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ACIDENTE DE TRÂNSITO
A má conservação de estradas e veículos, carteiras de habilitação
compradas, alcoolismo dos motoristas, excesso no horário de trabalho são
causas de numerosos acidentes.
w
À beira das estradas, o lugar de um acidente fatal é marcado por uma
cruz. Inúmeros profissionais do volante carregam no carro um terço
ou um São Cristóvão pequenino, rezam nas capelinhas ao longo das
rodovias. Procuram a proteção divina nas suas viagens. Outros,
para escapar de ciúmes, ódios e maus olhados, penduram um chifre ou uma
figa na traseira do seu caminhão.
w
Sempre aparece alguém que coloca uma vela acesa ao lado da vítima
que jaz morta na rua ou na estrada. É uma vela-guia para aquela alma.
w
Muitos ex-votos, deixados nas salas de milagres dos
grandes santuários, relatam como pessoas se salvaram de acidentes de
trânsito, com a graça de Deus.

ADÃO
O primeiro homem, não nascido, mas criado por Deus (Gn 1 - 2). v.
Alma de Adão. Adão feito de barro e do sopro de Deus Criador.
v. Ar. w
Às vezes é chamado Santo Pai da humanidade. Existem
imagens do Santo Adão.
w
A moda de viola da criação do mundo, registrada em Goiás, diz:
Este mundo foi criado/ por um grande onipotente/ Deus formou ele em seis
dias/ e fez tudo diferente/ fez os campo e fez os mato/ fez tudo quanto
é vivente/ Fez Adão e fez a Eva/ e pôs no mundo pra semente.//
w
O cearense Patativa do Assaré diz: No mêrmo tempo que Deus/
fez o céu, o má e o chão,/ fez também de barro o home/ que é justamente
esse Adão;/ Ele era um belo vivente,/ santo, fié, inocente/ mas depois
foi traiçoêro/ fez uma grande desorde/ pru que não cumpriu as orde/ do
nosso Deus verdadêro.//
w
O poeta João Martins Athayde, no folheto “O Valor da
Mulher” escreve: A primeira pessoa da Trindade/ como Pai Criador
teve a lembrança/ de dar sua aparênça e semelhança/ a Adão como prova de
amizade/ e se Deus quis dar essa sumidade/ a Adão foi porque bem
pretendia/ que o homem tivesse autonomia/ sobre todos os viventes deste
mundo/ por ser ele o vivente mais profundo/ entre os feitos da grande
sabedoria.// w
O poeta Manoel d’Almeida Filho escreveu “Encontro de Lampião com Adão
no Paraíso”. Seguem alguns versos. Lampião virou-se rápido/ de um
lado da macieira/ avistou um homem nu/ como numa brincadeira/ cobria um
palmo na frente/ uma folha de parreira.// Quando Adão se declara
dono do pomar, Lampião propõe: Nós podemos decidir/ caso meu amigo
queira/ na cabeçada, no murro,/ no pontapé na rasteira,/ quem ganhar
fica com tudo/ quem perder sai na carreira.// Quando Adão exalta a
beleza de Eva. Lampião disse: Duvido/ dessa sua opinião/ que essa sua
mulher tenha/ mais beleza e perfeição/ do que Maria Bonita/ a Rainha do
Sertão.// Adão rebate: Pensa que não o conheço/ na vida de
cangaceiro/ Sei até que carregou/ a mulher de um sapateiro/quando
assombrava os Estados/ do Nordeste brasileiro.// Lampião pergunta
como o conhece. Adão respondeu sorrindo/ numa risada normal: /
Ouvindo os noticiários/ da Rádio Nacional/ da Globo, da Bandeirantes,/
da Tupi e da Jornal.// Como se vê, a creatividade do poeta deixa
Adão bem abrasileirado.
w
A expressão do Pai
Adão indica coisa antiga. No tempo em que Adão era cadete: em
tempos remotos. w
Há uma charada sobre Adão muito conhecida: Um homem houve nu mundo/
que sem ter culpa morreu,/ nasceu primeiro que o pai,/ sua mãe nunca
nasceu/ sua avó esteve virgem/ até que o neto morreu.// Câmara
Cascudo registra esta versao de Bernardo Cintura e uma variante que
consta do romance “História da Donzela Teodora”:
Pergunta o sábio a ela:/ Que homem foi que viveu/
porém nunca foi menino,/ existe mas não nasceu;/ a mãe dele ficou
virgem/ até quando o neto morreu?// Este homem foi Adão/ que da terra se
gerou,/ foi feito já homem grande,/ não nasceu. Deus o formou./ A terra
foi a mãe dele/ e nela se sepultou.// Foi feito mas não nascida/ essa
nobre criatura./ A terra era a mãe dele/ serviu-lhe de sepultura/ para
Abel, o neto dela/ fez se a primeira abertura.//
w
Adão e sua esposa Eva desfilam entre as figuras bíblicas
das procissões da Semana Santa. Em Santo Antônio do Monte (MG), vão
semeando na terra. v. Costela de Adão.
w
Frase de pára-choque: Feliz foi Adão que não teve sogra nem
caminhão. w
O pecado de Adão: Eu inté fico abusado,/ seu doutô, quando magino/ em
Adão, esse marvado,/ sacudi nois no pecado//.
v. Estrela do Céu. v. Procissão de Cinzas. v. Fiado. v. Ferro. Adão e a
enxada: v. Agricultura e religião.
w
A expressão: “Somos filhos de Maria, descendência de Adão” está
no canto das seis horas.
w
A dupla sertaneja Nilo e Nelo resume tudo que supomos a maioria dos
brasileiros saiba sobre o primeiro casal humano: Adão foi o primeiro
homem que no mundo Deus criou/ depois com muita cautela com sua costela
a mulher formou./ Então lhes deu o paraíso e fez um aviso para o casal:
/ Não coma o fruto proibido que é concebido fruto do mal.// Ali tudo era
belo foi o jardim que Deus formou/ Mas pra estragar o ambiente veio a
serpente o casal tentou/ A mulher chamada Eva não vendo as trevas que
causaria/ comeu o fruto proibido ela e o marido e tudo perdia.// Foi
assim que assim que veio o anjo e expulsou-os do paraíso/ Por causa da
tentação Eva e Adão perderam o juízo/ Por causa desta vaidade a
humanidade saiu mal/ Nascemos todos manchados com o pecado original.//
Depois do nosso batismo é que nos livramos deste pecado/ E por lembrança
de Adão todo o cristão só vê este ditado/ Ele perdeu o paraíso, teve
prejuízo por uma cobra/ E o povo ainda diz: Adão foi feliz que não tinha
sogra.// w
Mais sobre o assunto:
PAPINI, Giovanni. O Diabo. Lisboa, Livros do Brasil Ltda., 1953.
pp.126-130.

BENZEDEIRA
Também chamada rezadeira. O ministério da benzedeira ou do
benzedor é rezar pelos males que afligem o povo, sobretudo os
pobres. Não existe benzedeira sem que haja uma comunidade buscando suas
orações. Mesmo assim, recorrem a ela pessoas de todas as classes
sociais. v. Abençoar. w Há bênçãos
para pessoas, animais e negócios. A benzedeira reza pela paz nas
famílias, para tirar cobras de uma fazenda, para se fazer boa viagem.
Reza para doentes, mesmo quando estão distantes. A benzedeira também
costuma ensinar remédios. v. Medicina caseira. v. Plantas na religião.
w
O ritual da bênção freqüentemente acontece perto do oratório, onde há
uma vela acesa. Muitas rezadeiras têm um quartinho especial para
a oração. w
Cada rezador ou rezadeira tem seu carisma. A rezadeira idosa é procurada
para aconselhar menina-moça na puberdade. A rezadeira reza em crianças
doentes de mau olhado. A própria mãe também pode benzer a
criança. Às vezes, o rezador ou a rezadeira pega um pouco do mal que faz
o doente sofrer. Poe ex., rezar ou benzer quebranto pode fazer a
rezadeira bocejar. A rezadeira entende seu trabalho como um
serviço que ela assume por tradição, em resposta à necessidade da sua
comunidade. w
Uma benzedeira em Minas Gerais: "Era assim que Siá Critéria
benzia de quebranto: Fazia uma cruz com os pés da criança, rezando três
vezes o padre-nosso e ave-maria; virando-a de bruços, tomava-lhe os pés
bem juntinhos, sobre os quais fazia o nome do Padre, e oferecia a Nosso
Senhor Jesus Cristo. Ou então rezava assim: Deus qui te feis,/ Deus
qui ti criou,/ Nossa Senhora é qui tira /esse mal qui ti introu.// E
rezava um padre-nosso e uma ave-maria a Nossa Senhora da Aparecida"[1].
w
Nem todo mundo tem aptidão de curar pela oração. É claro que a
psicologia é fator importante, mas como explicar a cura à distância,
cura de crianças e até de animais apenas pela sugestão? Os rezadores
dizem que é a fé que cura, e costumam rezar gratuitamente. Em
geral, não se consideram dotados de forças especiais, como sugerem os
adeptos da parapsicologia.
w
Quase sempre é com algum parente próximo que as benzedeiras aprendem as
orações, os gestos e os remédios, e não gostam de passar a estranhos as
palavras que rezam. w
Discriminação e controle social: na Idade Média, muitas rezadeiras,
acusadas de serem bruxas, foram perseguidas pela Inquisição. Hoje, o
mesmo controle social é exercido em nome da medicina erudita e da
psiquiatria[2]. w
Caso raro é a benzedeira evangélica. Em Mogi das Cruzes (SP), dona
Violeta benze com a Bíblia as pessoas doentes e manda tomar chá de
várias plantas colhidas no quintal. (Inf.: José Eustáquio da Costa)
[1] MATOS, Ivo de. 2a.Ed.
Mumbuca. Belo Horizonte, Ed.São Vicente, 1980. p.53.
[2] OLIVEIRA,
Elda Rizzo de. O que é Benzeção. (Col.Primeiros Passos: 142) São
Paulo, Ed.Brasiliense, 1985. p.17

