Índice

Cadê a mãe deste anjinho.
O anjo é inocente.
O enterro é alegre.
O anjo de mão em mão.
A louvação.
Saudade sem choro.
O Recado pelo anjo.

A despedida.

O enterro.

A mortalidade infantil.

 

   

CADÊ  A  MÃE  DESTE  ANJINHO

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    O anjinho e a anjinha são a criança falecida com menos de sete anos. Dizem: O anjinho voou para o céu. Os cantos para o enterro de anjinho são chamados "louvor de anjo". Outros dizem "lângue". Alguns dos entrevistados falam em "incelência de anjo". O assunto não é freqüente nos livros de folclore e antropologia. Nossa pesquisa abrange o Vale do Jequitinhonha(MG), onde registramos 63 cantos para enterro de criança. Também no Nordeste, em Pernambuco, Paraíba e Ceará, gravamos uma meia dúzia de cantos próprios para enterro de anjo. No presente artigo apresentamos uma parte do material.

    Luiz da Câmara Cascudo dá notícia do costume argentino(1943) de se fazer uma festa para o enterro de um ‘angelito’ quando todos dançam e cantam ao som de tambores, violões e rebecas. Acreditam que se assim não fizessem, os anjos não cantariam para receber a criança no céu. Pois aqui vamos tratar do enterro alegre das crianças no Brasil. Embora estejamos fazendo o registro de uma coisa que hoje está em franco desaparecimento. O louvor de anjo e sua alegria tem a ver com a triste mortalidade infantil que continua alta nas áreas rurais excluídas das infraestruturas oficiais da saúde e da educação. Trata-se de um fragmento da vida e da religião dos pobres, que mantém nestas rezas um rito de passagem com relação à morte de grande riqueza cultural e devocional. No louvor de anjo fica evidente a fé popular na ressurreição.

O ANJO É INOCENTE

    Nos depoimentos e nos cantos, constatamos logo a diferença entre o enterro do adulto e da criança. No primeiro, tudo é mais sério e no canto das excelências não há instrumentos musicais, pois o adulto é considerado pecador. Já no enterro do anjinho há alegria e dança, pois a criança é inocente. Tocam tambor, viola e sanfona.

    Guerra Peixe realizou importantes pesquisas sobre os enterros no Agreste e no sertão de Pernambuco, principalmente em Caruaru. Também ele observa que algumas pessoas acham que reza de defunto é cantada apenas para pecador ou pecadora, isto é, pessoa que ao morrer já tinha mais de sete anos. Portanto, para os anjinhos, batizados ou não, não se canta. Outros afirmam ainda que se canta, sim, para anjo, mas de maneira diferente. No Nordeste, pinta-se o rostinho do anjo de encarnado, com papel de seda, crepom ou mesmo, mais recentemente, batom.

    É interessante que a criança viva já é tratada como ‘anjo’. A inocência da criança(Sl.8,2) a faz ser preferida em algumas funções religiosas: são anjo na procissão do Santíssimo, na festa do Divino, na Coroação de Nossa Senhora. Sempre teve os meninos coroinhas. Pela sua inocência, lhes foi permitido ficar perto do Sagrado. Há uma crença forte no valor da oração da criança em algumas doenças e na confecção de breves. Em tempo de seca, é costume em vários lugares levar uma criança inocente para jogar água ao pé do cruzeiro para que chova. A religiosidade popular é historicamente sensível às crianças que morreram sofrendo: o Menino da Tábua, a Odetinha, a Menina sem nome e muitas outras.

    Depois de morrer, a criança continua anjo. O verso de um bendito/romance consola a mãe:

 

Mamãe não chores por mim.Por mim não deves chorar.

Quem bota um anjo pro céu, não tem mais que desejar.

(Cabo.PE. 1972) p_dsn002.jpg

 

O ENTERRO É ALEGRE

    O autor deste artigo nunca teve a ‘sorte’ de presenciar pessoalmente aos rituais festivos do enterro de um anjinho. Contudo, registrou alguns depoimentos por pessoas do Vale do Jequitinhonha(MG).

    A criança morta é velada em um caixãozinho enfeitado com flores dos pés à cabeça. As roupas de uma anjinha e o forro do seu caixão são cor de rosa e branco. Roupa e forro para o anjinho são azul e branco. Filomena Vieira Lima, de Almenara(MG), diz: "Colocava a criança na varanda. Quem não tivesse uma casinha melhor, tinha de procurar uma casa melhor pra colocar, por causa de chuva. Porque sabia que ia passar a noite acordada, né. Só rezando, aquelas coisinhas boas. Nessa época morria, mais era assim encostados nos filhos. Eles ficavam ali presentes."(1976) Portanto, os irmãozinhos do anjo e as crianças vizinhas participam de tudo. Durante a vigília, os parentes e amigos cantam o louvor do anjo e dançam ao som de caixa, pandeiro, viola e o garfo raspado na beira dum prato.

