores bentos deste grande palco religioso, é de ver-se os preparativos ritualísticos para a grande festa barroca. Reformam-se as tochas, rebordam-se paramentos, ornamentam-se as tribunas, povoa-se de flores a capela do Santíssimo, lustra-se o esquife, repara-se o pálio, fazem-se brilhar lanternas e custódias, enjarreiam-se os andores, engomam-se as opas, lavam-se as alvas, passam-se os hábitos, providenciam-se cartuchos de amêndoas, asas de anjos, trajes de figurados, capacetes de centuriões, incenso para os turíbulos, montam-se palanques, lustra-se a prataria das bancadas. Uma atividade frenética domina uma centena de colaboradores sem qualquer remuneração. É a fé que nos move? A todos? Não importa. O ritual permanece vivo”.[4]

[1] Cf. BRINKHOF, Lucas. ofm; et alii. Liturgisch Woordenboek. Roermond en Maaseik, J.J. Romen en Zn, 1958-1962. pp.560-571; HEIDT, A.M. Catholica. Vol.1. Hilversum, Stichting Catholica ,1968. pp.640-641.a

[2] GOFFINÉ,L. Manual do Christão. Rio de Janeiro, Colégio da Imaculada Conceição (Botafogo), 1900. p.430.
a

[3]
MACHADO, Benedito. Senhor Bom Jesus de Iguape. São Paulo, Luz e Silva Ed., 1990. p.24.a a aa

[4]
DÂNGELO, Jota. “O Rito Barroco da Paixão”. In: Palavra. Ano 2. No.13. Maio/2000. pp.96-97.

PAPAI NOEL

            [Noel: Do hebraico " 'imanû'el", Deus conosco; através do francês "Noël", natal. v. Emanuel.]  Um velho de barbas brancas, roupas e gorro em vermelho e branco, botas pesadas e pretas. Personifica o ano que está no fim. Segundo o caderno gaúcho ‘Folk, Festa e Tradições Gaúchas’ (1983), “a figura do Papai Noel, com reminiscências de bispo São Nicolau, foi criada há pouco mais de 150 anos por Thomas Nast (1840-1902), famoso caricaturista norte-americano”.[1] Mas, só ficou mesmo conhecido em 1931, numa propaganda da Coca Cola.  w  No contexto do Natal, Papai Noel faz companhia ao Menino Jesus, que não deixa de representar o ano novo, dado que seu nascimento intencionalmente coincide com as festas do solstício na Europa. Na primeira metado do séc. XX, Papai Noel veio para os trópicos importado da Europa e dos EUA com trenó, neve e árvore de Natal, quando é verão aqui. v. Estação. Entre nós, este estranho senhor com o saco nas costas beneficia comerciantes e crianças bem comportadas. v. Pelsnikel. v. Salário (13º). v. Consumismo.  w  No folhetoO Nascimento do Menino Jesus e a carreira que um padre da renovação deu no velho Papai Noel” lemos: O padre disse: você/ é uma candeia sem luz/ é apenas criação que para as trevas conduz/ pra ver se toma o lugar/ do santo mestre Jesus.// (...) Você diz que está apoiado/ Agora pergunto eu: / Jesus nasceu em Belém/ E você onde nasceu/ Papai Noel gaguejou/ e nada mais respondeu.// Jesus é quem dá saúde/ Jesus é quem dá o pão/ Jesus é quem dá a coragem/ a todo fiel cristão/ Jesus é quem dá os presentes/ e ainda dá a salvação.//[2]  w  As crianças na cidade esperam grandes coisas de Papai Noel: No entanto, ... o filho da lavadeira/ esperou a noite inteira/ Papai Noel na janela.// Ele porém não chegou,/ noite longa foi aquela!/ e o menino assim pensou: / De todos nós da favela/ Papai Noel se esqueceu/ e chorando adormeceu/ debruçado na janela.//[3] v. Crianças na Rel. Pop..  w  Mais sobre o assunto: MATTOS, Cyro de. Natal das Crianças Negras. Ed. Macunaíma, 2002.

[1] Equipe IGTF. Folk, Festo e Tradições Gaúchas. (Cad.Gaúchos No.8) Porto Alegre, Fund.Inst.Gaúcho de Trad.e Folcl., 1983. p.17.

[2] Folheto de Minelvino Francisco Silva.

[3] DINIZ, Pompílio. Poemas. Goiânia, 1987. p.195-196 (citamos apenas o final).

POBRE: EXPLORADO OU INCOMPETENTE ?

             Face às palavras de que “o reino de Deus pertence aos pobres”, a classe média fica confusa e acha difícil aceitar a opção preferencial pelos pobres. Do ponto de vista do consumismo, o pobre não tem valor, pois não consegue competir, distancia-se do projeto capitalista (acumulação de riqueza) e, por isso, é excluído. A culpa, então, não é da sociedade, mas da incompetência individual do pobre, de modo que não há explorados, mas apenas incompetentes e preguiçosos. v. Espiritualizar. O pastoralista Jung Mo Sung acusa a compreensão capitalista de, além de empobrecer o pobre, declará-lo incompetente para tudo. Resta à Igreja não fazer o mesmo, dando ao pobre a competência de ser Igreja.[1]

[1] SUNG, Jung Mo. “Pobre, explorado ou incompetente?”  In: Vida Pastoral. Set/Out/1984. pp.13-16.

QUEIMADURA

            Remédios e rezas aliviam a dor e curam as feridas provocadas pelo fogo.  w  No norte de Minas Gerais, reza-se: "O fogo não tem frio, a água não tem sede, o ar não tem calor, o pão não tem fome; São Lourenço, curai estas queimaduras pelo poder que Deus vos deu”. Fazer o sinal-da-cruz e oferecer um P.N. para São Lourenço.[1] v. Verdade.  w  Em Barra Mansa (RJ, 1970), Maria de Carvalho Sampaio rezava: Santa Iria tinha três filhas: uma que lavava, outra que cozia, outra que curava fogo que ardia. Rezava assoprando e cuspindo. Em Divinópolis (MG), rezam: Santa Iria tinha três fia./ Uma lavava, outra cozia, outra no fogo ardia./ Pelas labaredas deste fogo tira a dor de fulano.//  w  Em Cariranha (BA, 1985) dizem: Santa Iria, quando nasceu,/ Jesus deu ela a reza/ pra ela rezar quem for queimado./ E ela rezar com as palavras dela./ Não é de imbroboiar. (=formar bolhas)/ Com as palavras de Deus e da Virgem Maria,/ nada te acontecerá./ Deus é Pai, Deus onipotente,/ que essa queimadura/ não é de ir adiante/ com os poderes de Deus e da Virgem Maria.// Um pai-nosso oferecido a N.Sra.Aparecida./ Ofereço este pai-nosso, nossa Senhora Aparecida,/ que é de desaparecer este mal que vem pra riba de mim,/ levai pras ondas do mar,/ pra nunca mais ni mim voltar.// Benzer com raminho. (Inf.: Rosa Pereira de Souza)[2]  w  Em São Francisco do Sul (SC), Santa Sofia tinha três filha/ uma fiava, outra lia,/ outra em chama de fogo ardia./ Ia correndo, ia bramindo,/ encontrou com Jesus Cristo./ A Jesus perguntou com que se curaria./ Que cuspisse e bafejasse,/ que com isso sararia,/ em nome de Deus e da Virgem Maria.[3]  Em Chapada do Norte (MG), registramos: Santana, seu filho queimou. Pergunta a Jesus o que cura. Cuspe de sua boca sempre cura.[4]  w  Remédio: folhas machucadas de abóbora colocadas em cima da queimadura. Há quem cure queimadura com cuspo

[1] AZEVEDO, Téo. Plantas medicinais, Benzeduras e Simpatias. São Paulo, Global Editora, 1984. p.172.

[2] Apud: SOUZA, José Evangelista de. Pe. C.M. Raízes e Histórias. Vol.I. Petrópolis, Vozes, 1989. p.82.


[3] CABRAL, Oswaldo. “A Medicina Teológica e as Benzeduras”. In: Revista do Arquivo Municipal. Ano XXIV, vol.CLX. São Paulo (SP), Dep.Municipal de Cultura, 1957. p.115.


[4] POEL, Francisco van der. Com Deus me deito, com Deus me levanto. (Estudos da CNBB, 20) São Paulo, Ed.Paulinas, 1979. p.155.

QUIZILA

          [Do quimbundo, “kijila” que significa ao mesmo tempo preceito e proibição.]  Nos cultos afro-brasileiros, as regras de conduta (preceitos e proibições), principalmente aquelas que derivam da relação entre o filho-de-santo e seu orixá. A identificação das quizilas de cada filho-de-santo é momento importante da iniciação.[1] v. Banquete.  w  Verbete afim: v. Obrigação..

[1] AUGRAS, Monique. “Quizilas e preceitos: transgressão, reparação e organização dinâmica do mundo”. In: MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de (Org.). Candomblé, desvendando Identidades. São Paulo, EMW Editores, 1987. p.77.