BANTO
Nei Lopes, autor do “Dicionário Banto do Brasil”,
escreve: “Dentro do quadro da presença afro-negra no Brasil, verifica-se
uma predominância das culturas bantas, que colaboraram para a formação
da cultura brasileira principalmente através de suas línguas, entre elas
o quicongo, o umbundo e o kimbundo. Contestando uma suposta
ascendência de línguas sudanesas, como o nagô (iorubá) no panorama das
línguas africanas faladas no Brasil à época da escravidão e que teriam
modificado o falar português em nosso país, Renato Mendonça escreve: ‘O
quimbundo, pelo seu uso mais extenso e mais antigo, exerceu no português
uma influência maior do que o nagô’ (...). De fato, no vocabulário do
português falado no Brasil, os termos de origem nagô estão mais
restritos às práticas e utensílios ligados à tradições dos orixás, como
a música, a descrição dos trajes e a culinária afro-baiana.
w
No seu livro “Falares africanos na Bahia” (Topbooks, 2001), a
etnolingüista Yeda Pessoa de Castro, de Salvador (BA), defende que, do
século XVI ao XIX, os bantos foram o grupo negro de maior densidade
populacional no Brasil. Diz que “os empréstimos africanos do português
no Brasil, são todos de origem banto”, e ressalta: “As denominações das
religiões afro-brasileiras são de origem banto: candomblé,
macumba, catimbó, calundu – que foi a forma mais antiga de denominação
dessas religiões e já se encontra registrada em Gregório de Mattos, no
séc. XVII”.
Muitos vocábulos bantos, especialmente do kimbundo e do kikongo,
enriqueceram nossa língua pátria: cafundó do Judas, umbanda,
Zâmbi, Zumbi. aruanda, quilombo, quibungo,
cabula.

CADERNO
MANUSCRITO
Existem
cadernos manuscritos com versos da folia para refrescar a memória dos
foliões nos dias antes da saída da folia. Estes cadernos não são usados
durante a cantoria.
w
Outra espécie de caderno contém coleções de cantos religiosos para
ocasiões diversos. Misturam-se cantos de missa com benditos da Semana
Santa, músicas para o mês de maio, outras para pedir chuva em tempo de
seca ou fazer romarias. Encontramos um caderno assim com 125 músicas que
foi copiado em 1960 por Maria da Paz Câmara, em Telha (SE). Há nele, por
ex.: 4 hinos para São Severino, música para a coroação de Nossa
Senhora e uma para queimar as flores no fim do mês de maio, Veni
Criator Spiritus (latim!), o pranto de Nossa Senhora, o
tradicional Senhor Deus, o canto penitencial meu Jesus a
vossos pés, outro ao cruzeiro da missão e uma variedade de
músicas para Jesus no Santíssimo Sacramento. Curiosas são as observações
escritas entre os cantos, como: "Cópia de Terezinha Lins para a boa
amiguinha Maria do Carmo Martins. Têlha, 28 de 5 de 1945". / "Carminha,
quando eu morrer, você não se esqueça de rezar por mim, viu!" /
"Desculpe os borrões que são demais e a caligrafia que é muito ruim,
viu. Saudades sem fim, da amiga".// w Em
Mário Campos (MG), charoleiros usam um caderno para fazer sua adoração
noturna dos Senhor dos Passos: v. Charola do Senhor dos Passos.
w Os cadernos manuscritos, que não são uma
raridade, demonstram claramente que as coisas oficiais e as populares
são inseparáveis, na religiosidade popular. w
Há cadernos interessantes que contém coleções de pontos de umbanda usado
nos terreiros. w Outros cadernos contém
orações: v. Envultar-se. v. Brasil católico.

CARTILHA OU COMPENDIO DA
DOUTRINA
CHRISTÃ (Livro)
Trata-se de uma das cartilhas da Doutrina Crista mais
conhecidas no Brasil. Nela, a doutrina e a vida cotidiana andam juntas.
A "Cartilha, ou Compêndio da Doutrina Christã", ordenada por perguntas e
respostas, do abade de Salamonde no arcebispado de Braga, Antônio
José de Mesquita Pimentel. Impressa no Porto em 1871*, contém "toda
a Doutrina e orações, que costumam ensinar aos meninos,
explicadas com distincção e clareza. Juntam-se-lhe Orações para a Missa,
Confissão e Communhão; para rezar o Rozario e Corôa, e visitar a
via-sacra e os Passos. Accrescentada com a Táboa das Festas mudaveis,
Kalendario dos Mezes e Eclipses. Nov.das Almas; Oração Mental;
Oração á Senhora da Conceição da Rocha; modo de visitar a Igreja, e
várias orações”. Os Mandamentos da Lei de Deus fazem parte do
Catecismo. A Cartilha ainda contém: Oração contra os inimigos,
Regras de bem viver, Máximas do Marquês de Maricá,
Preceitos para viver sanctamente, Pecados que bradam aos céus,
Dons do Espírito Santo, Frutos do Espírito Santo,
Novíssimos do Homem, Taboada, Descripção Geographica de Portugal e
do Brasil. Seu catecismo começa com as tradicionalíssimas perguntas
(séc. XVI): P.Sois Christão? R.Sim, pela graça de Deos. P.Que
cousa é ser Christão? R.É ser Discipulo de Christo, sendo baptisado, e
professar a sua Sancta Lei, até dar a vida por Elle. P.Qual é o signal
do Christão? R.É a Sancta Cruz, porque n'ella morreu Christo”. v.
São Mateus. v. Folhinha. v. Estrela do Céu. v. Santa Maria Eterna. v.
Perguntas e respostas. v. Obrigações do rico e do pobre.
w
Há cartilhas mais recentes: v. Nova Cartilha da Doutrina Christã (1925).
v. Cartilha do Bom Jesus da Lapa (1955). v. Abra a Porta: Cartilha do
Povo de Deus (1979).
Gravura do ABC encontrada na
"Cartilha ou Compendio da Doutrina Christã" (1871)
Neste ABC não há as letras I, U, W, X e Y.
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A - árvore
B - balança
C - cesto
D - dado
E - espelho
F - fogareiro
G - gato
H - homem
J - jarro |

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K - kâncer (?)
L - livro
M - mocho
N - navio
O - olho
P - pente
Q - quadrante
R - raposa
S - sereia
T - tesoura
V - viola
Z - zenith
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DANÇA
A dança é arte
e lazer. É expressão corporal e valoriza o corpo. Pode ser
um gesto religioso, uma oração.
w
Danças religiosas: v. Dançar.
w
Entrar na dança é participar, viver. Participar de uma roda de
samba ou batuque é integrar-se no grupo. Diz o canto: Sozinho não
danço, nem hei de dançar porque tem fulano para ser meu par. Mas,
dançou!, significa acabou, perdeu. A dança da vida: v. Roda. v.
Folia.
w
A dança aproxima brincadeira e ritual, reúne alma e corpo, reconcilia a
vida com tradições e regras. Na dança nem tudo é improvisado. É preciso
ter noção de ritmo, compasso, coreografia, canto, enfim, aspectos
diversos.
w
Em alguns casos, é necessário dançar para plantar: v. Bananeira.
w
Há danças de grupo: roda, escola de samba, olodum, toré, frevo,
corta-jaca, pericom; e individuais. v. Passagem. v. Contradança.
w
O musicólogo Francisco Curt Lange avisa: “Devemos prescindir do
raquítico conceito do ouvinte passivo da música ou espectador curioso da
dança, produto do século XX, que não tem capacidade de compenetração
porque não mais canta nem toca instrumento algum, e também ignora o que
significa integrar-se a uma coreografia coletiva”.
w
Na cultura popular existem danças de trabalhadores: vaqueiros,
lavradores, pescadores, rendeiras e tecedeiras. No Paraná, há danças dos
lenhadores. No Amazonas e no Pará, a dos barqueiros e marujos. Em Minas
Gerais e na Bahia, a dos canoeiros. Em São Paulo, no Vale da Ribeira, os
artesãos de Apiaí praticam a dança do barro.
w
Na região amazônica, existem as danças que imitam os animais da
floresta. v. Cordão de bicho.
w
A dança tradicional de índios e negros faz parte da educação e do
caminho da libertação. v. Memória.
w
Crianças gostam de dançar. Casais dançam. O palhaço faz o povo dançar.
Torcedores caem na folia. Sem dança, são inimagináveis o carnaval e
muitas outras festas.
w
Há danças de rua, terreiro, salão, teatro, congá e capela. Índios e
negros dançam na religião.
w
Curiosamente, a elite mantinha preconceitos contra as danças dos
negros (batuque, jongo, samba), consideradas sensuais, lascivas e
obscenas, com umbigadas.
w
Núbia Pereira de M. Gomes diz: “Estudar a dança dos Arturos é resgatar,
nos corpos que se movem, a caminhada dos negros os fragmentos da
história material e psicologia dos escravos”.
w
Sobre a invenção da dança de São Benedito: v. Moçambique.
w
O baile é pecado? v. Dançar.
[1]
LANGE, Francisco Curt. “As Danças Coletivas Públicas no Período
Colonial Brasileiro e as Danças das Corporações de Ofícios em Minas
Gerais”. In: Barroco I, ano 1969. p.19.
[2]
GOMES, Núbia Pereira de Magalhães & PEREIRA, Edimilson de Almeida.
Negras Raízes Mineiras: Os Arturos. Juiz de Fora,MEC/EDUFJF,
1988. p.24.

