A LINGUAGEM DO ENCONTRAR ...
(Prefácio provisório do futuro Abecedário, em
andamento há 10 anos)
A quem se dirige este Abecedário? A artistas (que usam a palavra e a imagem),
jornalistas, educadores, professores, pesquisadores das áreas de ciências sociais e
humanas, agentes de pastoral, católicos e não-católicos, trabalhadores, jovens, idosos,
enfim, a todos que desejam refletir sobre a vida e a fé dos pobres. Fazemos parte de uma
sociedade onde a resistência da riqueza cultural aparece quase como o oposto da
fragilidade da vida material da maior parte da população.
Sem assistência de saúde, sub-alimentada - quando não mergulhada na miséria
absoluta dos 32 milhões de marginalizados que todas as estatísticas atuais são
unânimes em apontar - é com certeza das trocas solidárias de bens e serviços que
grande parte desta população sobrevive.
Sabemos que há esforços por parte do governo e de organizações não-governamentais
para diminuir esta situação desoladora. Existem ações para ampliar os direitos de
cidadania, no desejo de conferi-los a todos os brasileiros.
Há porém uma questão delicada e difícil nesse maior relacionamento entre os
diversos segmentos da sociedade nacional: o desconhecimento das formas de pensar, viver,
criar e trabalhar dos pobres.
Além disso, infelizmente é comum a opinião de que cuidar da cultura num país de
terceiro mundo seria um luxo; como se a alfabetização, a organização do trabalho, a
reforma agrária, a democratização da sociedade e o abrasileiramento da Igreja pudessem
ser resolvidos sem a cultura. A religiosidade popular é cultura.
Muitos cientistas e jornalistas, quando falam da vida do povo brasileiro, excluem de
suas análises a religião, que explica muita coisa e tem a ver com a lógica do
cotidiano. Justamente por isso, esta religião mereceria um apurado estudo. As chamadas
crenças, práticas mágicas ou superstições são
registradas, mas parecem não ser relevantes para o pesquisador moderno. Outros estudam os
foliões e os congadeiros detalhadamente, mas não conseguem ver que se trata de homens
que lutam pela sobrevivência, tem profissão, salário, família. A religião é tratada
como um campo separado da vida e do mundo, onde não teria sentido.
A religiosidade popular tem uma dimensão histórica, mas é essencialmente
manifestação de vida. É a fé católica dentro de uma realidade muito concreta. No
subtítulo definimos: vida e religião dos pobres no Brasil.
Para alguns, associar a religiosidade popular à pobreza seria um equívoco. Dizem: a
questão da Religiosidade Popular não é do pobre. Mas nesta obra desejamos mostrar a
experiência religiosa do pobre e as suas culturas. Afinal, o termo religiosidade popular
surgiu justamente quando em Medellin, 1968, a Igreja da América Latina fez a sua opção
preferencial pelos pobres. Isso nos leva a uma leitura densa, ampla e profunda da
realidade com todas as diferenças, contradições e incoerências. Numa verdadeira
pedagogia do conflito nos abrimos para aprender do outro, do não-oficial, do
marginalizado, da sua riqueza. Desejamos respeitá-la. De fato, existem a religiosidade
oficial e a religiosidade popular. Não queremos estigmatizar nem o pobre, nem o rico. A
pobreza há de acabar.
Nas culturas da população pobre, a religiosidade é um forte dado comum que contribui
para a coesão e a harmonia da sua vida. Aí, a fé no sobrenatural constitui elemento
familiar que perpassa o cotidiano. O que é matéria do espírito nunca está separado da
atividade humana, no trabalho ou na festa, na doença ou na cura.
Assim, escolhemos o caminho da religiosidade para tentar uma aproximação maior da
história de marginalização, lutas e criatividade que marca secularmente a existência
dos pobres neste país - sejam índios, brancos ou negros. Reparamos ainda que, depois de
quatro séculos de contatos multiculturais, somos todos por sangue ou por cultura
assimilada, também índios-brancos--negros. Com isso queremos apenas apontar para
responsabilidades, proximidades e diversidades, e assim compartilhar e não desfazer
identidades, marcas diferenciais, alteridades.