RACISMO

           Crime inafiançável. O Artigo 1 da Lei 7716, de 05/01/1989, diz: “Serão punidos, na forma desta lei, os crimes de preconceitos de raça ou de cor”. Em 14 artigos a lei elabora as várias formas de discriminação e determina as penas.  w  Doutrina que afirma a superioridade de certas raças humanas e o direito da sua supremacia. Foi elaborada por Friedrich Ratzel (1844-1904). No livro "Ensaio sobre a desigualdade das Raças humanas", o francês José Artur Gobineau (1816-1882) apresenta os arianos como raça superior. Mais tarde, a obra fomentou o anti-semitismo na Alemanha.  w  A discriminação do negro tomou grande vulto nos Estados Unidos e na África do Sul (apartheid). Nos países industrializados, os numerosos trabalhadores imigrados têm sido objeto de manifestações racistas.  w  O prof. Eduardo Hoornaert diz: “Na opinião comum do séc. XIX, o negro era assimilado ao pré-humano. A vulgarização das idéias de Darwin deu a entender que o homem é herdeiro do macaco, sendo que o negro estava mais próximo do macaco que o branco. Um sem-número de estudos ‘científicos’ procurou comprovar esta opinião, segundo a qual os negros se situam entre os macacos superiores e os homens. O homem branco nada tem a aprender do negro que é genética e biologicamente inferior. Mesmo cristianizado o negro permanece inferior pois não é capaz de ‘mudar de cor’. A cor condena o negro, de maneira irremediável”.[1]  w  No Brasil (1997), dos 16 mil sacerdotes apenas 500 são de origem africana, e somente 6 dos 350 bispos são negros. “O racismo é uma realidade dentro da Igreja latino-americana”, afirma o frei franciscano David Raimundo Santos. E acrescenta: “Várias dioceses ainda têm dificuldade em colocar um atabaque na igreja. (…) A cultura ocidental européia entende que para entrar em contato com Deus é preciso se trancar e rezar. Nós, afro-brasileiros, e os indígenas usamos a dança e o corpo para expressarmos nossa comunhão com Cristo”.[2]  w  No Brasil, a teoria do racismo foi divulgada, por ex., pelo jurista e historiador Francisco José de Oliveira Vianna (1883-1951), no Rio de Janeiro, no seu "Raça e Assimilação" (1932). No seu livro “Clara dos Anjos”, o escritor carioca Afonso Henriques de Lima Barreto (1881-1922) denunciou o racismo.  w  Os movimentos negros atuais acusam a sociedade brasileira de promover um "racismo cordial". v. Casa grande.  w  Em livros didáticos, inclusive os religiosos (catecismo, primeira comunhão), encontramos racismo especialmente nos desenhos.  w  A socióloga Rosana Heringer  pesquisou e confirma: “Existe um conjunto expressivo e articulado de ações que hoje moldam e dão nova fisionomia à luta contra a desigualdades raciais no Brasil”. E continua: “Aqui falamos de desigualdades raciais, diferenciando-as das estratégias convencionais de luta contra a discriminação, o racismo ou da mobilização anti-racista em geral. (...) As políticas antidiscriminatórias não produzem necessariamente igualdade de oportunidades. São instrumentos, na sua maioria, por um lado, punitivos ou, por outro lado, de caráter educativo, que possuem um efeito sobre a discriminação no cotidiano, no ‘varejo’ e, em médio prazo, podem provocar mudanças de comportamento e mentalidades. As políticas de combate às igualdades raciais (...) são instrumentos desenhados na perspectiva da promoção da igualdade, em situações concretas, geralmente tendo como unidade de implementação uma instituição pública ou privada (empresa, prefeitura, universidade, ONG, cooperativa etc.) São estabelecidas metas e estratégias que provoquem o aumento do número de pessoas de um determinado grupo na instituição”.[3]  v. Organização dos negros no Brasil.  w  Mais sobre o assunto: IANNI, Octávio. Raças e classes sociais no Brasil.  Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1966;  Idem:  Escravidão e racismo. São Paulo, Hucitec, 1988; Instituto de Pesquisas Datafolha/ Folha de São Paulo. Racismo Cordial. São Paulo, Ed. Ática, 1995.

[1] HOORNAERT, Eduardo. ´Uma guerra sem trégua: a guerra cultural contra o negro”. In: A vida em Cristo e na Igreja. (Revista de Liturgia). São Paulo. Nov/Dez.1984. p.19.

[2]
Jornal do Brasil. 4/10/1997. Cad: O Papa no Rio. p.8.

[3] HERINGER, Rosana. “Mapeamento de Ações e Discursos de Combate às DesigualdadesRaciais no Brasil”.In: Estudos Afro-Aiáticos. Ano 23, n.2, 2001. p.296.

REZA BRAVA

           Sinônimo de oração obrigativa. Para alguns, o mesmo que reza forte. A busca de um resultado imediato, sem dúvida, faz da reza brava um elemento questionável na Rel. Pop.. v. Graça. v. Eficácia. Algumas destas rezas pretendem atrasar as pessoas. w Seguem depoimentos registrados no livro "Com Deus me deito, com Deus me levanto".[1] José Soares dos Santos observa: Existe rezas bravas. Deus deixou tudo no mundo. Temos de seguir o caminho do bem com nossa vontade. (p.84) - A rezadeira Marciana Gomes da Cruz disse: Estas rezas se chamam obrigativas por que obrigam o santo a fazer as coisas como a gente quer. Há pessoas que apertam o santo debaixo do pilão ou duma lapa. (...) A gente vê que quem mexe com essas coisas fica atrasado, a ponto de não ter mais uma roupa. Deus não ajuda ele. (p.82) - Disse Fulosina Rodrigues Ferreira: Para mim a reza brava, obrigativa e forte é tudo uma coisa só. (p.84) - Segundo Luísa Teixeira Ramalho, quem tem oração brava não tem fé em Deus. Para eles essas orações está acima de Deus. Ninguém pode mandar na vontade de Deus. Ele é dono de tudo e só desmancha quando quer. Rezar oração brava põe o outro como correia no fogo, quer dizer, ele fica atrasado. Ela faz adoecer. Existem orações bravas para amansar o marido que é ruim para a mulher. Também para inimigos e animais. A oração (brava) não é boa porque faz atrair os outros e domina a pessoa. (...) A oração forte é uma oração mais fina. Para rezar não pode ficar sentada. O credo mesmo é uma. A pessoa que mistura as rezas é igual um raizeiro que não conhece as raízes: Quer sarar e acaba matando a pessoa. Toda oração forte é unida a Deus. As orações fortes tem poder sobre as bravas.Ela faz a gente descobrir a sujeira de um rezador sujo e guardar o corpo do inimigo. Orações fortes: salve-rainha, credo, Estrela do Céu, Maria Valei-me, a Oração de Nossa Senhora do Monte Serrat, Ofício de Nossa Senhora e outras. A melhor hora de rezar a salve-rainha é de madrugada, ou então meio-dia em pino. Ela serve para excomungar o demônio, afasta o inimigo e faz descobrir sujeiras. O credo também excomunga o demônio e afasta o inimigo. Maria valei-me também defende de tudo quanto é mal. Estrela do Céu defende de vento, raio, corisco e tentação na casa. Nossa Senhora do Monte Serrat pode contar com ela na hora da morte. Não morre queimado ou afogado; não morrerá de má morte, como ensina a oração. O Ofício ajuda o agonizante. Quem reza todo sábado o Ofício conhece antes o dia da morte. (pp.82-84) - Dona Isabel Vieira Santos: Estas orações um cristão não pode rezar. Quem reza isso não está com Deus, não é católico. Agora rezando só para defender o corpo da gente pode, não é pecado. A oração de São Marcos é muito brava. Quem reza São Marcos fica furioso, caminha até em cima da cuieira da casa! Pois é. (p.84) w Tem as rezas bravas de São Marcos e da Cabra preta. A da Beata Santa Catarina é rezada para envultar-se. Também tem o credo revoltado e outras orações rezadas de trás para frente. v. Contrario. w Num depoimento popular: Nem Santo Antônio com gancho não me obriga a fazer isso. Pois Santo Antônio é malino, tem as rezas bravas para amansar e mesmo assim eu não o faço! [2]

[1] POEL, Francisco van der. Com Deus me deito, com Deus me levanto. (Estudos da CNBB,17) São Paulo, Ed.Paulinas, 1979. PP.82-84.

[2] Explicação da artesã Maria Lira Marques Borges. Araçuaí (MG), 1992.

 

S.P.Q.R.

                      Letras escritas no estandarte da guarda romana nas encenações da Semana Santa ou nos quadros da via-sacra que significam: Senatus Populusque Romanus (latim): o senado e o povo romano. No guião ou pendão à frente do Senhor dos Passos, vemos as mesmas letras assim interpretadas: Salva Populum quem redemisti (latim): salva o povo que remiste. O povo dá várias interpretações: Senhor dos Passos, Querido Redentor; Sal, pão, queijo, raspadura; Seu Padre, quer rapé.[1]

[1] SILVA, Arthur Vieira de Rezende e. Phrases e Curiosidades Latinas. Cachoeiro do Itapemirim. ES. Typographia Baldassari & Semprini, 1926. p.736.