DESAFIO
ou PORFIA
Duelo entre dois cantadores, duas folias ou dois
boi-bumbá.
w
O desafio entre cantores nos veio de antiga tradição européia. Já é
encontrado na literatura latina e estava bem vivo na época dos
trovadores. Em Portugal encontramos: “Cantigas ó desafio/ você que me
desafiou/ Cantei-lhe uma cantiga/ você logo se calou”.
w
O desafio obedece a certas regras, mas é cheio de improvisações.
Segue amostra do linguajar de Azulão, negro cantador pernambucano: No
dia que eu me decido/ me pegar c'um cantador,/ antes coisa de uma hora/
percuro um chiqueradô,/ digo a ele: Se previna/ que hoje a luta faz
horrô!// Quando me faltá repente, falta tubarão no mar,/ falta padre nas
igreja,/ falta Santo nos altar, falta frade nos convento, e seca no
Ceará.// Outro repentista cearense, o Serrador, ao vencer um rival
cantou: Eu me desmancho em repente,/ não tem quem me
desabone!/ Quem for cristão vá vê vela,/ meta na mão de Sinfrone...//
A vitória é de quem souber responder às perguntas feitas, exibir mais
conhecimentos, demonstrar mestria na métrica e na rima. v. Poesia
popular. v. Perguntas e respostas. v. Fute.
w
Antigamente, em São Paulo, em Minas Gerais e em Goiás, quando duas
folias se encontravam, havia desafio de cantoria. Hoje, isso acontece só
raramente. Na ocasião, cantam tudo o que sabem, decorado e improvisado.
Quem mais canta é vencedor. Quem perdesse, era obrigado a entregar a
bandeira e retornara para casa. Isto, às vezes, tem causado pancadaria,
briga entre os palhaços, roubo da bandeira com as esmolas e até morte.
v. Folia dos Santos Reis. Mário de Andrade registra que, no carnaval
carioca do começo do séc. XX, aconteciam também rivalidade e
afrontas quando dois cordões se encontravam nas ruas. Roubavam o
estandarte.
Em folias de Reis no Sul de Minas Gerais, Guilherme Porto registra
versos amenos: Encontrou as duas bandeiras/ as virtudes são igual/
Senhor mestre, com licença,/ sua bandeira vou beijar.// Também beijei
sua bandeira/ com prazer e alegria/ Menino Deus nascido/ abençoai nossa
folia.// Despede de minha bandeira/ como Cristo de Belém/ sua folia vai
com Deus/ qu’a nossa vai com Deus também.// Pela Sagrada Escritura/
escreveu os Evangelhos/ sobre este nosso encontro/ inimizade eu não
quero.//
v. Agressividade. v. Inveja.
w
Vicente Salles comenta a existência do desafio entre foliões do Divino,
antigamente no Estado do Pará.
w
Também o jongo conhece desafios ou enigmas na sua
cantoria. v. Visaria.
PIRES, A.Thomaz. Cantos populares portugueses. Vol.IV. Elvas,
Tipogr.Progresso, 1910. p.95.
MOTA, Leonardo. Cantadores. Rio de Janeiro, Ed. A Noite,
1953. p.68 e 137.
ANDRADE, Mário de. “Os Congos”. In: Lanterna Verde. No.2.
Fev/1935. p.48.
PORTO, Guilherme. As Folias de Reis no Sul de Minas. Rio de
Janeiro, MEC-SEC/Funarte/ INFL, 1982. p.30.
SALLES, Vicente. Repente & Cordel, literatura popular em versos
na Amazônia. Rio de Janeiro, FUNARTE/ Instituto Nacional do
Folclore, 1985. p.39.

ECUMENISMO
[Do grego "oikoumene", mundo habitado.] No cristianismo,
a palavra “ecumênico” inicialmente significava universal. O mesmo vale
para a palavra catolicismo. v. Eclesiocentrismo.
w
A partir do séc. XIX começou a indicar o movimento em prol da unidade
dos cristãos. Segundo o Conselho Mundial de igrejas (CMI),
"Jesus Cristo fundou uma igreja. Hoje vivemos em diversas Igrejas
separadas umas das outras. Contudo nossa visão do futuro é que algum dia
viveremos de novo, como irmãos e irmãs, numa igreja indivisa”.
v. Seitas e ecumenismo. v. Heresia. v. Tolerância.
w
A unidade visível das igrejas deve ser imaginada como uma união na
diversidade, parecida com a união das doze tribos na sua
aliança com Deus. v. Associação Ecumênica dos Teólogos do Terceiro
Mundo. w
O diálogo entre as religiões, sem proselitismo e sem competição,
leva ao enriquecimento mútuo. É quando se passa da discriminação à
comunhão. v. Macro-ecumenismo.
w
O ecumenismo acontece na vida cotidiana, das bases para cima.
Concretamente: partilha alegre e solidária da experiência do Deus
vivo por nossas comunidades e através das diversas confissões e
culturas. Esta experiência de aproximação se dá nas lutas dos
trabalhadores na cidade, na caminhada dos migrantes, na resistência dos
indígenas e negros, na peleja dos menores e na participação das
mulheres. v. Cultura e religião. v. Inculturação.
w
Jether Pereira Ramalho, do Centro Ecumênico de Documentação e Informação
(CEDI), nos fala de um ecumenismo não programado, que acontece no
cotidiano da vida dos pobres e dos oprimidos. Diz: “Para o povo, Deus é
maior do que todas as nossas divisões. As barreiras colocadas entre os
homens e a criação das diversas confissões religiosas que disputam o
‘mercado religioso’ são fruto e produção dos próprios homens e respondem
a momentos históricos já ultrapassados e desconhecidos do próprio povo.
– Deus está muito acima dessas coisas todas. Está junto do povo humilde
e sofredor. Na grande sabedoria popular, a figura e a presença de Deus
não se constituem em monopólio de nenhum grupo. Podem haver diferenças,
ênfases e estilos especiais, traços culturais distintos, mas acima de
tudo isso está a convicção de que Deus é Pai de todos nós”.
v. Humildade.
w
Mesmo dentro da Igreja Católica precisamos de uma espécie de ecumenismo
cultural, uma união que respeite história, tradições,
antepassados, a fé viva de todos os fiéis. v. Sincretismo.
w
A vontade de encontrar e conhecer veio substituir desconfiança,
preconceito e inimizade.
[1]
Descrição da Comissão Fé e Constituição do Conselho Mundial das
Igrejas. Salamanca (Espanha), 1973.
[2] RAMALHO, Jether Pereira. “Um Ecumenismo que nasce do Povo”. In:
Os Leigos na Igreja e no Mundo. Edição especial do Santuário de
Aparecida. 1987. p.30.

