SUPERIORIDADE
Frei
Francisco van der Poel ofm

                 O mandato é justificado como recebido do Diretor, do Superior, do Rei, do Presidente eleito ou mesmo de Deus. Afinal, há autoridades e súditos. O grande filósofo Hegel (1770-1831) fala da relação dialética entreservos e senhores”, uma espécie de luta sem fim, na sociedade.

                 Existe a superioridade atribuída a si mesmo. Por ex.: os europeus que invadiram a América do Sul, consideravam-se a si mesmos muito superiores à população indígena. Chegaram a duvidar de que o índio tivesse alma. É isso mesmo! Observemos que a ignorância é a mãe dos preconceitos.

                A divisão da sociedade emhomens bons” e a “raia miúda”, nos sécs.XVI-XVIII, é uma prova da suposta superioridade dos portugueses. quem pertencia à classe dos homens bons poderia exercer cargos públicos ou ter acesso à carreira eclesiástica. Surgiram privilégios e houve discriminação e racismo.

                O branco senhor de escravos sentia-se superior ao negro. Análise feita por Carlos R.Brandão, em Goiás, sobre documentos - relatos de viagens e romances - revela que o branco pensava ter caráter, ser capaz de aprender, ter sentimentos elevados, enquanto julgava o negro sem caráter, menos capaz de aprender, com sentimentos menos elevados. O homem mestiço levava vantagem sobre o negro.[1]

              Sem lógica nenhuma, há patrões que, até hoje, colocam em dúvida a capacidade dos trabalhadores oprimidos de entender os conflitos.

             Contra o etnocentrismo e qualquer outra prática da desigualdade, o projeto para a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas (1993) declara que "todas as doutrinas, políticas e práticas de superioridade racial, religiosa, étnica ou cultural são cientificamente falsas, legalmente inválidas, moralmente condenáveis e socialmente injustas”. (Parágrafos preambulares Nº3)[2]

             No entanto, uma aparente superioridade pode ser fruto de um complexo de inferioridade e isso atrapalha muito o diálogo e a busca da união na diversidade.


 

[1] BRANDÃO, Carlos Rodrigues. "Bichos Brancos e Negros em Pirenópolis". In: Revista de Antropologia. (33) 1990. pp.75-107.
[2]
Apud
: Porantim. Ano XV. Nº153. (Brasilia, Jan/1993) p.12.