SÃO FRANCISCO DE ASSIS (c.1181-1226)

        Festa: 4 de outubro (Dia Universal da Anistia)  w  [Iconogr.] Um dos santos que mais representações teve em toda a história da Igreja. Exemplos: ele de hábito franciscano e ajoelhado diante do Cristo crucificado, do qual se irradiam as asas dos serafins; com os braços levantados e as mãos espalmadas para receber os estigmas das chagas de Cristo; encontrando-se com São Domingos, os dois abraçados; Outros atributos dele são: ampulheta, livro aberto, caveira, açoite de três pontas.  w  No artesanato brasileiro, há muitas imagens de São Francisco cercado de passarinhos.  w  Nasceu e morreu (aos 44 anos) em Assis na Itália. Filho de um bem-sucedido comerciante de tecidos, ele foi batizado com o nome de João e apelidado pelo pai de Francesco, o que quer dizer: francesinho. Converteu-se em 1206, aos 25 anos, quando se encontrou com os leprosos. Em meio às mudanças sociais e religiosas de seu tempo, ele quis ser o irmão menor de todos os homens – os pobres, os bispos, os muçulmanos – de todas as demais criaturas como, por ex., lobo, verme, grilo, burro, peixes, os quatro elementos (terra, fogo, ar, água) e, no cosmos, sol, lua, estrelas.  w  Outro momento da sua conversão aconteceu na Capela de Porciúncula, onde ouviu as palavras de Jesus crucificado: “Vai reconstruir a minha Igreja”. Sua regra de vida assim começa: "A Regra e a vida dos Frades menores é esta: observar o Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem propriedade e em castidade”. v. Pobreza voluntária. Ensinou a saudar a todos com as palavras: “Paz e Bem!” Este Irmão Universal teve muitos seguidores. Na primeira ordem, franciscanos, capuchinhos, conventuais. Na segunda, as irmãs Clarissas. E, na Ordem Terceira de São Francisco, leigos e leigas desejosos de segui-lo. v. Cordígeros. v. OFS. Santa Clara de Assis foi sua companheira na busca do ideal. Francisco escreveu também uma pequena regra para eremitas.  w  Foi grande imitador de Cristo, de quem recebeu as cinco chagas, em 1224. Nos fim da vida escreveu seu famoso “Cântico do irmão Sol”. O santo de Assis foi um homem incomparável. Tem fascinado artistas, filósofos, políticos, enfim, pessoas de todas as ideologias e religiões.  w  São Francisco tornou-se Patrono da Ecologia (1979). v. Rio São Francisco.  w  Há muitas igrejas de São Francisco. Em João Pessoa (PA), no centro da cidade velha, há uma que teve a construção concluída em 1608 e que, além da capela dourada, ostenta a paixão de Jesus Cristo em azulejos, tendo a seu lado a capela da ordem terceira e o convento franciscano de Santo Antônio. Em Salvador (BA), Rio de Janeiro (RJ), Recife (PE) e São Paulo (SP), encontramos conjuntos arquitetônicos semelhantes. A igreja de São Francisco de Goiás Velho (GO), foi construída em 1741. O santuário em Canindé (CE) é um dos maiores centros de romaria no Nordeste. No Estado de São Paulo, é realizada a Festa de São Francisco em Cerquilho (SP).  Muitos casamentos chiques de Niterói (RJ) são feitos no Saco de São Francisco. A igreja de São Francisco na Pampulha (1942), em Belo Horizonte (MG), é exemplo de arte moderna.  w  Na Rel. Pop. em Pernambuco, seu nome é invocado na falta de comida e contra animais bravos. O cordão de São Francisco é usado no tratamento de loucos, possessos e bravos. Também é colocado na cintura dos falecidos. Além do Ofício de São Francisco de Assis, encontramos vários benditos populares do santo: v. Viva São Francisco. v. Bênção de São Francisco. A chamada “Oração de São Francisco”: Senhor, fazei-me instrumento da vossa paz  não é da autoria do santo. Na Rel. Pop. existem várias histórias: ...  v. Fazer as necessidades no mato.  w  Uma das obras tipicamente franciscanas é a Irmandade da Terra Santaw  No candombe: São Chico é um santo guerreiro/ abriu a porta do céu,/ clareou o mundo inteiro.// (1993.Jequitibá. MG)  w  Nos cultos afro-brasileiros é identificado, no Rio Grande do Sul, com Irokô, o santo da figueira; na Bahia, com Iroko (patrono dos pobres), Loko e Ifá; na umbanda, com Katende. v. Tempo. v. Semiromba.  w  Verbete afim: v. Toca de Assis.

TAPUIADA

        Na dança dos tapuios ou tapuias em Goiás, dois grupos de índios em fileiras encenam lutas manejando paus e arcos e flechas. Usam cocares, saiotes, colares e tocam flautas e maracas. Num determinado momento, um dos caciques cai morto. Após lamentações, dá-se a sua ressurreição. v. Morte e ressurreição. Em Jaraguá (GO), os tapuias participam da festa do Rosário. Cantam: Não professamos a lei cristã/ não conhecemos outro pajé./ Adoramos nosso cacique/ adoramos com toda fé.// Com prazer e alegria/ cantamos com todo gosto./ Louvamos São Benedito/ e o rosário de Maria.//[1] A tapuiada tem elementos comuns com os caboclinhos. v. Cultura indígena. v. Guerra.  w  Em Paracatu (MG), temos uma luta entre congos e tapuios. A dança guerreira e religiosa é realizada a 8 de setembro, em homenagem a N.Sra. do  Amparo. Suas origens estão nos fins do séc. XVIII. Os congos se apresentam com jóias e outras preciosidades. Os tapuios, sem luxo, começam a chegar de madrugada e saem em busca de ovos, galinhas, frutas. Além disso pedem fumo, pinga, dinheiro, rapadura. Em seguida, dá-se o encontro com os congos e a dança. Depois separam-se e partem para a guerra. Os tapuios querem expulsar os congos da terra. Os congos usam espadas e tem 4 crianças-guias com tambores. Os tapuios, chefiados pelo cacique e a cacica, usam flechas. Tem quatro crianças espias. Na briga, os tapuios são vencidos pelos congos. No final, tem a dança da amizade: Folga, folga, minha gente,/ folga com gosto e alegria/ que todo mundo festeja/ o amparo de Maria./ Alelê, bangolê.// Todos os textos e a música são da autoria do padre Domingos Simões da Cunha (1755-1825).[2] Com tambores e sanfonas é realizado o encontro e o desafio de congos e tapuios: Congo: Gente toda, venha ver/ festa grande em Paracatu/ como se folga numa dança/ Quicenby e Caramuru.// Coiá, coiá, Colony, pena coiá, coiá.// Tapuias: Quando pisa o pé na serra/ bate o vento no penacho/ nosso corpo sacudido/ vai em cima e desce em baixo.// C: Larga a flecha, larga os arcos/ batem palmas Coriapós/ Hoje é dia de brinquedos/ salta e pula bororós.// T: Hoje é dia de brinquedos/ salta fora opinião/ vamos todos festejar/ com prazer de coração.// Coiá, coiá etc.// C: Colony firma se pulo/ firma bem seu pé no chão/ mostra com gosto na terra/ e também no coração.// T: Nós dançamos quiamby/ vós dançais cururu/ vosso sangue é de tatu.// Separam-se. C: Nós dançamos e folgamos/ neste dia de alegria/ vamos bem juntos louvar/ o amparo de Maria.//  T: Colony vamos dançar/ como danças bororós/ dançam todos muito bem/ sem fazer um caracol.// Coiá, coiá etc..// Encontram-se. C: Nossas armas!/ Não nos vencem,/ Só te venceu!/ proque quisemos/ quem te venceu/ foi o nome da Mãe do Senhor.// T: Levanta e venha/ venha a meus braços./ Perdoa as nossas/ as nossas injúrias./ Quem te venceu foi o nome/ da Mãe de Nosso Senhor.// Vamos dançar/ hoje é seu dia/ com todo excesso/ viva a folia.// Continua a dança da amizade: C: Viemos de longe terra/ com prazer e alegria/ para louvar a juíza/ do Amparo de Maria.// Arerê, minha gente./ Folga dança quente.// T: Deixei matos, deixei rios/ deixei campos e aldeias/ para ver nossa juíza/ ofertar nossa coroa.// Arerê, minha gente/ salta, pula de contente.// C: Somos pretinhos de Guiné,/ dançadores de quicumby/ viemos festejar nossa guarda/ a juíza de zumbi.// Ararê, minha gente/ folga, dança quente.// Payaoá, aricombé/ venho de longe a Paracatu/ para louvar a juíza/ ofertas a sua caruru/ folga dança quente.// T: Desprezei os meus sustentos/ onça viados e tatus/ tamanduás e guiribas/ macacos e caititus.// Ararê, minha gente/ salta pula de contente.// C: Viva a nobre juíza/ viva o juiz também/ viva todos os mordomos./ Viva o povo também.// T: Eu moro atrás da serra/ no buraco do tatu/ quem me visita é morcego/ coiá, coiá, colony (?)//[3]

[1] TEIXEIRA, José A.. Folclore Goiano. São Paulo, Companhia Ed.Nacional, 1941. p.90.

[2] OLIVEIRA MELO, Antônio de. Minha Terra: Suas Lendas, Suas Histórias. 2ªEd. Paracatu, Ed.Pref.Municipal, 1985. pp.115-124.

[3] Cantos Regionais - Diocese de Paracatu. Unaí, 1979. (Mimeografado) p.8.