ENCANTAMENTO
[Do
latim "incantare", enfeitiçar.] Obra de fada ou bruxo. O mesmo
que magia e feitiço. Nas lendas, por uma ação mágica, um
monstro pode ser um príncipe encantado. Para um encantamento, podem ser
invocadas forças religiosas ou cósmicas. Há encantamentos para o bem ou
para o mal. v. Fórmulas mágicas. v. Dragão Negro. v. Feitiçaria. O
encantamento também pode acontecer de maneira espontânea. Alguém pode
ficar encantado pela beleza ou pela simplicidade de alguém que nos deixa
de boca aberta. Dizemos: que maravilha! que encanto! O
encantamento e o desencantamento se alternam[1].
w
O carnaval parece uma espécie de encantamento coletivo e
espontâneo. O desencanto chega com a ressaca, na Quarta-feira de Cinzas.
w
Num mundo racionalista, não há lugar para o encantamento. Não resta
dúvida que a presença de Jesus pela consagração da hóstia, na
Missa, por muitos é entendida como uma espécie de encantamento. v. Beata
Maria de Araújo. v. Metamorfose.
w Na teologia, encontramos os
que condenam toda forma de encantamento. v. Crendice. v. Ramalhete
espiritual. Outros condenam só os encantamentos para o mal. v. Bruxaria.
v. Cerimônia de desencanto. w
Existem tesouros encantados e casas e árvores assombradas.
w
Para os caçadores, há bichos encantados. Por ex. o guará. v. Couro de
guará. w
Para os raizeiros, há plantas encantadas que só são encontradas após
certas cerimônias. O mesmo existe na Angola: v. Quimbanda.
w
Na etnografia indígena: v. Amuleto.
Também no catimbó.
w
Termo freqüente nos cultos afro-brasileiros, onde encontramos
encantamentos para saudar divindades, acalmar uma briga, dar comida à
terra. Por ex.: fala-se do encantamento do Sabão da Costa. v. Ofó.
w
Também o próprio orixá tem encantamento. v. Cair no santo. v. Oxóssi.
w
Verbetes afins: v. Adivinhação. v. Reino encantado da pedra bonita. v.
Cidade do Paraíso terrestre.
[1] Cf.: CARDIGOS, Isabel. In and out of enchantment: Blood
Symbolism and Gender in Portuguese Fairytales. Helsinki, Academia
Scientiarum Fennica, 1996. A filóloga Isabel David Cardigos fala da
contribuição própria da mulher na criação de histórias de fadas.

FARTURA
A principal
preocupação do pobre é viver hoje e amanhã. O mantimento é o centro da
garantia da sobrevivência, junto com a casa para morar. O que o pobre
ganha parece contado e mal dá para suprir suas necessidades básicas. v.
Miséria. v. Luxo. v. Opulência. v. Prosperidade. v. Pão.
w
Jesus dá fartura à mulher humilde: v. Feijão.
w
As referências à comida aparecem sem parar na fala do povo,
mostrando a importância da alimentação na luta do dia-a-dia. A parlenda
para ensinar às crianças nomes ou números diz: Um, dois, feijão com
arroz/ Três, quatro, feijão no prato/ Cinco, seis, feijão para nós três/
Sete, oito, feijão com biscoito/ Nove, dez, feijão com pastéis[1].
Sábado de Aleluia, o povo diz: Aleluia/ Aleluia/ Carne no prato/
Farinha na cuia.[2] A fome atávica leva mãe e crianças a
perguntas e respostas em versos tradicionais, até macabros: Estou
com fome./ Coma um homem.// Quero mais./ Coma um rapaz.// Quero pouco./
Coma um caboclo.// Quero muito./ Coma um defunto.//[3]
w
Por outro lado, não são incomuns as utopias da fartura, situadas
no passado ou no futuro. Banquete e festa têm um
significado escatológico: tempo de fartura aqui e agora, já! Na
linguagem popular: país de cucanha e tempo do
Paráclito. v. Festa do Divino em Parati (RJ). v. Viagem de São
Saruê. w Muitas festas religiosas
populares coincidem com o período das colheitas. Nas festas do
Divino, da Folia e do Rosário, costuma existir significativa fartura de
alimentos. v. Folia do Divino. v. Pentecostes. v. Ritual de rebelião.
w
Nas festas juninas, o primeiro levantamento de mastro, no
dia 12, véspera de Sto. Antônio, "o buraco no chão deve ser tampado com
ovos de galinha, grãos de milho e de feijão, pois as galinhas ficam sem
peste e as colheitas se tornam boas"[4]. w
Doralécio Soares descreve a fartura nas festas de tradição
alemã-italiana, em Santa Catarina: "As festas quase sempre são ao redor
das igrejinhas ou capelas não faltando às mesmas, muito vinho, a
graspa – aguardente de bagaço de uva – e muita comida. É comum as
famílias ligadas à igreja prepararem grande quantidade de comida para os
que vierem de longe comerem à vontade. Nessas festas, quase sempre,
cantam horas a fio, canções que trouxeram e suas raízes culturais"[5].
w
Orixá
da fartura: v. Oxóssi. Grande fartura há nas festas dos Ibêji.
[1] MELO, Veríssimo de. Folclore Infantil. Brasília, Ed.Cátedra,
INL/MEC, 1981. p.54.
[2] MELO, Veríssimo de. Folclore Infantil. Brasília,
Ed.Cátedra,INL/MEC, 1981. p.64.
[3] MELO, Veríssimo de. Folclore Infantil. Brasília,
Ed.Cátedra, INL/MEC, 1981. p.74.
[4] FELIPE, Carlos. Quadrilha: teatros, poema e dança. Belo
Horizonte, Belotur/SESC, s.d.. p10.
[5] SOARES, Doralécio. "Italianos e Alemães,influências
gauchescas". In: Boletim da Comissão Catarinense de Folclore. Ano
XXIII, n.37/38. Dez/1985. p.32.

FÉ
Confiança do homem em Deus e na Igreja. Diz a Oração do
Monte Serrate: Sem fé não há salvação nem milagre. Primeiro
Deus se revela. O homem responde com a adesão. w
Não existe fé sem revestimento cultural. v. Tradição. v. Crer.
w O catecismo ensina que é uma das três
virtudes teologais: fé, esperança e amor; ou então: "Um dos
frutos do Espírito Santo". w A fé
encarnada: não há fé sem o cotidiano, nem cotidiano sem fé. É a
idéia do ser humano inteiro. v. Medo. A fé está em todo lugar: nas
igrejas, nos cemitérios, no barco, em pára-choques de caminhões, nos
nomes de lojas, na fábrica, na lavoura, na favela. v. Catolicismo.
w Nos ditados: A fé é que nos salva e
não o pau da barca. // A fé remove montanhas. v.
Não-racional. w Em um canto de pedir
chuva, gravamos: Quem tiver suas oração/ guarda ela no coração;/
basta ter fé em Deus/ de ver a chuva no chão.// (Itinga. MG, 1975).
w Na Rel. Pop., o risco da fé é comparado
a um jogo com Deus. w Fé num
Deus vivo: v. Experiência religiosa. O cantor baiano Gilberto Gil
canta: Andar com fé eu vou. A fé não costuma falhar.
w Fé na ressurreição: v. Páscoa.
w Fé em Deus e em si mesmo: v. Boiadeiro.
Uma campanha política em São Paulo (1955) usou como slogan: Fé em
Deus e pé na tábua. w Fé e ideologia:
v. Política e religião. w Fé popular,
resgate da dignidade no pobre que diz: O pouco com Deus é
muito. v. Aliança. v. Alegria. w No
congado, a fé se concretiza no vestuário, no instrumento, na dança:
v. Grupo. w Fé e ética: v. Canudos.
A pessoa que faz ruindade, mostra não acreditar em Deus. Diz o
bendito de Santa Teresa: O pai de Santa Teresa/ fé em Deus ele
não tinha/ mandou vir Santa Teresa/ para pôr lá na cozinha.//
w A fé cura, diz o povo (Cf. Mt 9,
27-29; Lc 18, 35-43). Também as benzedeiras dizem: É preciso
ter fé. Deus cura. É a dimensão religiosa da vontade de curar-se. O
xamã e o curador cristão reforçam a fé no Deus da vida, que nos salva.
v. Teologia da vida. v. Verdade. w Mais
sobre o assunto: GALLAGHER, Michael Paul. SJ. Clashing Symbols: an
introduction to Faith-and-Culture. London, Darton/ Longman and Todd,
1997.