 

    Os cantos são alegres:

 

Cadê a mãe deste anjinho? Saia fora na varanda, venha ver como está.

Como está tão bonitinho, ô retratado lá no céu.

Cadê o pai deste anjinho, etc.(irmão, tio, tia,  outros familiares)

(Araçuaí.MG. 1970)

 

Este anjinho vai pro céu, eu também vou(2x).

Guarda lá um cantinho pra quando eu for(2x).

(Araçuaí.MG. 1973)

 

Meu anjo de asa, meu são Serafim,

Você vai pro céu, meu anjo, num galho de alecrim.

(Almenara e Jordânia.MG. 1973)

 

Avoou uma andorinha. Lá no ar ela disse assim:

Lá no céu hoje vai ter festa, na chegada deste anjinho.

Avoou duas andorinha, etc. (até sete andorinhas)

(Araçuaí.MG. 1971)

 

O anjinho pede a bênção:

 

Que menino malcriado, que não dá bênção ninguém

Bença , papai? Deus te abençoa meu fi(-lho)

Bença, mãe? Deus te abençoa, meu fi.

Bençoado seja Deus, daraí, daraô.(2x)

Bença, vovó, bença vovô... - Bença titio, bença titia ...

Bença padrinho, bença madrinha ...

 

Alguns cantos falam de tudo que o anjo leva: véu, coroa, caixão, a roupa, as flores:

 

Este anjo é meu, eu num dou ninguém.

Quem tiver inveja, manda o seu também.

Estas flor é minha, eu num dou ninguém

Quem tiver inveja manda o seu também.

Este caixãozinho é meu, eu num dou ninguém

Quem tiver inveja, manda o seu também.

(Araçuaí.MG. 1979)

 

A camisa deste anjo não se lavai - vai

Não se lavai - vai. Não se lava com sabão.

Só se lava com água de cheiro, galho de alecrim

galho de alecrim, galho de alecrim do chão.

(Almenara.MG e Jordânia.MG. 1973)

 

Uma toalha de renda, toda enfeitada de fita

Põe a toalha no chão tico-tico. Põe com a perna asa e bico.

(Araçuaí.MG. 1974)

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A rolinha tá deitadinha, lá dentro do seu ninhozinho

Na galhinha do alecrim.

Bateu asa e foi dizendo: ha hai papa-ceia(=Vênus)

(Araçuaí.MG. 1972)

 

        Na hora de tomar um golinho de pinga, os parentes vão num quarto pra serem chamados um por um:

O pai do anjo saia fora, venha ver(2x)

O caixão não tampa sem a tampa, nem eu canto sem beber.

A mãe do anjo saia fora, etc(irmão do anjo, tio do anjo e toda a família)

(Almenara.MG. 1973)

 

    No entanto, a Manoelina Souza Santos, de Itinga(MG), coloca um porém quanto à bebida: "O anjo não faz nada errado, por que é pessoa justa, e o pecador ninguém sabe para onde vai. O anjo não gosta de bebedeira, de anarquia. Ele gosta só das coisas de Deus." E vem com um canto:

 

Esse anjo veio do mar, veio sentado na cadeira.

Trouxe muita coisa boa, mas não trouxe bebedeira.

Este anjo não caduca, não manduca e nem tem nada.

E quem trabalha na soberba, não sai nada.

(Araçuaí.MG. 1975)

 

O ANJO DE MÃO EM MÃO

    Em certos momentos, o louvor de anjo pode ser cantado e dançado como uma roda de batuque, enquanto passam de mão em mão o caixãozinho com a criança falecida. Blandina Silva Souza explica: "Eles botavam o anjinho na mesa, as mulheres vestia aquelas roupas e pegavam o anjo e saia batucando e jogava pra outra, aquela batucava e jogava pra outra e assim por diante. No dia que morria um anjo fazia era festa. Diziam que o anjinho era pequeno e não ia sofrer. Se ele ficasse, às vezes ia ter um sofrimento maior: ser ladrão, um malfazejo. E por isso as mães não importava, tava era batucando pra lá. O batuque era assim:

 

Quem te deu a palma(coroa, flor, roupa, sapato, caixão), meu anjo?

pra vender na feira meu anjo.

Quando seu pai(sua mãe, irmão, tia, padrinho) chegar, meu anjo,

ele vai bater croá, meu anjo.