TEMOR DE DEUS

          Um dos sete dons do Espírito Santo. v. Cortejo. v. Sentimento religioso. w No livro Arco Celeste (1758) consta uma prece que pede a Deus: nos dê desprezo, silêncio e temor. De fato, parece que algo está errado quando Deus deixa de ser ameaçador. v. Presença de Deus. v. Progresso. w Na Bíblia, quando aparece o anjo do Senhor a Zacarias (Lc 1,12), a Maria (lc.1,30) e aos pastores (Lc 2,10) todos ouvem as palavras: "Não tenham medo!" O fato é lembrado pela folia de reis de Londrina (PR): v. Pastor. Citamos um exemplo popular de um castigo de quem não temia a Deus: v. Se Deus quiser. v. Tremer. v. Deformidade. w O temor de Deus é fruto da educação religiosa: v. Convento das Lágrimas. O temor do pecador: v. Pecador agora é tempo. Porém o moralismo do jansenismo e do calvinismo trazem um temor de Deus exagerado e grande medo do apocalipse e da condenação eterna. w O povo, que faz penitência em tempos de seca, é temente de Deus. v. Humildade. Um depoimento nordestino: Não tenho medo de Deus. Ele não é Pai? Devemos ter medo, é do pecado porque este é que atrai os castigos. - Eu tenho desejo de me salvar, mas não tenho medo de Jesus, mas dos meus pecados.[1] v. Fim do mundo. w Ficar em silêncio durante um trovão pode ser sinal do temor de Deus. v. Cometa. w Dizem de quem tem muita coragem: Ele só teme a Deus e a mais ninguém!

1. ITER. A Fé Popular no Nordeste. Vol.II.Documentos. Salvador, Ed.Beneditina, 1974. p.11 e 96.

URBANIZAÇÃO

            Segundo o documento final da CELAM em Santo Domingo, "a América Latina e o Caribe acham-se hoje num processo acelerado de urbanização. A cidade pós-industrial não apresenta só uma variante do tradicional habitat humano, mas constitui, de fato, a passagem da cultura rural à cultura urbana sede e motor da nova civilização universal. Nela altera-se a forma com a qual num grupo social, num povo, numa nação, os homens cultivam sua relação consigo mesmos, com os outros, com a natureza e com Deus. Na cidade as relações com a natureza se limitam, quase sempre e pelo próprio ser da cidade, ao processo de produção de bens de consumo. As relações entre as pessoas se tornam amplamente funcionais e as relações com Deus passam por uma acentuada crise, porque falta a mediação da natureza tão importante na religiosidade rural e porque a modernidade tende a fechar o homem dentro da imanência do mundo”. (No. 255). A urbanização é uma das causas da massificação. v. Progresso.  w  No Brasil, a urbanização se deu a partir do fim do séc. XIX com os surgimento das indústrias e se acelerou após a II Guerra Mundial (1940-1945). Hoje mais que 75% da população mora em cidades. O processo aconteceu pela migração do povo da área rural em busca de emprego. Os baixos salários e a falta de planejamento do poder público levaram o trabalhador às periferias e ao subemprego. Neste processo acontece a perda do sentido de comunidade. v. Cidade grande. v. Rel. Pop. urbana. v. Sociedade brasileira.  w  Muitas festas religiosas tradicionais que convivem hoje com a modernização urbana, mostram resistência e passam por uma reinterpretação. Nestes momentos de confraternização e de fé, a estratégia popular responde de maneira religiosa e simbólica às mudanças e à secularização do sagrado. Maria do Socorro dos Santos Oliveira estuda este processo nas festa do Marabaixo, nas comunidades estuarinas amazônicas no Amapá.[1]  w  Os bispos da América Latina reunidos em Puebla (1979) colocam: "A passagem de uma sociedade agrária para uma urbanizada e industrial, submete a religiosidade a uma crise decisiva. Conforme a concepção católica da religiosidade popular, esta não deve necessariamente desaparecer devido à industrialização" (332). Seguem alguns dos desafios pastorais apontados: uma catequese e evangelização adequada; melhorar a pastoral dos santuários; acompanhar o crescimento da piedade camponesa e indígena, segundo sua identidade e desenvolvimento próprios, conforme a tônica do Concílio Vaticano II; favorecer uma mútua fecundação entre liturgia e piedade popular; no horizonte de uma civilização urbano-industrial, acompanhar a renovação da Rel. Pop., para que a fé possa desenvolver uma personalização crescente e uma solidariedade libertadora. Alimentando assim "uma espiritualidade capaz de assegurar uma dimensão contemplativa, a gratidão a Deus e o encontro poético-sapiencial com a criação. Fé que seja fonte de alegria popular e motivo de festa até no sofrimento. Por esse caminho podem plasmar-se formas culturais que libertem a industrialização urbana do tédio opressor e do economismo frio e asfixiante tal como sucede em outros continentes" (338).  w  Verbetes afins: v. Fecundidade. v. Antropologia.  w  Mais sobre o assunto: OLIVEN, Ruben George. Urbanização, e Mudança social no Brasil. Rio de Janeiro, Vozes, 1980.

[1] OLIVEIRA, Ma.do Socorro dos Santos. “Religiosidade Popular em comunidades estuarinas amazônicas: um estudo preliminar do marabaixo no Amapá”. In: Scripta Nova, revista Eletrônica de Geografia e Ciências Sociales. Universidade de Barcelona [ISSN 1138-9788] n.45 (49), 01 de agosto de 1999. p.1.

UTOPIA

           [Grego, lugar que não existe.] Sonho bom de construir uma sociedade melhor. A utopia surge quando as normas envelhecem e os projetos fracassam. É um desafio para unir forças e lutar com esperança por um mundo melhor. É a grande busca da felicidade. Há distância entre a realidade e a utopia. v. Política e religião. v. Projeto social alternativo. v. Ética. w A primeira utopia é do filósofo Platão (370 a.c) que na sua obra "A República" apresenta um estado ideal dirigido por um rei-filósofo e onde se realiza o bem de todos. w Em 1516* o inglês Thomas Morus (1478-1535), humanista cristão, escreve a "Utopia". O livro que mostra a influência das viagens marítimas da época sobre o imaginário europeu, tem significado filosófico e político. Relata seu encontro com um navegante português que revela a existência de uma "ilha a melhor e mais feliz das repúblicas, chamada Utopia". Trata-se de um lugar que não existe. Na descrição exótica e original da ilha distante percebemos a crítica à Inglaterra absolutista com sua corte ociosa, seus legisladores obtusos, a desigualdade entre os homens. Às perseguições políticas, à intolerância e aos preconceitos, Morus opõe vida regrada, ausência da exploração e da dor, inexistência da moeda. A utopia, além de ser uma volta ao paraíso perdido, ao estado natural antes do pecado, mostra uma visão do futuro[1]. A obra reage contra o surgimento do pré-capitalismo causado pela chegada do ouro das Américas na Europa, pelo desenvolvimento dos bancos de Fugger e Welsen, em Augsburg, e pela influência da economia do dinheiro sobre a eleição do imperador. v. Irreverência. Outras utopias: "A cidade do sol" (1623) do italiano Tomasso Campanella. "A Nova Atlântida" (1627), de Francis Bacon. w Muitos institutos de vida religiosa foram fundadas a fim de construir um mundo novo, o reino de Deus. A vivência alegre dos votos de pobreza, castidade e obediência só é possível na esperança e com utopia. w Segundo a teólogo alemã Dorothee Sölle, a utopia cristã se resume em justiça (uma nova ordem econômica), na paz (a solução dos conflitos pela não violência) e na preservação do meio-ambiente (conservar a criação)[2]. w Utopia sem censura, mas concreta: Pierre Furter diz que "este voltar-se para o futuro não é um sonho, nem a prova de uma confiança ingênua no futuro, mas o resultado de uma severa crítica. (...) Não se julga a utopia em função do seu grau de realismo, mas, ao contrário, do grau de negação da realidade que contenha e de sua capacidade de despertar o entusiasmo para uma mutação do real. É porque a utopia é arriscada, precária, aventurosa, que ela se abre sobre o futuro e nos engaja. A força da utopia é de nos obrigar a tudo arriscar numa aventura através da qual ficamos sabendo se existimos ou não"[3]. É o "Pátria livre ou morrer" dos revolucionários latino-americanos. Talvez, o uso excessivo das drogas seja uma busca vaga da utopia. v. Santo Daime. w No Forum Social Mundial (2002), o prefeito de Porto Alegre (RS), Tarso Genro, busca revigorar a utopia socialista imaginando a "globalização dos repeito aos direitos humanos, da esperança, do direito à igualdade e das lutas pela afirmação das diferenças" como a "nova essência do internacionalismo humanista"[4]. w Na história do Brasil, destacamos a busca da Terra-sem-Males dos índios guarani, o messianismo popular, a luta emprendida por Antônio Conselheiro e seus seguidores em Canudos (BA). v. Milenarismo. v. Expressão. w A utopia neoliberal é enganosa e trouxe violência, poluição, pobreza.

[1] Cf.: MARQUES, Haroldo. "O imaginário nas viagens marítimas. In: Estado de Minas. (Gabarito) 10/4/1992. Belo Horizonte. MG.

[2] SÖLLE, Dorotee. Mistiek en Verzet. Baarn, Ed.Ten Have, 1998.