GALO
Nas culturas antigas, o galo
simboliza fecundidade e vigilância.
w
Cristo, São Pedro e o galo aparecem 120 vezes em sarcófagos do séc. IV.
O galo de então simboliza a luz da aurora, a luta e a vitória de Cristo
ressuscitado, vitória da qual participa o São Pedro Mártir (em Roma) e
não tanto as três vezes que o mesmo Pedro negou a seu mestre.
w
Do simbolismo da vitória de Cristo sobre as trevas surgiu a Missa do
Galo. w
Na Semana Santa, precisamente no ofício das trevas, a
vela que “ocupa o vértice do candelabro triangular” é chamado galo.
w
O galo anuncia o amanhecer. No Nordeste dizem que Deus
fez o galo para acordar os homens para o trabalho e avisar do roubo de
suas filhas.
É chamado relógio dos pobres. v. Criação do Mundo.
w
O galo faz parte do presépio popular por anunciar o nascimento de Jesus,
o sol da justiça. Em São Paulo, folias de reis cantam: Deus ti salve
este galo/ que cantou no nascimento/ Nossa Senhora abençoou/ pelo
bendito galo bento.// Diz um batuquinho do presépio, em
louvor do Menino Deus: Na primeira cantada do galo, quando São
José se abalou. Não tem como a noite de Natal, não tem, não há.
(Araçuaí. MG) Um verso conhecido nas folias: O galo, crista de serra/
é um pássaro escolhido./ Foi ele quem deu a nova/ que Jesus era
nascido.// Outro verso diz: Galo canta, bateu asa/ respondeu a
mãe de Deus: / Quem canta nessa altura,/ quem louva Jesus, sou eu.//
(Araras. SP) Em São Joaquim de Bicas, Igarapé (MG, 1999), os
foliões cantam: Era meia-noite em ponto/ o galo santo cantou:/ nasceu
o menino Jesus/ em Belém, entre os pastores.// O galo crista de rosa/
foi um pássaro divertido/ foi ele que anunciou/ que Jesus tinha
nascido.//
w
Em Cristais (MG), os foliões cantam:
Cantou o galo, nasceu cristo/
não se avistou ninguém/ respondeu uma ovelha/ Cristo nasceu em Belém.//
Os reis magos viram a estrela/ e saíram a passear/ Foram para Belém/
depois do galo cantar.//
w
Sinal de alerta, desde que cantou três vezes antes de São
Pedro trair o Divino Mestre (Mt 26,74). Talvez por isso que o povo
acredita que galo cantando fora da hora anuncia coisa ruim. É agouro!
v. Senhor do Galo. v. Galo músico.
w
Quem não quer trabalhar sem remuneração diz: Quem canta de graça é
galo e morre pobre no terreiro.
w
Jongueiro: v. Jongo. w
Galo na torre da igreja: v. Caça. Em João Pessoa (PB), na torre da
Igreja de São Francisco, um galo indica a direção dos ventos.
w
Na encomendação das almas, o cantar do galo na madrugada despede
as almas e traz a luz do dia.
w
A crença popular do demônio gerado do ovo posto por um galo velho vem de
histórias medievais sobre o lendário basilisco. Do ovo posto no esterco
quente nasce um galo com o rabo feito cobra. Seu olhar e seu cheiro são
mortais. Já no Sl 90,13, o basilisco é símbolo das forças do mal.
[1] POST, P. "Vroeg-christelijke kunst en Liturgie".
In: Tijdschrift voor Liturgie. Ano 69. Nº4.
Julho/1985. p.214.
[2] FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Dicionário da Língua
Portuguesa. Rio de Janeiro, Ed.Nova Fronteira, 1975. “Galo”
p.671.
[3] SOUTO MAIOR, Mário. Painel Folclórico do Nordeste. Recife,
Universidade Federal de Pernambuco/Ed.Universitária, 1981. p.29-30.
[4] ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional, Vol.1: festas,
bailados, mitos e lendas. (2a.Ed.) São Paulo,
Ed.Melhoramentos, 1967. p.448.

GENTILEZA(+1996)
Nome que se atribui
José Datrino, nascido em Mirandópolis (SP) e que ficou conhecido como o
profeta dos viadutos da cidade do Rio de Janeiro. Aos 18 anos de
idade, deixou sua terra natal para viver em Guadalupe, subúrbio do Rio.
Em 1961 converteu-se à idéia de que deveria ser um emissário de Jesus,
pregando a paz e o amor entre os homens. Em obediência à mensagem divina
que dizia haver recebido, deixou a família e, de barba comprida e
vestido de uma túnica branca, passou a percorrer as ruas da cidade.
Estendeu a sua pregação a muitos estados do país, e chegou a ser
preso durante o regime militar, suspeito de ser comunista ou hippie.
No viaduto do Gasômetro, em frente à Rodoviária do Rio de Janeiro,
escreveu belos textos, que assinou como Profeta Gentileza. Faleceu em
junho de 1996, na sua cidade natal. Daí, artistas, poetas e
pesquisadores que estudaram e admiraram o seu grafismo - verdadeira arte
de rua - prometeram fazer uma exposição com painéis montados dentro de
um circo, para percorrer as principais capitais brasileiras.[1] Embora
infelizmente não se possa mostrar o recurso ao grafismo que José Datrino
utilizou no seu trabalho evangelizador, um texto sobre as gentilezas de
Deus para conosco serve como uma pequena amostra: Deus 1º -> Pae ->
Gentileza -> Criadorrr do Univerrsso 2º Filho -> Jessuss -> por
Gentileza 3º Espírito -> Santo -> Jozze Agradecido -> Senhor Papae de
Jesus -> Santo 4º Senhora -> Mamãe -> Maria -> Aparrecida -> com Amor ->
e -> Honrra. v. Sermão.
[1]Jornal do Brasil. 31/05/1996. p.30.

HILÁRIA
BATISTA DE ALMEIDA(+1924)
Tia Ciata de Oxum,
Siata ou Assiata. Pessoa importantíssima para o entendimento da
integração das culturas negras na cidade do Rio de Janeiro, para onde
depois da Abolição rumou considerável fluxo de ex-escravos baianos em
busca de trabalho. Nesse momento da virada do século, vamos ver como
candomblé e samba convergem para criar, com os ranchos,
cordões, cucumbis e afoxés, novas identidades negras,
que logo extrapolam e integram a fisionomia cultural mais ampla da
cidade do Rio de Janeiro. Fixando-se primeiro no bairro da Saúde e
trabalhando no cais do porto, o grupo baiano viu-se obrigado a novo
deslocamento para as ruas da Cidade Nova, além do Campo de Santana, com
a reforma de Pereira Passos. Já é a vizinhança da famosa Praça Onze,
berço do samba no início do século. Constitui-se, assim, o trecho do Rio
de Janeiro chamado por Heitor dos Prazeres de Pequena África,
como informa Roberto Moura.[1] Preterido pelos imigrantes europeus nas
obras de remodelação da cidade, o negro forro procurou estiva do porto,
o exército e, principalmente, os serviços que hoje chamaríamos de
economia informal, e para os quais ganhara experiência em seu tempo de
escravo. Sapateiro, barbeiro, alfaiate, ferrador, pedreiro, lustrador,
marceneiro, tecelão, pintor de parede ou de letreiros, vendedor
ambulante, ele ia ocupando, com esses trabalhos de biscate ou de
subemprego, os espaços que lhe possibilitavam a sobrevivência. Assim
vivendo e morando em lugares próximos ou comuns, passavam sem cessar,
uns aos outros, ofícios e informações. Tia Ciata era grande doceira e
irmã de santo de Tia Bebiana, de ofício pespontadeira, figura importante
da primeira fase dos ranchos cariocas, ainda ligados ao ciclo do Natal,
aos pastoris. Tia Bebiana armava em sua casa uma Lapinha, e os
cortejos dos ranchos iam evoluir em homenagem a ela no dia dos Santos
Reis. Os ranchos do bairro da Saúde, por influência de, entre
outros, Hilário Jovino Ferreira, o Lalau de Ouro, iriam
passar para a Cidade Nova e a Praça Onze, mudando a fisionomia do
carnaval. Este, na época, fazia-se com Zé-Pereiras e cordões
que reuniam portugueses e gente pobre, gente de cor e gente dos morros
do Castelo e da Favela, do Mercado Municipal e dos bairros de Santo
Cristo e Saúde, somados a cucumbis e afoxés que
introduziram instrumentos de percussão, fantasias e cantos, que foram
africanizando o carnaval. Foi grande e alcançou a própria vida da
cidade, a influência de tia Ciata na manutenção e transformação
enriquecedora resultante da africanidade do seu extenso grupo familiar.
Freqüentadora do candomblé iorubano de João Alabá (iniciado na
Saúde pelo africano Quimbanbochê), juntamente com outras tias
baianas, ganhou respeito por sua posição no terreiro. Daí surgiu a
configuração do samba carioca. Graças à relativa estabilidade da
situação de seu companheiro de toda a vida, João Batista da Silva, que
ela ajudou a empregar no gabinete do chefe de polícia, tia Ciata pôde
celebrar em sua casa as festas dos Orixás sem recear a repressão
policial. Depois do ritual religioso, que em geral era precedido pela
missa católica, chegava a hora da música, da dança, do pagode. Futuros e
grandes compositores negros como Pixinguinha, Donga (1889-1974), João da
Baiana e Heitor dos Prazeres, estão entre as crianças que freqüentavam a
casa de tia Ciata na Praça Onze, absorvendo elementos baianos, mais
tarde transformados em samba carioca. Iam-se também armando os embriões
da escola de samba, decorrentes da nova forma carnavalesca –
desfile processional - do rancho Ameno Resedá (1904) e alguns outros
mais. Além de manter em torno dela o rancho "Rosa Branca" e o sujo
"Macaco é Outro", tia Ciata armou célebre barraca de comida na festa
portuguesa organizada pela Irmandade da Penha, que se converteu, como
explica Roberto Moura,[2] num primeiro local de encontro da massa negra
com as demais classes urbanas, já que estas não freqüentavam o
carnaval popular da Praça Onze e comemoravam sua festa em corsos na
Avenida e bailes em clubes. A festa da Penha tornou-se o lugar
por excelência para o lançamento e popularização das músicas de
carnaval, com o apoio de alguns jornalistas cariocas. Tia Ciata armará
ali sua barraca de cozinha nagô até a sua morte, em 1924.
[1] MOURA,
Roberto.
Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
Funarte, 1983. p.57-70.
[2] MOURA, Roberto.
Tia Ciata e a Pequena África do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro,
Funarte, 1983.p.73.

