ABECEDÁRIO DA
RELIGIOSIDADE POPULAR

de Frei Chico e Lélia Coelho Frota.

Começo do Princípio do Início de Alguma Coisa...
7500  verbetes e 5500 notas de roda-pé, no dia 09 de dezembrol de 1999

 

 
   
A LINGUAGEM DO ENCONTRAR ...
(Prefácio provisório do futuro Abecedário, em andamento há 10 anos)


          A quem se dirige este Abecedário? A artistas (que usam a palavra e a imagem), jornalistas, educadores, professores, pesquisadores das áreas de ciências sociais e humanas, agentes de pastoral, católicos e não-católicos, trabalhadores, jovens, idosos, enfim, a todos que desejam refletir sobre a vida e a fé dos pobres. Fazemos parte de uma sociedade onde a resistência da riqueza cultural aparece quase como o oposto da fragilidade da vida material da maior parte da população.

Sem assistência de saúde, sub-alimentada - quando não mergulhada na miséria absoluta dos 32 milhões de marginalizados que todas as estatísticas atuais são unânimes em apontar - é com certeza das trocas solidárias de bens e serviços que grande parte desta população sobrevive.

Sabemos que há esforços por parte do governo e de organizações não-governamentais para diminuir esta situação desoladora. Existem ações para ampliar os direitos de cidadania, no desejo de conferi-los a todos os brasileiros.

Há porém uma questão delicada e difícil nesse maior relacionamento entre os diversos segmentos da sociedade nacional: o desconhecimento das formas de pensar, viver, criar e trabalhar dos pobres.

Além disso, infelizmente é comum a opinião de que cuidar da cultura num país de terceiro mundo seria um luxo; como se a alfabetização, a organização do trabalho, a reforma agrária, a democratização da sociedade e o abrasileiramento da Igreja pudessem ser resolvidos sem a cultura. A religiosidade popular é cultura.

Muitos cientistas e jornalistas, quando falam da vida do povo brasileiro, excluem de suas análises a religião, que explica muita coisa e tem a ver com a lógica do cotidiano. Justamente por isso, esta religião mereceria um apurado estudo. As chamadas ‘crenças’, ‘práticas mágicas’ ou ‘superstições’ são registradas, mas parecem não ser relevantes para o pesquisador moderno. Outros estudam os foliões e os congadeiros detalhadamente, mas não conseguem ver que se trata de homens que lutam pela sobrevivência, tem profissão, salário, família. A religião é tratada como um campo separado da vida e do mundo, onde não teria sentido.

A religiosidade popular tem uma dimensão histórica, mas é essencialmente manifestação de vida. É a fé católica dentro de uma realidade muito concreta. No subtítulo definimos: vida e religião dos pobres no Brasil.

Para alguns, associar a religiosidade popular à pobreza seria um equívoco. Dizem: a questão da Religiosidade Popular não é do pobre. Mas nesta obra desejamos mostrar a experiência religiosa do pobre e as suas culturas. Afinal, o termo religiosidade popular surgiu justamente quando em Medellin, 1968, a Igreja da América Latina fez a sua opção preferencial pelos pobres. Isso nos leva a uma leitura densa, ampla e profunda da realidade com todas as diferenças, contradições e incoerências. Numa verdadeira pedagogia do conflito nos abrimos para aprender do outro, do não-oficial, do marginalizado, da sua riqueza. Desejamos respeitá-la. De fato, existem a religiosidade oficial e a religiosidade popular. Não queremos estigmatizar nem o pobre, nem o rico. A pobreza há de acabar.

Nas culturas da população pobre, a religiosidade é um forte dado comum que contribui para a coesão e a harmonia da sua vida. Aí, a fé no sobrenatural constitui elemento familiar que perpassa o cotidiano. O que é matéria do espírito nunca está separado da atividade humana, no trabalho ou na festa, na doença ou na cura.