A globalização parece ameaçar a identidade cultural dos povos. O noticiário
diariamente nos mostra bascos, irlandeses, palestinos, tibetanos, curdos, chiapas,
ianomamis, lutando pela sobrevivência de suas culturas, por seu espaço de vida.
Não queremos neste livro, portanto, uniformizar a religiosidade dos pobres, como fazem
as televisões comerciais ou mesmo os nossos grandes folhetos litúrgicos. Acreditamos em
uma união na diversidade.
A escola, a TV não valorizam a história e o saber dos pobres. O movimento
carismático católico, bem como as igrejas pentecostais, não incorporam por exemplo uma
folia dos santos reis, rezas de benzedeiras, nem a experiência religiosa de negros e
índios.
Por outro lado, o socialismo está em crise porque não soube integrar e valorizar as
culturas do homem pobre, do trabalhador pobre. Não teve a paciência de esperar as
mudanças nascerem da base. Os ideólogos não confiaram realmente no povo e, sem
vivência compartilhada e afetiva do seu universo - usaram coisas de cultura em função
da doutrinação. Mesmo vendo que a pastoral das CEBs e a Teologia da libertação estejam
passando por profundas mudanças, parecem estar sofrendo de um mal semelhante.
Pois carnaval, rezas de quebranto ou espinhela caída, congados e terreiros de umbanda
pareciam obstáculos para a libertação. As músicas produzidas nas CEBs não dão
nenhuma continuidade aos benditos, pontos, folias e cantos de penitência dos pobres. Por
não sabermos valorizar o que vem da base é que talvez não estejamos atingindo realmente
os pobres.
Por isso, este livro não quer ser um dicionário de folclore, coleção de rezas e
benditos, frases de caminhoneiros ou metalúrgicos. E nem tampouco manual de
interpretação de sonhos ou rituais de terreiro. E nem mesmo vocabulário bíblico,
hagiográfico ou litúrgico. Essas obras já existem.
O que buscamos é relacionar elementos necessários à compreensão da religiosidade a
partir da vida do povo. E com isso diminuir distâncias, estabelecer respeito e
solidariedade.
Elementos aparentemente não-religiosos como comida, remédios, armas, aparecem aqui,
uma vez que existe uma coerência, uma rede orgânica, que liga tudo isso na vida de um
determinado grupo. Também entre grupos semelhantes existem trocas de afinidades e
diferenças e uma história de marginalização em comum. As camadas altas não ficam de
fora das trocas simbólicas. Torcem pelo futebol, esta arte popular. Sabem sambar e gostam
de arroz e feijão. Neste livro, entendemos a sociedade como uma rede circular onde não
existe nada isolado. A pobreza de uns tem a ver com a riqueza dos outros. Numa sociedade
relacional, os homens são responsáveis uns pelos outros. A economia nacional, por
exemplo, afeta a todos, em diferentes graus, e a questão dos direitos humanos também.
(exemplo dos funqueiros nos subúrbios, e dos sem-terra)
Da mesma maneira, a religião dos pobres e a religião oficial, que apesar de distintas
não podem ser separadas. Constam portanto deste livro diversos assuntos teológicos,
litúrgicos e catequéticos oficiais.

Tentamos traçar um desenho amplo que caracterize a vida dos pobres. Este abecedário
se ocupa das suas formas de comer e beber, de construir seus abrigos, de se transportar,
de curar doenças com plantas, de amar e constituir família, de se armar, de ganhar
dinheiro, de celebrar datas religiosas e familiares. Assim, descobrimos como vida e
religião andam juntas. Procuramos mostrar toda a riqueza da linguagem do encontrar que
caracteriza a Religiosidade Popular.