[3] FURTER, Pierre. "Utopia e Marxismo segundo Ernest Bloch". In: Tempo Brasileiro. Nº7. Rio de Janeiro, 1965. p.25.


[4] GENRO, Tarso. "O Mundo Respira no Forum Social Mundial". In: Folha de São Paulo. 04/02/2002.

VELA

          As velas já existiam antes de Cristo. Seu uso na igreja começou nas cerimônias funebres dos primeiros séculos. Significado: o morto ingressa na luz eterna. Daí surgiu seu uso nas sepulturas dos santos e na frente de suas imagens. No cerimônial da corte do Papa no séc. VII começou seu uso nas missas. w Queimar velas pode serve de iluminação ou de enfeite. É antigo o costume de colocar uma vela acesa na janela em dias de grande festa. v. Lâmpada votiva. Colocam-se velas no bolo de aniversário. w A doação ritual da cera, produto da abelha, significa um sacrifício, uma doação de sí diante de Deus em favor das almas, ou de um doente, ou mesmo para passar numa prova. Há quem põe na igreja uma vela com o próprio nome ou com o nome dos filhos nela escrito. Outros fazem a promessa de oferecer num santuário de romaria uma vela do tamanho da pessoa. Há promessas de acender uma vela. v. Medida. v. Peso. v. Ex-voto. v. Verdadeira Oração de Nossa Senhora da Penha. v. Identificação. w No folheto "Os Fatos das Eras de 1877 ao Resumo dos Tempos", o poeta Caetano de Souza escreve: A vela demonstra a luz/ do batismo, do cristão/ quem respeitar o batismo/ terá da vela o clarão/ O clarão da vela perde/ quem vive em condenação.// v. Pagão. w Velas na liturgia: no altar na missa; no batismo (desde o século III ?...); na primeira comunhão; na mão da noiva; no ofício das trevas, na Semana Santa; na noite da páscoa é acesa o círio; duas velas são usadas na bênção de São Brás; também na festa de Santa Luzia. Muitas velas são bentas na festa da purificação de Nossa Senhora (v. Nossa Senhora das Candeias). Em Cunha (SP), a Igreja distribuiu um folheto impresso (c.1950) chamado "Vela Benta" que diz: "É um sacramental que dá a bênção de Deus a quem a usa. Tende-a acesa durante as tempestades e trovoadas. Nas orações em comum. Ao benzer as casas e entronização. Na hora da decisiva da morte. Cada lar católico de ve ter uma vela benta da Igreja. Sua luz afugenta as trevas do mal e cegueira dos vícios. Ela dá a luz da fé, firmada pelo Espírito Santo"[1]. v. Pentecostes. w Velas encontramos no presépio. Velas na ceia de Natal. No Piauí, a folia dos reis canta: Bateu asa e canta o galo/ meia noite deu sinal/ Acendei mais uma vela/ hoje é noite de Natal[2]. v. São Nicolau. w As velas que arderam ao redor do esquife do Senhor Morto são usados no preparo de um remédio para puxamento, em Parati (RJ). w No alto Tietê (SP), existe o costume de colocar velas acesas em cascas de laranja soltas no rio, à meia-noite da véspera de São João. w A sobra das vela da procissão de Sexta-feira Santa, vela de defunto, vela do batismo e da primeira comunhão, são guardadas com devoção para serem acesas nas horas difíceis. Por ex., na hora do relâmpago e da tempestade, acende-se uma vela benta. v. Raio. v. Santa Bárbara. w Padre Cícero mandou guardar velas bentas para os três dias escuros do fim do mundo: v. Profecias do padre Cícero. w A vela na mão do moribundo é para alumiar o caminho da alma. Não é bom morrer sem vela: v. Acidente de trânsito. Muitos lamentam que nos hospitais o doente morre sem vela. v. Arte do bem morrer. O defunto quer a vela: v. Afogar. v. Cordão de Reis. v. Pinga. v. Saída. v. Crime de colarinho branco. w Seguindo o exemplo dos primeiros cristãos, nosso povo coloca velas nas sepulturas (símbolo da Luz Perpétua nas trevas da morte) especialmente no dia de finados. v. Alumiação. v. Visita à cova. Queimam-se velas para defuntos e santos. v. Imagem. v. Velação. Muitas igrejas tem lugar apropriado para queimar velas sobretudo para as almas, especialmente nas segundas-feiras. v. Alumiação. v. Encomendação das almas. Velas são acesas pelos antepassados na Igreja dos Enforcados, ao pé da Santa Coluna. v. Bexiguento. v. Escrava Anastácia. Outros fazem pedidos e agradecem graças recebidas queimando vela nas sepulturas de Aguinaldo, o profeta da costeira, Maria de Lourdes, Zé Leão, Chaguinha, Santa Etelvina, Padre João Maria, na cova do cangaceiro Jararaca em Mossoró (RN) e na capelinha dos afuzilados, em São Gariel (RS). v. Cruz dos Marques. v. Bento do Portão. v. Negrinho do Pastoreio. v. São Campeiro. Uma vela acesa colocada atrás da porta é para as almas proteger a casa. w Velas são acesas para os santos na capela, no pé do cruzeiro, no altar e no oratório. w Há velas sobretudo na mão do povo. Muitas procissões são feitas com a vela acesa na mão. É difícil imaginar uma festa religiosa popular sem velas. w Em Carapicuíba (SP), na dança da Santa Cruz, quando o vento havia apagado as velas ao pé do cruzeiro, o mestre violeiro gritou: Ô gente, vê se alguém as velas aqui. Como é que se pode fazer a saudação sem vela acesa?! Outro acrescenta: Como é que se pode rezar na frente de uma vela apagada?[3] Em outras festas populares: v. Dança de São Gonçalo. v. Roda de São Gonçalo. v. Divino Pai Eterno. v. Bom Jesus de Matozinhos. v. Festa do Divino. v. Jantar dos cachorros. No peditório da Charola do Senhor dos Passos. w Algumas orações ao dormir e para fechar o corpo dizem sete (ou três, ou quatro) velas me ilumeiam: v. Com Deus me deito. v. Pai nosso pequenino. v. Santo Antônio pequenino. v. Benzer. Outras preces: v. Prece milagrosa. v. Sandálias de Santo Hilário. v. Santa Clara. w Muitas rezadeiras e curadores acendem uma vela antes de pronunciar suas bênçãos. Um tôco de vela é usado na ventosa. v. Revista. w Existem velas que queimam sete dias. v. Lâmpadas votivas. w Numa religião alienada, a oferta de uma vela pode significar também orgulho e dominação, quando a vela se torna uma espécie de meio eficaz para alcançar um favor do Céu; por ex.: queimar vela 12 sextas-feiras para obrigar a Sta. Rita a resolver meu problema. Ou então: se eu queimar vela desta cor neste lugar nesta hora e dizer estas poderosas palavras, Deus só poderá atender-me. w Há vela de várias cores e modelos: caixão preto, caveira. Encontramos uma vela marron em forma de Sto. Antônio. w Na magia são usadas velas para pregar alfinetes, como pregam em bonecos de cera. Alguns queimam uma vela na intenção de acabar com uma pessoa. v. Mão Poderosa. v. Cabra Preta. w Uma vela faz parte do batismo do tambor, no candombe e no candomblé. Também do batismo do mastro. w Velas são usadas nos diversos cultos afro-brasileiros. Em rituais: v. Padê. v. Bori. v. Despacho. v. Axexê. v. Terecó. v. Catimbó. Em tratamentos: v. Vício. v. Banho de pipocas. Em festas: v. Lavagem do Bonfim, no Rio de Janeiro. Num ponto: v. Rosário. w Verbetes afins: v. Ariaxé. v. Maracatu rural. v. Afogado. v. Círio de Nazaré. v. Galo.

[1] Apud: ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional, Vol.1: festas, bailados, mitos e lendas. (2a.Ed.) São Paulo, Ed.Melhoramentos, 1967. p.164.

[2] OLIVEIRA, Noé Mendes. Folclore Brasileiro: Piauí. Rio de Janeiro, MEC/ Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, 1977.


[3] BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Sacerdotes de Viola. Petrópolis, Vozes, 1981. p.137.