Assim, escolhemos o caminho da religiosidade para tentar uma aproximação maior da história de marginalização, lutas e criatividade que marca secularmente a existência dos pobres neste país - sejam índios, brancos ou negros. Reparamos ainda que, depois de quatro séculos de contatos multiculturais, somos todos por sangue ou por cultura assimilada, também índios-brancos--negros. Com isso queremos apenas apontar para responsabilidades, proximidades e diversidades, e assim compartilhar e não desfazer identidades, marcas diferenciais, alteridades.

A globalização parece ameaçar a identidade cultural dos povos. O noticiário diariamente nos mostra bascos, irlandeses, palestinos, tibetanos, curdos, chiapas, ianomamis, lutando pela sobrevivência de suas culturas, por seu espaço de vida.

Não queremos neste livro, portanto, uniformizar a religiosidade dos pobres, como fazem as televisões comerciais ou mesmo os nossos grandes folhetos litúrgicos. Acreditamos em uma união na diversidade.

A escola, a TV não valorizam a história e o saber dos pobres. O movimento carismático católico, bem como as igrejas pentecostais, não incorporam por exemplo uma folia dos santos reis, rezas de benzedeiras, nem a experiência religiosa de negros e índios.

Por outro lado, o socialismo está em crise porque não soube integrar e valorizar as culturas do homem pobre, do trabalhador pobre. Não teve a paciência de esperar as mudanças nascerem da base. Os ideólogos não confiaram realmente no povo e, sem vivência compartilhada e afetiva do seu universo - usaram coisas de cultura em função da doutrinação. Mesmo vendo que a pastoral das CEBs e a Teologia da libertação estejam passando por profundas mudanças, parecem estar sofrendo de um mal semelhante.

Pois carnaval, rezas de quebranto ou espinhela caída, congados e terreiros de umbanda pareciam obstáculos para a libertação. As músicas produzidas nas CEBs não dão nenhuma continuidade aos benditos, pontos, folias e cantos de penitência dos pobres. Por não sabermos valorizar o que vem da base é que talvez não estejamos atingindo realmente os pobres.

Por isso, este livro não quer ser um dicionário de folclore, coleção de rezas e benditos, frases de caminhoneiros ou metalúrgicos. E nem tampouco manual de interpretação de sonhos ou rituais de terreiro. E nem mesmo vocabulário bíblico, hagiográfico ou litúrgico. Essas obras já existem.

O que buscamos é relacionar elementos necessários à compreensão da religiosidade a partir da vida do povo. E com isso diminuir distâncias, estabelecer respeito e solidariedade.

Elementos aparentemente não-religiosos como comida, remédios, armas, aparecem aqui, uma vez que existe uma coerência, uma rede orgânica, que liga tudo isso na vida de um determinado grupo. Também entre grupos semelhantes existem trocas de afinidades e diferenças e uma história de marginalização em comum. As camadas altas não ficam de fora das trocas simbólicas. Torcem pelo futebol, esta arte popular. Sabem sambar e gostam de arroz e feijão. Neste livro, entendemos a sociedade como uma rede circular onde não existe nada isolado. A pobreza de uns tem a ver com a riqueza dos outros. Numa sociedade relacional, os homens são responsáveis uns pelos outros. A economia nacional, por exemplo, afeta a todos, em diferentes graus, e a questão dos direitos humanos também. (exemplo dos funqueiros nos subúrbios, e dos sem-terra)

Da mesma maneira, a religião dos pobres e a religião oficial, que apesar de distintas não podem ser separadas. Constam portanto deste livro diversos assuntos teológicos, litúrgicos e catequéticos oficiais.

Tentamos traçar um desenho amplo que caracterize a vida dos pobres. Este abecedário se ocupa das suas formas de comer e beber, de construir seus abrigos, de se transportar, de curar doenças com plantas, de amar e constituir família, de se armar, de ganhar dinheiro, de celebrar datas religiosas e familiares. Assim, descobrimos como vida e religião andam juntas. Procuramos mostrar toda a riqueza da linguagem do encontrar que caracteriza a Religiosidade Popular.