HORAS
MARIANAS (Livro)
Manual de oração antigo e muito
usado na Rel. Pop. Daí, lhe darmos tanta atenção.
w
Também chamado "Horas Marianas Portuguezas", por tratar-se de uma
tradução das Horas Marianas Latinas. Constam da edição de 1825, a
tabuada das festas mudáveis, o calendário dos santos, indulgências (a
partir de 1568) para quem rezar o ofício; o prólogo exalta o
valor da reza cotidiana das "Horas Canônicas do Officio menor" de Nossa
Senhora, "praticado há mais de mil annos", pois alcançou "socorro nos
casos mais apertados, auxílio nos perigos mais evidentes e remédio nos
mais desesperados sucessos". Constam da Primeira Parte, os Ofícios I, II
e III da Virgem Nossa Senhora (convém lembrar que aqui não se trata do
Ofício de Nossa Senhora da Conceição), o Ofício da Santa Cruz
"aprovado pela Santa Igreja e exposto na lingua portugueza para os
Cavalleiros das Ordens Militares, e para todas as pessoas, que
por sua devoção o quizerem rezar". v. Estrela do Céu. v. Paraiso de
Divinas Flores ou Horas Lusitanas (1766). A Segunda Parte, chamada
"Formulario de Orações e Devoções" (1830), contém o Ofício de Defuntos,
Salmos Penitenciais, ladainha de Todos os Santos, preces e orações
cotidianas, instruções para adorar a Deus, a popular oração Santa
Maria Eterna, a semana meditativa, eucarística e mariana, visita à
imagem do Senhor Crucificado, o responsório de Sto. Antônio, ordinário
da missa em português, o sacramento da penitência, orações para visitar
cinco igrejas nos dias das estações, novenas de Nossa Senhora, método de
rezar o rosário da Senhora, saudações de São Gregório, orações para
acompanhar o Ssmo. Sacramento. v. Santa Maria Eterna.
w
Inicialmente as Horas Marianas são da autoria de Frei Francisco de Jesus
Maria Sarmento. O mesmo autor publicou Horas Preciosas e
Cartilha Doutrinal. Até à XXª Edição (1796) a obra foi impressa em
Lisboa. Já a edição de 1830 foi impressa em Paris. Da edição de 1847
ainda constam, os nomes de Fr. Francisco de Jesus Sarmento e do
presbytero J.I.Roquete, que aumentou a obra. Mas a partir das edições em
1849 (600 pp..) e em 1872 (680 pp..), em Paris, a obra é romanizada e
leva o nome "Novas Horas Marianas, ou officio menor da SS. Virgem Maria,
Nossa Senhora e novo devocionario mui completo de orações e
exercícios de piedade", sob a autoria apenas de J.Roquete. Nesta nova
edição ilustrada consta a Missa em latim e em português. v. Manual
Portuguêz. w
Em Canudos (BA), Antônio Conselheiro usava as Horas
Marianas.
w
Espécie de pequeno ofício (officium parvum) dedicado a Maria, mãe
de Jesus.
[1] CUNHA, Euclides da. Os Sertões. (27a.Ed.) Rio de Janeiro, Francisco Alves, 1986. p.122.

IDADE
MÉDIA
Período
da história, chamado assim pelos renascentistas italianos para indicar
que, depois da cultura clássica grega e romana, houve um tempo
intermediário de decadência seguido por outro, que foi o do renascer
(500-1300) da cultura antiga na Itália. Nos séc. XVII e XVIII, o termo
Idade Média passou a significar o período entre a antiguidade e o tempo
novo (500-1500).
w
Segundo a historiografia moderna, trata-se da época da história
européia, entre os séculos VII e XV, marcada de modo impressionante pela
união entre religião, vida, cultura, Igreja e Estado. Era tempo
de castelos, mosteiros e catedrais, cruzadas, relíquias, cátaros e
epidemias da peste. w Ao terminar a Idade
Média, a união política, espiritual e religiosa começa a desfazer-se. v.
Reforma. v. Burguesia. w
Na espiritualidade medieval, nota-se grande atenção pela encarnação e
pelo mistério da humanidade de Cristo. v. Terra Santa. Alguns grandes
santos desta época: São Bernardo, São Francisco de Assis, São Domingos,
São Luis, rei da França. w
Muitos elementos presentes na Rel. Pop. do Brasil vêm diretamente da
Idade Média: o cristianismo guerreiro das cavalhadas de cristãos e
mouros e da memória das cruzadas; a influência da
Bíblia Pauperum e da Legenda Aurea; a festa de Corpus
Christi, o Ofício de Nossa Senhora da Conceição; a lembrança
da peste e as devoções das Cinco Chagas, Nossa Senhora
das Dores; as folias e o carnaval; o mestre no
canto e o cantador-violeiro vêm do menestrel. Ainda há os
autos religiosos, a organização dos artesãos em corporações,
os exemplos, a fórmula Deus vos salve, e outros.