VIOLA

               A viola de pinho e arame é um instrumento musical de origem ibérica (séc. XVI) com dez ou doze cordas, menor que o violão. Também chamado pinho. Foram os jesuítas portugueses que trouxeram a viola para o Brasil.  w  O camarada Nho Laco, na fazenda Santa Margarida, em Promissão (SP), mostra a brasilidade da viola: Agora estou resolvido/ conhecê o Brasil intêro/ Eu hoje estou em São Paulo/ Mas vou pro Rio de Janeiro;/Depois de estivé no Rio/ sigo para o estrangeiro: / eu levo a minha viola/ pra mostrá o que é um brasilêro.//[1]  w  A expressão Meter a viola no saco e picar a mula significa parar a conversa e viajar. v. Moda de Viola. v. Toada.  w  Na sábia observação: o mau violeiro se queixa da viola.  w  O artista Rolando Boldrin canta: Eu vou me embora sozinho. Eu, a viola e Deusw  Em Minas Gerais, temperar a viola é afinar as cordas do instrumento que são a prima, a segunda, a toeira, o baixo e o bordão, no caso de dez cordas duplas. Entre as variadíssimas afinações da viola em Minas Gerais, Goiás e São Paulo, destacam-se: guitarra, italiana ou maxabomba, oitavada,  cebolão e cebolinha, serra abaixo, serra acima, rio abaixo e rio acima. A viola nordestina quase não varia a afinação.  w  Alguns toques da viola em Minas Gerais: Joaquim do fogão (batido no ritmo das palavras "Sai, sai, Joaquim do fogão"); infusada (ponteado); negrinha (usado na dança do passagem e parecido com Joaquim do fogão); reis (batido).  w  Um violeiro nordestino cantou: Sou cantor. Na hora extrema/ peço esta última esmola: / que o meu caixão seja feito/ em forma de uma viola.//[2]  w  Este importante instrumento encontramos nas mãos de São Gonçalo do Amarante. A viola é indispensável na dança da Santa Cruz, no cururu, na dança de São Gonçalo e na catira. Também está presente em folias dos Santos Reis e do Divino e nos congadosw  Alceu Maynard Araújo descreve a posição religiosa de segurar a viola, na dança de São Gonçalo, em Taubaté (SP): “Levantam a viola até à altura do colo onde encostam seu fundo, apóiam o mento (queixo) sonbre a ‘cintura’ desta. A ‘cintura’ é a expressão popular que se refere àquela curvatura que fica ao lado da viola. Seguram com a mão esquerda no braço da viola, e com a mão direita tangem as cordas, estando este braço e antebraço ao nível do ombro”.[3] v. Mesura.  w  O cantor sertanejo Tião Carreiro fez uma música que conta como uma criança ofendida de aranha é benzida e curada com uma viola.  w  Diversas vezes ouvimos a brincadeira: Vai com Deus e Nossa Senhora; o capeta atrás tocando viola! (MG)  w  O violeiro Chico Lobo conta (31/03/1999) que, em Justinopolís (MG), um mestre de folia e capitão de moçambique (seu Zezé) realizou o batismo de uma de suas violas, em 1994.  w  É difícil encontrar uma viola popular sem fitas. Para melhorar o som da viola é costume colocar um chocalho de cascavel na viola. Várias vezes ouvimos a história que a pessoa que quer tornar se um violeiro excepcional há de fazer um pacto com o demônio.  w  A viola-de-cocho tem 5 cordas e é usada no acompanhamento do cururu, em Mato Grosso, Goiás e São Paulo. Acompanha também o siriri e a romaria de São Gonçalo, no Paraná.  w  Catulo da Paixão Cearense (1863-1946) escreveu versos sobre a invenção da viola por Deus: Nosso Senhor, quando andava/ pulos deserto a rezá,/ gostava de uvi São Pedro/ na viola puntiá.// São Pedro diz que a viola/ foi feita num disafio/ da canoa em que ele andava/ cum Cristo a pescá no rio.// Não foi feita da canoa,/ mas porém da sua cruz!/ A viola ainda sofre/ tudo o que sofreu Jesus.// Quando Deus fez a viola/ e cumeçou a cantá/ seu coração ficou rôco,/ cumo a frô dos manacá.// Deus é o rei dos violeiro,/ quando canta o seu amô/ nas cordas santa da lua,/ que é a viola do Sinhô![4] v. Criação do mundo.  w  Há violeiros que, no tempo da quaresma, guardam a viola num saco: v. Silêncio.

[1] Apud: LIMA, Rossini Tavares de. Moda de Viola, poesia de circunstância. São Paulo, Secr.de Estado de Cultura/DEMA/Com.Est.de Folcl., 1997. p.29

[2] LIMA, Rossini Tavares de. Moda de Viola, poesia de circunstância. São Paulo, Secr.de Estado de Cultura/DEMA/Com.Est.de Folcl., 1997.

[3] ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional, Vol.2: danças, recreação, música. (2a.Ed.) São Paulo, Ed.Melhoramentos, 1967. p.37.

[4] CEARENSE, Catulo da Paixão. Versos “Terra Caída”, em Meu Sertão. (1918). Apud: ANDRADE, Mário de. Dicionário Musical Brasileiro. (Coord.Oneyda Alvarenga) Belo Horizonte, Ed.Itatiaia/MEC/ Ed.USP, 1989. pp.558-559.

VISITA A UM TERREIRO

          Passa aperto o pensador cristão que visita pela primeira vez um dos cultos afro-brasileiros. Em 1968, no desejo de conhecer essa realidade, visitei com uma turma de padres e irmãs estrangeiros um terreiro de Oxóssi, em Petrópolis (RJ). v. Terreiro de Culto afro-brasileiro. Ao assistir o culto pela primeira vez, gostei das músicas e danças, mas também vi muita coisa que não conhecia: o transe dos filhos-de-santo, a agitação, exu, os orixás, os caboclos e os pretos velhos, muitos gritos e risos. Como sou padre, usei todos os conceitos que aprendi nos cursos de filosofia, psicologia e teologia do seminário, na tentativa de compreender as coisas. Por ex.: o transe me parecia ser sugestão, hipnose ou histeria de um grupo de desajustados. Talvez houvesse manipulação e malandragem, ou pior, um pacto com o demônio. Os orixás me fizeram lembrar o panteismo. Mas fiquei com dúvidas. Voltando outras vezes ao mesmo terreiro, perdi o medo. Sempre fomos bem recebidos e aos poucos começamos a perceber melhor a seqüência das coisas no culto. Comecei a entender que no terreiro há pessoas normais como nas igrejas. Diante da insegurança que sentia, resisti à tentação de não pensar por mim mesmo e de apegar-me aos sistemas prontos que aprendi na minha família e na Igreja. Com um grande susto, percebia que os conceitos aprendidos no seminário não serviam para explicar o que eu via e resolvi abandonar meus fichários. v. Ciência. Passei aperto para ir em frente. Tive de aprender que a primeira etapa do conhecimento é a propria experiência e não mais as doutrinas. Durante a experiência necessitamos dos cinco sentidos (e o sexto!) para conhecer as coisas. Reconheço que fomos mal treinados para isso. Para saber mais, podemos nos dirigir com simplicidade ao próprio pessoal deste ou de outros terreiros. É essencial pensar junto com outras pessoas. v. União na diversidade. Percebi que a insegurança faz parte da caminhada de qualquer pessoa de bom senso. E também que o preconceito é um perigo. v. Fundamentalismo. A solidariedade para com a Igreja significa participar da busca da verdade na comunidade eclesial. v. Experiência religiosa. v. Clero. w Num depoimento por escrito (2000), Jackson Bentes, de Santarém (PA), recorda a sua primeira visita a um terreiro em 1989, quando ainda era adolescente: Éramos convidados com antecedência pela mãe do terreiro a participarmos da festa em honra de Cosme e Damião em troca da proteção que eles davam às crianças. No início éramos recebidos com músicas e muito batuque. Logo em seguida, a mãe-de-santo dançava homenageando a Cosme e Damião, distribuindo balas para as crianças. No fim da dança, éramos conduzidos a outro local onde encontrávamos um banquete preparado com muitas flores, frutas e comidas típicas da região,acompanhado de muito batuque. O interessante é que quebrávamos o mito de que no terreiro a mãe-de-santo se transformava retorcendo todas as partes do corpo enquanto dançava. Nos encontrávamos e nos divertíamos muito e esperávamos com ansiedade a próxima festa de Cosme e Damião.

WADUBARI

        Nome do espírito do urubu-rei que inspira os xamãs yanomami. v.Medicina indígena.

XANGÔ(Culto)

       Culto afro-brasileiro, de origem ioruba, em Pernambuco, Paraíba, Sergipe e Alagoas, a partir de onde o nome do orixá Xangô passou a significar o próprio culto, especialmente no Recife (PE). Na estrada da Água Fria, por ex., está o Sítio de Pai Adão, um terreiro xangô de Yemanjá. v. Aloiá. A existência dos xangôs no Nordeste é registrada desde o séc.XIX. Em Jurema (PE), há um terreiro de xangô chamado "Centro Padre Cícero, Cavaleiro do Espaço". v. Odé. v. Amalejá.  w  José Maria Tenório Rocha, folclorista alagoano, oportunamente lembra que, no início do séc.XX, era crime freqüentar as casas de xangô: “Existiu em Alagoas uma sociedade político-partidária que tinha a finalidade de fazer a agitação popular contra o Governo do Estado, e como supunham que o governador tomasse parte em xangôs, resolveram destruí-lo – era a liga dos republicanos combatentes, liga essa que em primeiro de fevereiro de 1912* fez a ‘Operação Xangô’, destruindo os velhos terreiros da capital. Qualquer suspeito era surrado, violentado, esmurrado publicamente pela Polícia Civil, assim como Tia Marcelina, dona de terreiro em Maceió. Ela recebeu por ocasião do quebra-quebra, grande golpe de sabre, que a deixou prostrada e banhada em sangue. Manoel Martins, descendente de africanos, teve o cavanhaque arrancado juntamente com o epiderme. As crônicas da época registram fatos realmente desumanos e lamentáveis praticados pelos modernos vândalos, em nome da civilização”.[1] O mesmo autor distingue no xangô em Alagoas a linha nagô, a linha do Congo, a linha de Angola e a linha de umbanda.  w  Mais sobre o assunto: Em 1937, FERNANDES, Albino Gonçalves Fernandes. Xangôs do Nordeste. Rio de Janeiro, Melhoramentos, 1937. - RIBEIRO, René. “Cultos Afro-brasileiros do Recife”. In: Bol. do  Inst.Joaquim Nabuco, Núm.especial, 1952. –  CARVALHO, José Jorge de. Cantos sagrados do Xangô do Recife. Brasília, Fundação Cultural Palmares, 1993.