(Araçuaí.MG. 1979 e Pedra Azul.MG. 1940)

 

    Em Itinga(MG), 1972, e em Araçuaí(MG), 1985, registramos:

Seu José(seu Oscar, Sá Maria), toma este anjo procê

Toma, sou eu que lhe dou. Ele veste camisa engomada,

bebe água do mar e um galho de fulô.

Eu fiquei rio arriba, desci rio abaixo,

pegando piabinha e bebendo água.

 

    Sem ter certeza, registramos mais um louvor de anjo que serviria para ser cantado numa roda:

O galo(dois galo, até 12 galo) cantou sem demora

Quem tiver seu anjo, manda embora.

Esse anjo é meu, esse anjo é seu.

Quem tiver com inveja, que mande o seu.

(Araçuaí.MG. 1978)

 

A LOUVAÇÃO

    Um louvor de anjo diz:

Há de estar com frança e de ser folião

para louvar este anjo, lianaê.

    E chama os parentes:

O pai do anjo saia fora do salão.(2x)

E refr.: Há de estar com frança etc

Continua: A mãe do anjo saia fora do salão.(2x)

E refr.: Há de estar com frança, etc.

    E continua chamando um por um os irmãos, o tio, a tia, os avós, os padrinhos, todo mundo.(Araçuaí.MG)

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    Outro langue diz:

Ô minha mãe eu quero água. É no caroço do juá.

Eu estou aqui, é pra ti louvar. Ô minha mãe, eu quero água.

O carro não anda sem o boi, e eu não canto sem beber.

(Araçuaí.MG. 1985)

 

   Aqui fica claro que o langue do anjinho pertence aos cantos de louvação. Na religiosidade popular, louva-se a bandeira na festa do Rosário ou de São João:

Ô gente, ô gente, o que 'tá fazendo?

Nós 'tá dando louvor a São João. -

 

    Diz um batuquinho em louvor ao Menino-Deus:

Dão, dão, dão doê,

vamos dar louvor ao Senhor Menino.

 

    Tem a vênia dançada para um padroeiro festejado. A folia dos Santos Reis canta alguns versos para louvar os devotos. Há outras loas para louvar e agradecer a quem deu comida ou uma esmola. Originalmente, também as excelências cantadas para os pecadores falecidos são cantos de louvação. No séc.XVIII, em Portugal, encontramos excelências para louvar doze vezes, por ex., a Coroa de Nossa Senhora.

SAUDADE SEM CHORO

    Mas voltemos ao louvor de anjo. Alguns langues pedem para não chorar:

Minha mãe, você não chora, Não chora por mim agora.

Ocê fica, minha mãe, ocê fica, Eu vou me embora prá glória.

 

Meu pai, você num chora Num chora por mim agora.

Ocê fica, meu pai, ocê fica. Eu vou me embora prá glória.

(Araçuaí.MG, 1978)

 

    Outro canto:

O pai do anjo (mãe do anjo, irmão do anjo, tio do anjo, vó do anjo, etc).

Ele já morreu, lêlê, ele já morreu, lálá,

Ele já morreu, ele não chora não, lêlê. Não chora não, lálá.

Ele já morreu, ele vai pro céu, lêlê. Ele vai pro céu, lálá.

(Almenara.MG. 1976)

 

    As mulheres que cantaram para nós explicaram que, enquanto tiver parentes, vão chamando, um por um.

 

    Uma variação diz:

Ó minha mãe(pai, irmão, etc), ocê não chora, e nem de mim terá saudade

Ocê chora para os que fica; Que eu de mim não dou trabalho.

(Araçuaí.MG.1979)

 

    Embora não haja choro, alguns cantos expressam a saudade:

O anjinho ‘tá na janela, o anjinho ‘tá na janela.

‘Tá olhando o que passa, tá’olhando o que passa.

Na barretina vermelha, na barretina vermelha,

olhe a saudade na praça, olhe a saudade na praça.

(Araçuaí.MG)

 

    Outros louvores de anjo dizem:

Chora, chora, chora, saracura,

tanta gente no trabalho, o anjinho na formosura.

(Araçuaí.MG)

 

Uma(duas, três, até doze) pastorinha, Ela reza minha vontade

Esse anjo num dorme mais, Estou morrendo de saudade.

Trá lali, tratra, trali, tratra.(2x)

(Almenara.MG, 1976)

 

    Mesmo assim, alguns cantos falam em chorar:

Ô minha ema, ô minha ema, o que ocê veio fazer cá?

A ema deu um suspiro, o pai do anjo pegou chorar.

Ô minha ema, ô minha ema, o que ocê veio fazer cá?

A ema deu dois suspiro, a mãe do anjo pegou chorar.

(Almenara.MG. 1977.)