Nas metrópoles do terceiro mundo registram-se movimentos de massa do campo para as
cidades. No Brasil de hoje, 70% da população vive nas cidades. Ao contrário dos
últimos 25 anos, quando estes mesmos 70% estavam no campo. Esta imensa urbanização
exige de nós um maior registro da religiosidade popular nas cidades. Antes desta
transformação, as culturas do campo, também fortemente focalizadas nesta obra, eram o
objeto principal dos estudos de folclore. O cotidiano da cidade moderna e a vida do
interior experimentam um forte esbarro. Os migrantes e os habitantes do campo são o lado
mais frágil diante da violenta pressão das mídias e do individualismo praticado na
metrópole.
Grupos de uma mesma cultura que se estabelecem nas grandes cidades, formando núcleos,
tendem também a se aproximar e a manter seus rituais e festas com bastante fidelidade aos
praticados em sua terra natal, movidos pelo desejo de manter a identidade em meio à
pressão desarticuladora dos novos costumes e valores. Tal é por exemplo o caso da Folia
de Reis do Morro de Santa Marta no Rio de Janeiro, onde é forte entre os participantes o
contingente de migrantes de pequenas cidades do Estado do Rio de Janeiro. Essa Folia se
reveste da mesma sacralidade das do interior, e é recebida nas casas do morro com a mesma
devoção. Em Brasília, os migrantes nordestinos mantém bonitas e importantes festas de
bumba-meu-boi. É também comum a convergência de migrantes de uma mesma região para
espaços públicos da cidade grande em dia de lazer como o domingo. Disso dá testemunho a
conhecida Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro, onde os nordestinos se reúnem há
décadas, para ouvir cantores, comprar seus folhetos, farinhas, redes, e comer em mesas ao
ar livre, cercados de amigos e parentes, as comidas regionais de seus estados.
É evidente que novos elementos simbólicos poderão surgir em muitas manifestações
culturais trazidas com os migrantes nesse processo de mudança social. Louceiras da
Paraíba hoje morando com sua família em favelas de Jacarepaguá confeccionam, ao lado
dos seus potes e vasilhas tradicionais, um figurado que representa cangaceiros, bois,
vaqueiros e santos, com um realismo que já tomou conhecimento das proporções plásticas
acadêmicas de certos segmentos da chamada "cultura alta". No entanto, a
modernidade também pode se incorporar com criatividade à cultura popular. Em
Caruaru(PE), os artistas do barro fazem a nave espacial Apollo XII com os astronautas
dentro.
Num país que sempre teve uma população flutuante desde os tempos coloniais, e que
com a era industrial viu esse processo acelerar-se ainda mais, é possível vermos uma
velha migrante do Jequitinhonha, numa favela de São Paulo, cantar um bendito das
penitências da seca para fazer um menino dormir. Ou encontrar uma oração para benzer
izípa registrada no século IX na Austria, e ter que ouvir o padre reclamar que as
rezadeiras inventam cada uma!
A gente entra num terreiro de Umbanda onde se entoa um ponto de Oxalá - Abra a Porta,
povo, que Ele vem, Jesus, - e reconhece parte de um auto medieval da Paixão proibido nas
igrejas há séculos.
Muitos migrantes que se fixam nas grandes cidades terminam por morar próximos de
outros procedentes de uma mesma localidade ou região. Parentes, amigos que chegam
primeiro chamam outros, quer pelo desejo de reconstituir a família, quer por
oportunidades de trabalho que aparecem para os conhecidos desejosos também de migrar por
falta absoluta de emprego ou possibilidade de trabalhar na terra. Este Abecedário tem
verbetes onde fica clara a expulsão dos trabalhadores do campo, pela velocidade com que
se extinguiu a parceria relativa com os donos da terra, com base na crescente
mecanização adotada pela agroindústria. A organização do MST exige uma política
agrária efetiva que promova a distribuição justa da terra.
A metodologia que adotamos neste abecedário pode e deve se aprimorar em outras
edições, para o que pedimos a ajuda de todos os que gostarem de usá-lo.