[1] ROCHA, José Maria Tenório. Folclore Brasileiro: Alagoas. Rio de Janeiro, MEC/ Campanha de Defesa do Folcl.Bras., 1977. p.44.

XINGAR

           Um exemplo de xingatório nos traz Léo Godoy Otero: "Cadê esse lazarento, excomungados? Onde socou esses trem afuazado dos infernos?" Xingar nome feio é pecado. No confessionário, muitos acusam-se de ter xingado. v. Blasfêmia. v. Palavrão. w Em Olímpia (SP), o Roberto José de Carvalho contou uma história educativa: Quando Nosso Senhor andava no mundo, um dia atravessou uma rua duma corritela, em companhia de São Pedro, e viu na porta duma oficina um ferrador de animal tentando ferrar uma mula muito braba. A mula pulava e dava coice que nem uma louca.O ferrador, tinino de raiva, gritava feito um doido: Vai pro inferno, mula capeta, sua desgraçada, fia do diabo! Nosso Senhor, ouvindo tanto palavrão, chegou perto do ferrador e, com muito jeito, disse para ele: Ferrador, deixa eu ferrar essa mula procê? O homem, muito zangado, respondeu: Suma daqui, seu diabo,. Deixa eu em paz! Apesar da estupidez do ferrador, Nosso Senhor tornou a insistir com ele: Ferrador, deixa eu ferrar essa mula? Aí o ferrador, meio desconfiado, deixou Ele ferrar o animal. Nosso Senhor pegou um facão e cortou três pernas da mula. Virou as pernas dela para cima, pregou as ferraduras e grudou de novo as pernas na mula. O ferrador ficou de boca aberta. Daí Nosso Senhoe e São Pedro foram-se embora. Mal eles saíram, o ferrador pegou o facão e, pam!, cortou a outra perna da mula que faltava ser ferrada. Quando foi para colocar a ferradura, viu que a mula ia morrer de tanto sangue que ele estava perdendo. Muito aflito, saiu correndo, desesperado, atrás de Nosso Senhor, pedindo pra Ele voltar para salvar o animal. Nosso Senhor e São Pedro voltaram para trás. Aí, Nosso Senhor pregou a ferradura no casco e grudou a perna no lugar. E sorrindo, falou com muita educação pro ferrador: Que isso te serve de lição. Nunca mais chame tantas vezes pelo nome do chifrudo. w O poeta Minelvino Francisco Silva publicou um folheto sob o título: "A Mãe que xingou o filho no ventre e ele nasceu com chifre e rabo, em São Paulo". w Verbetes afins: v. Nome da Mãe. v. Pedra noventa.

[1] OTERO, Léo Godoy. O Caminho das Boiadas. Rio de Janeiro, Ed.José Olímpio, 1958. p.99.

[2] SANT’ANNA, José. São Pedro na Boca do Povo. Olímpia, Pref.Mun./Museu de História e Folcl".Maria Olímpia", 1998. p.74.



Y
EMA-CUEMA

        Em Tefé(AM), o ritual indígena do pôr do sol. De madrugada, antes do amanhecer, um grupo de índios sai de canoa para buscar o pôr do sol. Levam um "paneiro", uma espécie de cesta, para colocar o sol. Acreditam que sem o ritual não haveria dia e não existiria a luz. v.Rituais indígenas.

YEMANJÁ

          Importante orixá das águas salgadas, que nos veio das culturas jeje e nagô. Também conhecida como princesa de Aiocá, Mãe d’água, rainha do mar, Janaína, Sereia do Mar, Maria.  w  No dia dois de fevereiro, em Salvador (BA), um enorme cortejo de barcos sai do bairro do Rio Vermelho para o meio do mar, a fim de levar presentes. Há balaios com bonecas, flores, maquiagem e muitos bilhetes. Nesta homenagem à mãe das águas, os baianos pobres e ricos, negros e brancos, católicos e seguidores do candomblé pedem um mar cheio de peixes e tudo que a rainha das águas possa oferecer. A fé do povo baiano faz assim uma das festas mais importantes do calendário local. Canto de Dorival Caymmi: Chegou, chegou, chegou,/ afinal que o dia dela chegou./ Dia dois de fevereiro,/ dia de festa no mar./ Eu quero ser o primeiro pra salvar Iemanja.// Escrevi um bilhete a ela pedindo pra ela me ajudar./ Ela então me respondeu que tivesse paciência de esperar./ O presente que eu mandei para ela é de cravos e rosas. Vingou.//  Não só os pescadores, mas todo mundo vem saudá-la. Grande é a alegria no Largo de Santana. v. Barca. v. Purificação de Nossa Senhora.  w  Um dos orixás mais cultuados no candomblé da Bahia. Quando nos cultos se canta para ela, os filhos-de-santo ficam de joelhos. Filha do céu e da terra, é conhecida pela sua força e retidão. Dos seus seios nasceram os oceanos. v. Criação do mundo. Do seu corpo violado pelo filho Orungã nasceram vários orixás, entre os quais Oxóssi, Xangô e Iansã. Por isso, é a grande mãe da África. Eis a história de como iemanjá dá à luz os orixás: Da união entre Obatalá, o Céu, e Odudua, a Terra, nasceram Aganju, a Terra Firme, e Iemanjá, as Águas. Desposando seu irmão Aganju, Iemanjá deu à luz Orungã. Orungã nutriu pela mãe incestuoso amor. Um dia, aproveitando-se da ausência do pai, Orungã raptou e violou Iemanjá. Aflita e entregue a total desespero, Iemanjá desprendeu-se dos braços do filho incestuoso e fugiu. Perseguiu-a Orungã. Quando ele estava prestes a apanhá-la, Iemanjá caiu desfalecida e cresceu-lhe desmesuradamente o corpo, como se suas formas se transformassem em vales, montes, serras. De seus seios enormes como duas montanhas nasceram dois rios, que adiante se reuniram numa só lagoa, originando adiante o mas O ventre descomunal de Iemanjá se rompeu e dele nasceram os orixás: Dadá, deusa dos vegetais, Xangô, deus do trovão, Ogum, deus do ferro e da guerra, Olocum, divindade do mar, Olossá, deusa dos lagos, Oiá, deusa do rio Níger, Oxum, deusa do rio Oxum, Obá, deusa do rio Obá, Ocô, orixá da agricultura, Oxóssi, orixá dos caçadores, Oquê, deus das montanhas, Ajê Xalugá, orixá da saúde, Xapanã, deus da varíola, Orum, o Sol, Oxu, a Lua. E outros e mais outros orixás nasceram do ventre violado de Iemanjá. E por fim nasceu Exu, o mensageiro. Cada filho de Iemanjá tem sua história,cada um tem seus poderes.[1]  w  Yemanjá pode apresentar-se como mulher jovem e como senhora idosa. Às vezes usa uma espada e leva uma gamela na cabeça com uma pomba. Mais freqüentemente é representada como uma sereia. Sua dança é solene e cheia de ondulações. Saudação: Odu yá! Odô yá! ou Eru yá!  Instrumentos: coroa, abebé, dois peixes com correntes, balangandãs e braceletes de metal prateado. Dia: sábado. Neste dia jogam-se flores nas águas. Contas: cristal transparente, verde ou azul. Suas vestes são de azul claro e branco ou rosa. Sacrifício: pata, cabra, galinha d'angola, porco. Sua comida: acarajé, feijão fradinho, abará, peixes do mar.  w  No Ano Novo é festejada em quase todas as praias de várias cidades litorâneas: São Luís (MA), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP), Santos (SP), Paranaguá (PR), Matinhos (PR) e outras. Em Belo Horizonte (MG), Yemanjá é cultuada na Lagoa da Pampulha, em agosto e na passagem do ano. Desde 1965, a festa de Yemanjá em Brasília (DF), acontece no mês de agosto, no lago Paranoá.  w  Na umbanda, é identificada com a sereia do mar e a rainha das ondas. v. Âncora.  w  Tem estátua (1976) no município de Praia Grande, perto de Santos (SP).  w  Identificada com a Virgem Maria, Nossa Senhora da Conceição (8/12), Nossa Senhora das Candeias (2/02), Nossa Senhora da Glória (15/08) e Nossa Senhora dos Navegantes.  w  Mais sobre o assunto: BOFF, Clodovis. Nossa Senhora e Yemanjá, Maria na cultura brasileira. Petrópolis, Vozes, 1995.

[1] PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Orixás. São Paulo, Companhia das Letras, 2001. pp.382-383.