Este vai até doze suspiros, passando pelos diversos parentes.

O RECADO PELO ANJO

    O anjo de verdade é um mensageiro de Deus e curiosamente existem casos em que aproveitam o enterro de anjo-criança para mandar um recado para Deus. Por ex., em Oliveira dos Brejinhos(BA), médio São Francisco, quando morria uma criança em tempo de seca, o povo jogava moedas no caixão para o anjinho comprar chuva quando chegasse no céu.

    Mas nem todo mundo concorda com esse costume. Conta uma história registrada em Araçuaí(MG):

- Uma criança morreu em época de seca e o pai colocou cinquenta mil-réis na mão do anjinho para pedir chuva a Deus. No mesmo dia, deu tanta chuva que o riacho transbordou e estragou muita plantação. Os relâmpagos deixaram o povo apavorado. O pai então falou: Não precisamos de tanta chuva não, meu filho! Veio do céu uma voz: Até agora só mandei vinte mil-réis; o resto vem ainda! Foi um castigo. Porque a chuva ninguém compra; é Deus quem dá.

A DESPEDIDA

    No amanhecer do dia, aparecem os cantos de despedida:

Vai chamar seu pai, vai chamar sua mãe.

Venha ver seu filho que ele vai se embora

que lá vai pela glória de nosso Senhor.

(Araçuaí.MG. 1977)

 

Adeus, pai do anjo, adeus, até o dia do juízo.

Nós havemos de encontrar, na porta do Paraíso.

Refr: Ocê fica, meu pai, ocê fica, que eu vou me embora pra glória.

Adeus, mãe do anjo, adeus. etc.(irmão, tio, tia, vó, padrinho)

(Almenara.MG. 1978)

 

Despede de seu pai que ocê não vê ele mais

Leva pena e deixa saudade, Maria, adeus, Maria Adeus.

(Almenara.MG. 1978)

    Este último é cantado também para pecador, isto é, para os adultos.

 

Toma bênção de teus pais, que tu já vai embora

Quem vai, vai alegre. Quem fica, consola.

Meu anjo, cê vai pro céu, Vai pros pé de Deus, nosso Senhor.

Lá no céu é muito bonito. Lá tem coroas de flor.

Meu anjinho você vai pro céu, Vai pros pés de Deus, nosso Senhor.

Roga a Deus pro povo todo, e pros seus pais que te criou.

(Araçuaí.MG. 1973)

O ENTERRO

    Pessoalmente já benzi muitas vezes crianças falecidas em Araçuaí(MG). Morriam de desidratação ou do mal-de-sete-dias, isto é, o tétano umbilical. As crianças vizinhas, com flores na mão, levam o caixãozinho para a igreja. Dizem que faz mal os pais acompanhar o enterro. Por isso, apenas uma senhora amiga acompanha o cortejo até o cemitério. Na saída para o cemitério é tocado o sino menor. Não é costume pedir missa de sétimo dia para o anjo. Dizem que toda criança que morre, tem que passar no purgatório para vomitar o leite da mãe por causa do pecado. A criança, que não for batizada, chora na sepultura e põe a mãozinha por cima da sepultura pedindo o batismo.

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A MORTALIDADE INFANTIL

    É claro que um trabalho como este acende em nós uma preocupação social. Segundo o relatório "Situação Mundial da Infância-1991" da Unicef: morreram no Brasil em 1990 cerca de 365 mil crianças numa média de mil por dia, número proporcionalmente maior do que em países asiáticos como Malásia e Sri Lanka que possuem renda per capita quatro vezes menor que a brasileira. Segundo outros dados da Unicef(1996), o índice de mortalidade infantil no Brasil permanece em mais de 50 mortes por mil nascidos vivos. No País morrem duas crianças a cada três minutos. Causa principal: subnutrição.

    O Vale do Jequitinhonha(MG), onde registramos a maioria dos louvor de anjo, continua sendo uma das regiões mais subdesenvolvidas do nosso País. Sua situação é semelhante ao do Nordeste. No Estado de Alagoas a taxa de mortalidade infantil é de 130 mortes por cada mil nascimentos nos cinco primeiros anos de idade. Os Estados de Piauí, Sergipe e Pernambuco, juntamente com o nordeste de Minas Gerais, tem as taxas mais altas do País.

    E por falar em crianças, milhões de crianças abandonadas na rua mostram que o futuro da Nação está em perigo. Esta situação desastrosa é fruto de incompetência administrativa, falta de recursos e falta de opção pelas causas sociais.

    Para terminar, uma notícia mais alentadora: Desde 1987, a Pastoral da Criança, órgão da CNBB, conseguiu diminuir significativamente as taxas da mortalidade infantil no País.

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