Nas metrópoles do terceiro mundo registram-se movimentos de massa do campo para as cidades. No Brasil de hoje, 70% da população vive nas cidades. Ao contrário dos últimos 25 anos, quando estes mesmos 70% estavam no campo. Esta imensa urbanização exige de nós um maior registro da religiosidade popular nas cidades. Antes desta transformação, as culturas do campo, também fortemente focalizadas nesta obra, eram o objeto principal dos estudos de folclore. O cotidiano da cidade moderna e a vida do interior experimentam um forte esbarro. Os migrantes e os habitantes do campo são o lado mais frágil diante da violenta pressão das mídias e do individualismo praticado na metrópole.

Grupos de uma mesma cultura que se estabelecem nas grandes cidades, formando núcleos, tendem também a se aproximar e a manter seus rituais e festas com bastante fidelidade aos praticados em sua terra natal, movidos pelo desejo de manter a identidade em meio à pressão desarticuladora dos novos costumes e valores. Tal é por exemplo o caso da Folia de Reis do Morro de Santa Marta no Rio de Janeiro, onde é forte entre os participantes o contingente de migrantes de pequenas cidades do Estado do Rio de Janeiro. Essa Folia se reveste da mesma sacralidade das do interior, e é recebida nas casas do morro com a mesma devoção. Em Brasília, os migrantes nordestinos mantém bonitas e importantes festas de bumba-meu-boi. É também comum a convergência de migrantes de uma mesma região para espaços públicos da cidade grande em dia de lazer como o domingo. Disso dá testemunho a conhecida Feira de São Cristovão, no Rio de Janeiro, onde os nordestinos se reúnem há décadas, para ouvir cantores, comprar seus folhetos, farinhas, redes, e comer em mesas ao ar livre, cercados de amigos e parentes, as comidas regionais de seus estados.

É evidente que novos elementos simbólicos poderão surgir em muitas manifestações culturais trazidas com os migrantes nesse processo de mudança social. Louceiras da Paraíba hoje morando com sua família em favelas de Jacarepaguá confeccionam, ao lado dos seus potes e vasilhas tradicionais, um figurado que representa cangaceiros, bois, vaqueiros e santos, com um realismo que já tomou conhecimento das proporções plásticas acadêmicas de certos segmentos da chamada "cultura alta". No entanto, a modernidade também pode se incorporar com criatividade à cultura popular. Em Caruaru(PE), os artistas do barro fazem a nave espacial Apollo XII com os astronautas dentro.

Num país que sempre teve uma população flutuante desde os tempos coloniais, e que com a era industrial viu esse processo acelerar-se ainda mais, é possível vermos uma velha migrante do Jequitinhonha, numa favela de São Paulo, cantar um bendito das penitências da seca para fazer um menino dormir. Ou encontrar uma oração para benzer izípa registrada no século IX na Austria, e ter que ouvir o padre reclamar que as rezadeiras inventam cada uma!

A gente entra num terreiro de Umbanda onde se entoa um ponto de Oxalá - Abra a Porta, povo, que Ele vem, Jesus, - e reconhece parte de um auto medieval da Paixão proibido nas igrejas há séculos.

Muitos migrantes que se fixam nas grandes cidades terminam por morar próximos de outros procedentes de uma mesma localidade ou região. Parentes, amigos que chegam primeiro chamam outros, quer pelo desejo de reconstituir a família, quer por oportunidades de trabalho que aparecem para os conhecidos desejosos também de migrar por falta absoluta de emprego ou possibilidade de trabalhar na terra. Este Abecedário tem verbetes onde fica clara a expulsão dos trabalhadores do campo, pela velocidade com que se extinguiu a parceria relativa com os donos da terra, com base na crescente mecanização adotada pela agroindústria. A organização do MST exige uma política agrária efetiva que promova a distribuição justa da terra.

A metodologia que adotamos neste abecedário pode e deve se aprimorar em outras edições, para o que pedimos a ajuda de todos os que gostarem de usá-lo.