O povo tem categorias para classificar o mundo que o cerca. Uma vez que não conhecemos
bastante a coerência interna delas, entramos no dicionário com os termos que o próprio
povo usa, como também as ciências sociais fazem no mundo inteiro. O bonequeiro de
Caruaru não chamará de escultura as figuras que modela, e sim de boneco de barro. Da
mesma maneira, a rezadeira identificará dentro do corpo humano a espinhela caída, o
vento virado e a carne quebrada, diferentemente da medicina oficial. Com esse mesmo
critério, aparecerão aqui os termos Congado e Congada, dependendo de quando, onde e como
esse ritual ocorra.
Demos entrada aos títulos dos verbetes com a palavra corrente no português oficial,
acrescentando-lhe os eventuais termos de uso popular. Quando necessário, por ser de uso
muito corrente, o termo popular abre um verbete em itálico, que remete ao seu equivalente
na língua oficial. Da mesma forma colocamos em itálico todos os falares do povo.
Provérbios, rezas, e mesmo textos eruditos como os da popular Cartilha da Doutrina
Christã(séc.XIX) aparecem assim, pelo fato de terem sido incorporados à vivência
popular.
Além de querer mostrar palavras e termos do povo, nossa intenção, sempre que
possível, é valoriza-las num contexto maior: provérbios, versos, rezas, histórias,
benditos e até depoimentos.
Abordamos aqui, pela sua importância, as religiões afro-brasileiras, mas sem
intenção exaustiva, uma vez que existem ainda contradições entre os seus estudiosos,
não sendo tarefa deste trabalho resolvê-las. A título de exemplo, lembramos a variedade
das entidades sobrenaturais e a dificuldade de nomeá-las, já que inúmeros grupos as
cultuam com nomes diferenciados. Há Nanã Burucu e Anemburoquê. E como se não bastasse
isso, é possível encontrar para um mesmo nome de orixá diferentes grafias, que resultam
da ótica e da formação de cada autor.
Também a vida e a experiência religiosa dos índios vem aqui lembradas, especialmente
no seu entrelaçamento com certos cultos afro-brasileiros e tradições orais católicas
da Europa. Afinal, o catolicismo dos brasileiros se propagou em boa parte a partir da
tradição oral portuguesa. Entretanto, ao tocar nesse assunto, não temos qualquer
pretensão de resumir, quanto mais de esgotar, esse assunto complexissimo.
A inclusão destes termos e expressões não basta, porém, para dar conta da opção
ideológica pelas formas de manifestar-se dos pobres. Com esta opção, para além da
beleza, originalidade ou simplicidade que estas possam encerrar - para não falar de sua
religiosidade - queremos ir ao encontro do espírito e significado de suas buscas.
São de fundamental importância os verbetes sobre a história do cristianismo no
Brasil, a organização dos leigos e da igreja oficial, o padroado e a romanização, as
CEBs e pentecostalismo. São lembrados beatos, almas santas e profetas, recolhimentos e
santuários, irmandades e movimentos messiânicos.
Este Abecedário não tem a pretensão de ser neutro. E de raiz católica -
literalmente universal - quando procura evitar preconceitos. Não falamos de
superstições ou crenças, mas na fé do povo. Basta de discriminação e
ridicularização. Na nossa Igreja, hoje, o problema não será tanto a doutrina e o
dogma, mas o uso do poder e a efetiva participação do povo de Deus.
Ao trazer os mais variados pontos-de-vista sobre a religião e a vida da sociedade
brasileira, esperamos contribuir para o acerto da caminhada da Igreja que amamos. No ano
de 1992, os bispos da América Latina reafirmaram, em Santo Domingo, sua opção
preferencial e bíblica pelos pobres e defenderam a inculturação do Evangelho nas mais
diversas culturas. Achamos que, sem conhecer e valorizar o sistema das culturas, dos
comportamentos e das formas de fé que constituem a religiosidade popular, não será
possível imaginar esta inculturação.
Aqui mostramos fatos, tentamos contribuir para o conhecimento da história dos pobres.
Faz parte da obra uma cronologia que inclui datas importantes para o entendimento da
religião do povo. Afinal, os pobres são os novos sujeitos da História.
Não tem sentido falar em religião sem que haja um Deus vivo presente na nossa vida.
A experiência religiosa na vida do pobre constitui o fio de ouro deste Abecedário.
|