ZÂMBI, NZÂMBI ou ZAMBI

       [Do banto, oleiro. De "amba" modelar o barro. Não existe o plural que seria “Zinzâmbi”, porque, para o banto, Deus é um só.]  Um dos nomes de Deus mais usado na África ocidental central, da Namíbia e Zâmbia até ao Zaire e Camarões. Nzambi deixou a marca de seus pés no mundo: v. Pegada.  w  No Congo (séc. XVI e XVII), Nzambi Mpungu significava o "derradeiro poder criativo", embora esse termo não fosse exclusivamente empregado num contexto espiritual.[1] v. Zambiapungu.  w  Só em Angola emcontramos: Nzambi, Nyambi, Njambi, Nzambe, Nzame, Nzama, Njambe, Nsambi, Tshambe, Inambie, Inandzambi, Nhambe e outros.[2] Os Lunda-Tchokwe (Angola) contam a história da criação do Universo e a ascendência divina deles. Resumindo: O Nzambi, a quem também chamam “Ndala Karitanga” (Deus que se criou a si próprio) e Sá Kalunga (Senhor infinitamente grande, Deus supremo e infinito), depois de ter criado o Mundo e tudo quanto nele existe, criou uma mulher para que fosse sua esposa e para que, por seu intermédio, pudesse ter descendência humana, que povoasse a Terra e dominasse todos os animais selvagens, criados também por ele. Disse ele à sua esposa que ela passaria a chamar-se Ná Kalunga, em virtude de a filha que iria dar à luz, se chamar Kalunga. A filha cresceu e Nzambi a levou consigo numa caçada. Foi quando a filha ficou grávida de Nzambi. A mãe, enraivecida de ciúme e desgosto, suicidou-se. Nzambi amaldiçoou-a e transformou-a num espírito maligno chamado Mujimo. A filha Kalunga passou a ser chamada de “Ndala Karitanga”, sendo a segunda divindade. Kalunga deu à luz um filho, também chamado “Ndala Karitanga” e que passou a ser a terceira divindade. Logo que o seu filho-neto cresceu, o Nzambi ordenou-lhe que se casasse com sua mãe Kalunga, para que concebesse dele muitos filhos, de ambos os sexos, a fim de povoarem a terra e dominarem todos os animais. Por fim, depois de lhes ter ensinado tudo o que deveriam fazer, para que a sua descendência crescesse e se multiplicasse e para que lutasse contra as doenças e os feitiços, o Nzambi despediu-se de todos. Chamando, depois, seu cão, que sempre o acompanhava, dirigiu-se para a tchana tcha Mweu (Planalto do Mweu) e dali subiu para o espaço, levando consigo o cão. O lugar onde mora Nzambi e os antepassados é chamado tchehunda tcha Nzambi (aldeia de Deus).[3] v. Paraíso.  w  Os negros bantos, nas irmandades do Rosário, chamam Deus de Nzâmbi ou Zâmbi. Zâmbi inclui a experiência religiosa vivida na África banto. v.Candombe. Há os que pronunciam Zambi. Diz um cântico do moçambique: Canta e dança, crioulo/ que a força vem de Zâmbi.[4]  v. Identificação nos cultos afro-brasileiros. v. Cafundó do Judas.  w  Um capitão da Irmandade do Rosário de Olhos d'Água (MG), nascido nas barras do Paraopeba disse: Nóisi diferencêia duzôtros bicho, pru mode nóisi temo parte da arma (alma) de Zâmbi. Nóisi ganhô máisi cuzôtro. É por isso qui nóisi fala, nóisi pensa, nóisi pricêia as coisa e nóisi dá rissada.[5] v. Criação do mundo.  w  Em Contagem (MG), na comunidade dos arturos, o capitão regente Antônio Maria da Silva canta: Ê Zambi, ê Zambi/ Sá rainha me dá a mão/ que Papai lá do céu põe a bênção./ Ê Zambi.../ Viva mundo e viva Deus/ viva nego maçambiqueiro/ ê Zambi.../ viva mundo e viva Deus/ ora viva esse povo coroado/ ê Zambi.../ ei, minha gonga é de nha pai/ essa gonga é de nha vô ai/ ê Zambi.../ ei, Maçambique é coisa boa/ Maçambique era nego de coroa/ ê Zambi.../ ê o menino de papai, ô gente,/ o menino de vovô/ ê Zambi.../ o menino de papai, oi meu Deus,/ ô pergunta onde eu vou/ ê Zambi.../ ei, óia Zambi é o nossa guia/ óia, Zambi meu Deus minha companhia/ ê Zambi.../ ê ora Zambi é nossa guia/ oi mi Nossa Senhora minha companhia/ ê Zambi...//[6]  w  Na Angola e em Moçambique, ao falar de Deus, a Igreja Católica usa o nome Nzambi. v. Missa Conga.  w  Existem pontos na umbanda para o preto velho falar direito e não enrolado. Cantam: Tu fala direito, na língua de Zâmbi. v. Português crioulo.  w  No candomblé de influência banto (angola e congo), Zambi corresponde a Olorum. Algumas vezes, corresponde ao orixá Oxalá w   Não confundir Zambi com Zumbi, o herói de Palmares.

[1]HILTON.A. The Kingdom of Kongo. Oxford, Clarendon Press, 1985. p.90-91.

[2] ALTUNA, Raul Ruiz de Asúa. Cultura Tradicional Banto. Luanda, Secr.Arquidioc.de Pastoral. 1985. p.404.

[3] MARTINS, João Vicente. Crenças, advinhação e medicina tradicionais dos Tutchokwe do Nordeste de Angola. Lisboa, Secr. de Estado da Ciência e Tecnologia/ Instituto de Investigação científica Tropical, 1993. pp.57-59.

[4] MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória. Belo Horizonte, Mazza Ed., 1997. p.173.

[5] Apud: GONÇALVES, Eugênia Dias. "Identidade Negra e Religião". Fundac INFORMA. Belo Horizonte. Ano 2. Fev/1995. p.2.

[6] CD: “Congado Mineiro 1”, coleção Itaú Cultural. Acervo Cachuera! Faixa 04.

ZUMBI (1655-20/11/1695)

             [ Segundo Ney Lopes, no kimbundo, “nzumbi” (espírito atormentado) vem da raíz “nzumb” ligado à idéia de imortalidade; e a essa idéia parece estar ligado o nome do herói de Palmares.[1]] O maior líder na resistência negra no período colonial brasileiro. Nasceu homem livre em Palmares (PE), numa das aldeias do quilombo. Dizem que sua mãe se chamava Aqualtune. É sobrinho do rei Ganga Zumba. Zumbi e Ganga Zumba eram bantos, segundo a etnolingüista Yeda Pessoa de Castro.[2] Em 1655, durante a expedição de Brás da Rocha, o recém-nascido ‘futuro’ Zumbi foi capturado e entregue ao Padre Melo, de Porto Calvo. Este o batizou com o nome de Francisco, e lhe ensinou latim e português. Aos 15 anos, o menino fugiu para Palmares e, aos poucos, tornou-se um grande líder dos quilombolas. Ganga Zumba, após os ataques realizados por Fernão Carrilho em 1678, sentiu-se obrigado a negociar a paz - em condições desfavoráveis - com o governador Pedro Teixeira, mudando-se então para Cucaú. Em 1680,  Ganga Zumba foi executado pelos palmarinos, inconformados com o pacto feito. Durante 14 anos Zumbi e seus guerrilheiros defenderam a república dos Palmares. Situado na Serra da Barriga (AL), o quilombo de Palmares (1602-1694) foi liderado por Zumbi, sucessor de Ganga Zumba em 1678, constituindo-se em um forte núcleo de resistência ao sistema escravagista da época. Sobreviveu a várias expedições armadas – duas delas holandesas – e, duzentos anos antes da abolição da escravatura, teve uma organização social de pluralidade étnica e integridade racial, pois entre os seus habitantes havia mulatos, índios e brancos que se opunham ao colonialismo. Por fim, em 6 de fevereiro de 1694, o quilombo foi destruído pelas forças lideradas pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. Na ocasião, Zumbi não morreu. Foi, sim, traído pelo seu ajudante Antônio Soares, o qual sob tortura levou os soldados paulistas até o esconderijo. Zumbi, o herói da liberdade, foi assassinado juntamente com seus ajudantes, no dia 20 de novembro de 1695. Teve a cabeça decepada e exposta em praça pública. O resto do corpo foi esquartejado e arrastado pelas ruas de Recife (PE).  w  O canto das ofertas da Missa dos Quilombos diz: (...) Recebe, Senhor,/ a cabeça cortada do Negro Zumbi,/ guerreiro do povo,/ irmão dos rebeldes nascidos aqui.// Do fundo das veias, do fundo da raça,/ o pranto dos negros, acolhe Senhor.//  w  O dia 20 de novembro, dia da morte de Zumbi, tornou-se dia nacional da consciência negra. v. Arena conta Zumbi. v. Consciência negra.  w  A historiografia brasileira tem o dever de resgatar a sua dívida para com a população de sangue negro, e ainda distante da cidadania plena. Para isso, os grandes líderes negros como Zumbi dos Palmares hão de ser incluídos no ensino da História nacional.  w  Mais sobre o assunto: RUFINO, Joel. Zumbi. São Paulo, Ed. Moderna, 1985.

[1] LOPES, Nei. Dicionário Banto do Brasil. Rio de Janeiro, Secr.Municipal de Cultura, 1997. p.270.

[2] AZEVEDO, Eliane. “Com  África na ponta da Língua”. Entrevista com Yeda P.de Castro. In: Jornal do Brasil. 20/11/2001.