O povo tem categorias para classificar o mundo que o cerca. Uma vez que não conhecemos bastante a coerência interna delas, entramos no dicionário com os termos que o próprio povo usa, como também as ciências sociais fazem no mundo inteiro. O bonequeiro de Caruaru não chamará de escultura as figuras que modela, e sim de boneco de barro. Da mesma maneira, a rezadeira identificará dentro do corpo humano a espinhela caída, o vento virado e a carne quebrada, diferentemente da medicina oficial. Com esse mesmo critério, aparecerão aqui os termos Congado e Congada, dependendo de quando, onde e como esse ritual ocorra.

Demos entrada aos títulos dos verbetes com a palavra corrente no português oficial, acrescentando-lhe os eventuais termos de uso popular. Quando necessário, por ser de uso muito corrente, o termo popular abre um verbete em itálico, que remete ao seu equivalente na língua oficial. Da mesma forma colocamos em itálico todos os falares do povo. Provérbios, rezas, e mesmo textos eruditos como os da popular Cartilha da Doutrina Christã(séc.XIX) aparecem assim, pelo fato de terem sido incorporados à vivência popular.

Além de querer mostrar palavras e termos do povo, nossa intenção, sempre que possível, é valoriza-las num contexto maior: provérbios, versos, rezas, histórias, benditos e até depoimentos.

Abordamos aqui, pela sua importância, as religiões afro-brasileiras, mas sem intenção exaustiva, uma vez que existem ainda contradições entre os seus estudiosos, não sendo tarefa deste trabalho resolvê-las. A título de exemplo, lembramos a variedade das entidades sobrenaturais e a dificuldade de nomeá-las, já que inúmeros grupos as cultuam com nomes diferenciados. Há Nanã Burucu e Anemburoquê. E como se não bastasse isso, é possível encontrar para um mesmo nome de orixá diferentes grafias, que resultam da ótica e da formação de cada autor.

Também a vida e a experiência religiosa dos índios vem aqui lembradas, especialmente no seu entrelaçamento com certos cultos afro-brasileiros e tradições orais católicas da Europa. Afinal, o catolicismo dos brasileiros se propagou em boa parte a partir da tradição oral portuguesa. Entretanto, ao tocar nesse assunto, não temos qualquer pretensão de resumir, quanto mais de esgotar, esse assunto complexissimo.

A inclusão destes termos e expressões não basta, porém, para dar conta da opção ideológica pelas formas de manifestar-se dos pobres. Com esta opção, para além da beleza, originalidade ou simplicidade que estas possam encerrar - para não falar de sua religiosidade - queremos ir ao encontro do espírito e significado de suas buscas.

São de fundamental importância os verbetes sobre a história do cristianismo no Brasil, a organização dos leigos e da igreja oficial, o padroado e a romanização, as CEBs e pentecostalismo. São lembrados beatos, almas santas e profetas, recolhimentos e santuários, irmandades e movimentos messiânicos.

Este Abecedário não tem a pretensão de ser neutro. E de raiz católica - literalmente universal - quando procura evitar preconceitos. Não falamos de superstições ou crenças, mas na fé do povo. Basta de discriminação e ridicularização. Na nossa Igreja, hoje, o problema não será tanto a doutrina e o dogma, mas o uso do poder e a efetiva participação do povo de Deus.

Ao trazer os mais variados pontos-de-vista sobre a religião e a vida da sociedade brasileira, esperamos contribuir para o acerto da caminhada da Igreja que amamos. No ano de 1992, os bispos da América Latina reafirmaram, em Santo Domingo, sua opção preferencial e bíblica pelos pobres e defenderam a inculturação do Evangelho nas mais diversas culturas. Achamos que, sem conhecer e valorizar o sistema das culturas, dos comportamentos e das formas de fé que constituem a religiosidade popular, não será possível imaginar esta inculturação.

Aqui mostramos fatos, tentamos contribuir para o conhecimento da história dos pobres. Faz parte da obra uma cronologia que inclui datas importantes para o entendimento da religião do povo. Afinal, os pobres são os novos sujeitos da História.

Não tem sentido falar em religião sem que haja um Deus vivo presente na nossa vida.

A experiência religiosa na vida do pobre constitui o fio de ouro deste Abecedário.

 

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