IRMANDADE
Associação religiosa de leigos.
v. Brasil católico. w
A irmandade mais antiga de que se tem notícia na Igreja foi fundada para
enterrar os defuntos na cidade de Constantinopla em 336*.
w
Na Europa da Idade Média floresceram igualmente corporações e
irmandades. Nos séc. XIV e XV, chegaram a englobar a maior parte da
população. Respondiam à necessidade vital de ajuda mútua que animava a
sociedade medieval. Cuidavam de obras pias e garantiam funerais
decentes. Uns praticavam ascese e autoflagelação, outros encenavam peças
teatrais. No séc. XV, na Catalunha (Espanha), havia as "hermandades" que
formavam milícias locais ou urbanas para cuidar da segurança das
estradas da região. w
A maioria das irmandades eretas no Brasil foram trazidas de Portugal.
Desempenharam importante papel social e religioso e, em muitos lugares,
foram as primeiras responsáveis pela nova ordem que se instalava.
w
No Brasil, as irmandades existem a partir do séc. XVI, em Pernambuco e
na Bahia. Segundo frei Jaboatão (1695-1765), a primeira irmandade foi a
Ordem Terceira de São Francisco de Assis da Vila de Olinda ou
Marim de Pernambuco, na capelinha de São Roque, hoje mosteiro de São
Bento.
Foi iniciada entre 1555-1557 por Dona Maria da Rosa e companheiras do
recolhimento de N.Sra.das Neves. No entanto, Mário de Andrade disse
numa conferência pronunciada em 1935 na Sociedade Felipe D’Oliveira: “O
jesuíta Antônio Pires dá notícia de que em 1552 os negros africanos de
Pernambuco estavam reunidos numa confraria do Rosário, e se praticava na
terra procissões exclusivamente compostas de homens-de-cor”.
w
Do tempo colonial até à República, o funcionamento da Igreja no Brasil
era baseado nas Irmandades que cuidavam da vida cristã dos irmãos,
construíam igrejas e, às vezes, hospitais ("Santa Casa"), organizavam as
festas religiosas, corais e orquestras, procissões, e enfim possuíam
cemitérios. O padre capelão da irmandade cuidava da vida religiosa
dos irmãos e era pago para isso conforme as normas do compromisso ou
estatuto da respectiva irmandade. Sua relação com os fiéis era muito
diferente do vigário que, aliás, em muitos lugares não havia.
w
Às vezes, igual às corporações medievais, as irmandades assumiam
evidentes funções sociais, tanto nas cidades de mineração em Minas
Gerais, como no litoral. w
Surgiram nas cidades simultaneamente irmandades para autoridades e
escravos, brancos e pretos, ricos e pobres, havendo entre elas uma
verdadeira hierarquia. Existiam também as rivalidades
entre, por ex., as irmandades dos brancos (Irmandade de Nossa Senhora
do Carmo, Irmandade do Santíssimo Sacramento, Irmandade dos
Passos) e a dos negros (Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos
Homens Pretos). v. Classe. Fritz Teixeira de Salles registra no
capítulo 24 dos Estatutos municipais da Ordem Terceira do Seraphim
Humano e Glorioso Patriarca São Francisco (1765), da cidade de Mariana
(MG): "Se he branco legitimo sem fama ou rumor de Judeu, Mouro ou
Mulato, Carijó ou outra infecta nação e o mesmo se praticará com a
mulher sendo cazada”.
Ao mesmo tempo, existiam irmandades abertas e pacíficas.
w
O estudo das irmandades não é simples. Nos documentos confundem-se os
termos irmandade e confraria, usando-se ambos para uma mesma
entidade. Também é complexo o assunto: ordem terceira. Além
disso, quando pensamos estar lidando com uma simples “Irmandade de
Sant’ana”, podemos mais logo descobrir que se trata da “Irmandade da
Santa Casa de Misericórdia de Ouro Preto, fundada a 2 de outubro de
1730, tendo como padroeira Nossa Senhora Santana”.
No tempo da Colônia, irmandade e corporação eram sinônimos: v.
Corporações em Ouro Preto (séc. XVIII).
w
A título de exemplo, registramos as irmandades existentes no Recife (PE)
do séc. XVIII:
Confraria de Nossa Senhora do Livramento (1696); Confraria de Santa Ana
(1749); Confraria de São José de Agonia (1785); Confraria do Santíssimo
Sacramento (1771); Irmandade das Almas (1684); Irmandade do Divino
Espírito Santo (1732); Irmandade de São Pedro dos Clérigos
(c.1700); Irmandade de Nossa Senhora da Conceição dos Militares (1725);
Irmandade de Nossa Senhora de Guadalupe (c.1781); Irmandade de Nossa
Senhora do Rosário dos Homens Pretos (1674*); Irmandade de N.Sra. do
Rosário dos Brancos (c.1810); Irmandade de Sta. Ifigênia (1756);
Irmandade de São Gonçalo Garcia (1745); Irmandade de Sta. Cecília
dos Músicos (1788); Irmandade do Sr.Bom Jesus das Chagas (1679);
Irmandade do Sr.Bom Jesus das Portas (1676); Irmandade de São José do
Ribamar (±1733); Ordem Terceira de São Francisco (1695); Ordem Terceira
do Carmo (c.1717).
w
Pesquisa feita por Kátia Mattoso revela que, no começo do séc. XIX, mais
de 100 confrarias e irmandades religiosas, em Salvador (BA), reuniam
separadamente brancos, mulatos e negros. "Mesmo entre os negros havia
cisões e as irmandades do Rosário só admitiam gente de ascendência
angolana, enquanto a de Nosso Senhor Redentor da Bahia só
aceitava jejes, vindos do Daomé, atual Benin. Sem contar as associações
secretas islâmicas formadas por muçulmanos de origem nagô e haussas
oriundos da Nigéria”.
v. Ogbôni.
w
No capítulo VI do Compromisso (1728) da Irmandade dos Homens
Pretos de Sêrro (MG) consta: O procurador terá cuidado saber se há
entre os Irmãos e Irmãs desta Santa Irmandade alguma inimizade e dará
parte ao Juiz para os fazer amigos; terá cuidado saber se há
entre os Irmãos algum que não faça vida com sua mulher por amor de outra
e dará parte ao Juiz para os repreenderem e se forem continuar os
poderão expulsar da Irmandade e terá cuidado saber se entre os Irmãos há
alguns que usem de ervas ou algumas feitiçarias e havendo estes
tais serão expulsos da Irmandade sem remissão; terá também cuidado de
saber dos Irmãos e Irmãs do seu modo de viver e o dinheiro com que se
assentaram por Irmãos, de que modo foi angariado porque deve ser dado de
bom grado de seus Senhores ou angariado de seu trabalho como Deus manda.
w
No tempo da colônia, havia poucas paróquias e o papel do padre capelão
nas irmandades era bem definido pelos irmãos leigos. Na época da
romanização, a igreja destas irmandades entrou em choque com uma
nova igreja organizada em paróquias e controlada pelo vigário,
muitas das vezes, declarado presidente nato das irmandades. Com a
chegada da Contra-Reforma, as irmandades adquiriram um caráter menos
civil e mais devocional. Vale comparar as CEBs de hoje com as Irmandades
de antes da Romanização. v. Irmandades dos Negros. v. Procissão. v.
Oratório. v. Insígnia. É preciso distinguir bem: Antes da romanização
existem a Venerável Ordem Terceira de São Francisco; a Irmandade do
Santíssimo Sacramento; a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos
Homens Pretos; a Irmandade de Nossa Senhora do Carmo, e muitas outras.
Durante a romanização chegaram a Ordem Terceira (Ordem Franciscana
Secular ou OFS); a Cruzada; o Apostolado da Oração; as Filhas de Maria,
a Liga Católica, Jesus, Maria José; os Marianos. Caso especial:
Vicentinos (movimento de leigos).
w
Antes da Romanização, as irmandades tinham uma grande independência do
clero. Fritz Teixeira de Salles escreve: "Cada irmandade era
proprietária, com direitos civis reconhecidos, das igrejas ou capelas
que construía; do cemitério onde eram sepultados seus irmãos falecidos;
animais de sela, imagens, utensílios e mobiliário dos seus respectivos
templos e dos seus escravos, quando os possuía. Trata-se portanto de uma
propriedade coletiva. Isto concorreu para desenvolver considerávelmente
o poder econômico das corporações”.
w
Até no séc. XIX as irmandades tinham grande poder de decisão nas igrejas
locais. O estilo clerical da paróquia romanizada é relativamente recente
no Brasil. Foi ela que transformou, por ex., as Irmandades do Rosário em
Pia Associação de Nossa Senhora do Rosário.
w
Convém lembrar que, além das irmandades organizadas formalmente, existem
agrupamentos como as companhias, folias e cavalhadas
responsáveis por festas religiosos. Há também os organizadores das
encomendações das almas, das rodas de São Gonçalo, da reza da Santa Cruz
e da mesa de São Lázaro. v. Continuidade.
w
Mais sobre o assunto: BOSCHI, Caio Cesar. Os Leigos e o Poder:
irmandades leigas e política colonizadora em Minas Gerais. São
Paulo, Ática, 1986.
[1]
Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão. Novo Orbe Seráfico.
1760. I.2,28. Apud: VAT, Odulfo van der.
Frei. OFM. Princípios da Igreja no Brasil. Petrópolis,
Vozes, 1952. p.104-123.
[2]
Apud: TINHORÃO, José Ramos. Música Popular de negros, índios e
mestiços. Petrópolis, Vozes, 1972. p.56.
[3]
SALLES, Fritz Teixeira de. Associações Religiosas no Ciclo do
Ouro. Belo Horizonte, Impr.da Universidade de MG, 1963. p.40.
[4]
MENEZES, Joaquim Furtado de. Igrejas e Irmandades de Ouro Preto.
Belo Horizonte, Publ.IEPHAMG, 1975. p.84.
[5]
Lista baseada nos dados encontrados em: DINIZ, Jaime C. Músicos
Pernambucanos do Passado. 2 Vol. Recife, Univ.Fed.de PE., 1969 e
1971.
[6] MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX - Uma Província no Império.
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1992. Apud:
Alencastro, Luiz Felipe de. "Memória da Província" In:
Veja. 13/05/1992.
[7] SALLES,
Fritz Teixeira de. Associações Religiosas no Ciclo do Ouro.
Belo Horizonte, Impr.da Universidade de MG, 1963. p.18.

JESUS
CRISTO NA RELIGIOSIDADE POPULAR
Jesus, nos termos
populares, é o Filho de Deus, Filho de Maria, Deus e
homem verdadeiro, nasceu pobre em Belém, foi carpinteiro em
Nazaré, andou no mundo, viveu para dar exemplo ao mundo,
mostrou o caminho do bem e do mal, pedia esmola, deixou as rezas,
fez milagres, curou doentes, sofreu e morreu na cruz para nos salvar.
Como um pai Ele nos ama, nos perdoa e às vezes castiga. É adorado na
casa santa, no presépio e na cruz. Jesus presente no
Santíssimo Sacramento: a festa de Corpus-Christi, a lª
comunhão, o cálix bento e a hóstia consagrada, o quadro da
última ceia. É lembrado e celebrado com folias e pastorinhas no
tempo de Natal e com procissões e encenações na Semana Santa. Muitos
ajudam as obras da Terra Santa.
w
Visual: crucifixo, Sagrado Coração, Bom Pastor, Jesus Médico, Menino
Jesus no presépio e no braço de alguns santos, Senhor dos Passos, Senhor
Morto. Quadros da Sagrada Família, do desterro, da última ceia, do
Senhor Bom Jesus e da mão poderosa. A estátua do Corcovado.
w
Alguns dos santuários: Senhor do Bonfim (Salvador), Bom Jesus da
Lapa (BA), Santo Cristo (Rio), Bom Jesus de Matozinhos (MG), Bom Jesus
de Pirapora (SP)
w Devoções: as
cinco chagas nos protegem contra o inimigo e curam doenças. O
cruzeiro, a via-sacra, Sexta-feira Santa e a festa da Santa Cruz, são a
memória da paixão. v. Sangue de Jesus. O pobre se identifica com o
sofrimento de Jesus (e Maria). Muitos rezam a Jesus na hora da morte:
Se não puder falar com a boca, digo no coração: Jesus, Jesus, Jesus,
minha alma quer se salvar. v. Rede. v. Cama.
w
Jesus com o Pai e o Espírito Santo: v. Santíssima Trindade.
w
Jesus com Maria e José: v. Sagrada Família. v. Beatíssima Trindade da
Terra. v. Jesus, Maria José.
w
Existe a devoção com os parentes de Jesus.
w
Jesus anda com São Pedro, nas histórias de Quando Deus andou no Mundo.
Eu sei que Jesus viveu uns tempos no mundo para adivinhar, dar
poder a quem não tem. Ele veio para conhecer os bons e os maus. Por
isso, ele andava como um velho todo cheio de pereba e esmolambado,
pedindo comida e dormida na casa de um e de outro. Ele andava sempre com
São Pedro[1]. v. Jesus Pobre.
w
Freqüentemente Jesus e Maria andam juntos: Maria com Jesus nos braços;
procissão do encontro e no descendimento; a oração do sonho de nossa
Senhora; e outros tantos.
w
O menino Jesus está nos braços de vários santos: de Nossa
Senhora, de São José, de Sto. Antônio, São Cristóvão, São Benedito.
w
Títulos: Bom Jesus, Senhor do Bonfim, Senhor dos Passos,
Senhor dos Navegantes, Jesus crucificado, Senhor da Boa Vida, Deus
menino, Senhor morto, Rei dos reis, Rei da Glória, Justo Juiz,
Sagrado Coração, Deus nosso Senhor, o Santo Cristo, Divino Manuel,
meu Jesus de Nazaré, filho de Maria, filho de Deus, Deus e homem
verdadeiro, Jesus na hóstia.
w
Há grande amor a Jesus: Por ex.: Senhor meu Jesus Cristo, amor do meu
coração, confesso meus pecados, vós sabeis quais eles são; pelas vossas
5 chagas vos nos dais a salvação. - Meu coração é só de Jesus, a
minha alegria é a Santa Cruz.
w
A religiosidade popular é Cristocêntrica. Exemplo interessante:
Oferecimento de orações e benditos a Jesus: Oferecemos este
bendito/ ao Senhor que está na Cruz/ que nos leve até na glória,/ para
sempre, amém, Jesus.// O costume é oferecer os benditos dos Santos e
qualquer bendito desta maneira. Muitas orações terminam com estas
palavras: Para sempre amém, Jesus. Em muitos caminhões
encontramos o nome de Jesus ou a sagrada face.
w
Jesus ensina a benzeção e o remédio para curar o doente: v. Erisipela.
w
Jesus nos defende dos inimigos. Numa oração forte (escrita): Jesus
Cristo levantou-si/ eu levantei-mi.// Jesus Cristo benzeu-si,/ eu mi
bensi.// Jesus Cristo sahiu,/ eu sahi.// Jesus Cristo andou/ eu andei.//
Jesus Cristo chegou,/ eu cheguei.// Jesus Cristo falou,/ eu falei.//
Jesus Cristo venceu,/ eu venci.// Jesus Cristo ar (r)umou,/ eu arumei.//
Graças a Deus, já arumei u que ia aruma houje com fulano.//
P†D†S†S†C†Aleluia. (Explicado no verso da folha escrita: Pais
Domi São São Cordia Aleluia.)
w
Identificação de Jesus nos cultos afro-brasileiros: v. Deus Filho. v.
Teologia negra.
[1] ITER. A Fé Popular no Nordeste. Vol.II.Documentos.
Salvador, Ed.Beneditina, 1974. p.27.

J OGO
Segundo Núbia Pereira, "viver é jogar e o risco faz parte da
existência". E cita um depoimento popular de São Romão (MG): A vida
da gente é que nem um jogo. Perder a gente perde, às vezes. Mas ganha
também. A morte – meu pai é que falava assim – é o jogo derradeiro. Na
hora que ela leva nós, parece que ela ganhou. Mas quando a alma ganha o
céu, o inferno é que perde. w No jogo,
há o risco tanto de ganhar quanto de perder. Risco semelhante
existe no amor ou mesmo na fé. Encontramos uma certa mística
do jogo no verso de roda: Vamos, morena, vamos/ no jogo da
douradinha./ Se eu perder, você me ganha,/ se eu ganhar, você é minha.//
(Ceará e Minas Gerais) e no verso freqüente nos benditos: Fui no
céu jogar com Deus/ na mesa da comunhão./ Deus ganhou a minha alma/ e eu
ganhei a salvação.// v. Jogar com Deus. v. Baralho. v. Soldado
jogador. v. Lúdico.
w
Existem jogos públicos como o futebol, malha, taba (RS) e outros,
que são pura diversão. v. Pão e circo. Há jogos ligados com adivinhação
e com a nossa sorte. w Na opinião
do povo do interior, jogar por brincadeira não faz mal. Muitos preferem
o jogo de cartas. Em Santa Catarina, os descendentes dos italianos
praticam o jogo da mora, um passatempo com os dedos. Jogar por dinheiro
é considerado um vício. Deste Jesus teria dito: Quem é de
jogo, nunca vencerá na vida. Tem pessoas que não gostam de jogo
nenhum. Algumas chegam a dizer que jogo é do capeta e o dinheiro ganho é
amaldiçoado. No folheto "A Vaca Misteriosa que falou
profetizando", José Costa Leite avisa: O jogador sofrerá/
um castigo nunca visto/ quem ganha no jogo, ganha/ o amor do
Anti-Cristo/ fica num lugar sem luz/ e quem perde, perde a cruz/ de
nosso Senhor Jesus Cristo.// No folheto anônimo "A
Carta Misteriosa do Pe. Cícero Romão Batista sobre os Sinais do Fim do
Mundo" lemos: Meus filhos, deixem o jogo/ que o jogo não tem
valor/ quem ganha dinheiro em jogo/ ganha do diabo o amor/ para lá viver
sofrendo/ e quem perde está perdendo/ a cruz de Nosso Senhor.// v.
Padre Jogador. w
Para arrecadar dinheiro existem jogos como víspora e bingo,
também nas paróquias. – Em 1924, a Conferência Episcopal da Província de
Mariana, realizada em Juiz de Fora (MG), proibiu "os bailes em benefício
de Instituições Católicas, bem como outras festas beneficentes com jogos
de azar ou divertimentos de moralidade duvidosa. Proibimos igualmente as
festas religiosas com jogos a dinheiro, nas Praças ou em quaisquer
lugares franqueados ao povo, determinando aos Rev.Vigários que recorram
às autoridades, e no caso de nada conseguirem, suspendam imediatamente
os atos do culto, seja na sede da Paróquia, seja em capelas". (Jornal
Ação Social, 12/06/1924) w No Arquivo do
Conselho Ultramarino (Lisboa), acha-se uma Carta de D. Lourença de
Almeida, governador de Minas Gerais, participando a execução da ordem
régia proibindo dos jogos das rifas nas Minas Gerais. Vila Rica, 1729.
w
Vidência e jogo: v. Madame. w
A CNBB tem se pronunciado contra a legalização dos jogos em cassinos.
Segundo D. Demétrio Valentini, seria "a legalização da vontade de
enriquecer fácil". Dom Luciano Mendes de Almeida acrescenta: "A alta
indústria do azar (o jogo) incentiva o ganho fácil, em vez do trabalho
honesto e dignificante. É mais uma ilusão para a população, que
passa a ser induzida à sofreguidão em conseguir, pela sorte e de
repente, o enriquecimento". v. Riqueza repentina. v. Jogo do Bicho.
w
No
candomblé são conhecidos 4 jogos para a adivinhação ritual: o
jogo dos búzios; o jogo do ifá (opelê); o jogo do obi;
o jogo da alubosa.
[1] GOMES, Núbia Pereira Magalhães. e
PEREIRA, Edimilson de Almeida. Mundo Encaixado: significação da
cultura popular. Belo Horizonte, Mazza; Luiz de Fora: UFJF, 1992.
p.93.
[2] Apud: PAIVA, Osni. "A Supressão da Festa em 1924". In:
Informativo da Festa do Divino Espírito Santo, de Matozinhos. Ano
II, No.2. Maio de 1999. São João del Rei (MG). p.4.
[3] Inventário
dos manuscritos avulsos relativos a Minas Gerais existentes no Arquivo
Histórico Ultramarino (Lisboa). Coord.: Caio C. Boschi. Belo Horizonte,
Fundação João Pinheiro/ Centro de Estudos Históricos e Culturais, 1998.
Vol.1. p.73. (Doc. 1175.)
[4] "Igreja
Católica comanda oposição". In: Gazeta Mercantil. 9 de dezembro
de 1996.

KATECISMO
ÍNDICO DA LÍNGUA KARIRI
(Livro) |
Catecismo da autoria do capuchinho francês Bernardo de Nantes. v.Kariri.
Título completo: - "Katecismo índico da língua kariris, acrescentado de
várias práticas doutrinaes, e moraes, adaptadas ao gênio,
e capacidade dos índios do Brasil pelo padre Fr.Bernardo de Nantes,
capuchinho, pregador, missionário apostolico." A obra é dedicada a
D.João V e foi impressa em Lisboa em 1709. Foi reeditado em Leipzig,
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