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IRREVERÊNCIA, RISO E HUMOR |
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dinamismo
da religiosidade popular |

(Palhaços da Folia de Reis, Jequitibá-MG, 2001)
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Entendendo
a cultura como elemento de transformação, torna-se importante destacar a
irreverência, o riso, como base dos sonhos, desejos e utopias, e seu valor de
luta ideológica e política. Sempre
existiu um preconceito em relação às pessoas irreverentes. Considerando a
religião ‘praticante’ dos fiéis formados pela Igreja tradicional, onde
seriedade é sinal de santidade e honestidade, e descontração e alegria é
sinal de irresponsabilidade, podemos avaliar o quanto nosso povo pobre e
religioso tem sofrido pela falta de sensibilidade dos chefes religiosos que
tentam ensinar com ‘seriedade’ e moralismo aquilo que já é religiosamente
vivenciado nas alegrias e festas das comunidades. Mas,
o autoritarismo de quem detém o poder, encontra resposta no humor popular
presente no carnaval, no teatro popular e, antigamente, nos autos e no bobo da
corte. Outras armas usadas são a caricatura, a paródia e a piada. Humor na Religiosidade PopularCom
humor, o povo reune carnaval e o ritual de quarta-feira de cinzas, o canto das
pastorinhas e as piadas apimentadas do Velho,
a adoração do menino Jesus pela folia e a dança dos palhaços, a Páscoa e o
Testamento de Judas, o terço cantado de São João e o casamento da roça, a
domingada e o baile, a festa do rosário e as brincadeiras dos tamborzeiros, um
enterro e piadas, a novena e o leilão. Muito humor encontramos nos autos
populares, por ex.: no bumba-meu-boi. Ao
moralismo oficial, os versos populares respondem com humor: Dizem que o beijo
é/ um pecado horroroso./ Oh meu Deus porque fizeste/ um pecado tão gostoso.// Paródias
relativizam o valor das orações: Te
benzo e te curo/ com bosta de burro./ Te benzo e te saro/ com bosta de cavalo.//
[1]
(Palhaço da Folia de Reis, em São Joaquim de Bicas-MG, 2002) Irreverência na Idade MédiaO
folclorista português Pe.Firmino A.Martins lembra que na Idade Média,
especialmente na França, existiram as “festas dos loucos”. Participavam
“sacerdotes” montados em jumentos, levando ao centro o Balaão(Num.22,
22-35). Após a eleição do bispo dos loucos, entravam nos templos onde
mascarados fingiam celebrar o ofício divino. Desde 1212, vários concílios
proibem estas festas.[2] Paulo
Cézar Loureiro Botas analisa esta questão: "Quando a cidade medieval
realizava a sua festa da colheita, era porque o excedente era repartido entre
todos que trabalharam na sua realização. Quando nas cidades pré-capitalistas
se iniciou o processo de acumulação, o excedente não era mais repartido em
festas mas servia como mercadoria para o negócio entre as cidades. E ‘negócio’
vem de ‘negação do ócio’. Negar a festa é reprimir a crítica social
porque é através dela que todos os poderes são colocados na sua verdadeira
dimensão de dominação. Na
festa medieval, a crítica política, social e religiosa era feita publicamente
através de farsas e pantomimas, no uso de máscaras e disfarces que
caricaturavam o poder local. No séc.XV, um teatro mascarado chamado “A Festa
do Asno” ridicularizava o clero e só a repetida condenação dos concílios
conseguiu suprimi-lo.” (Palhaço deFolia da Reis, em São Joaquim de Bicas-MG, 2002) Nada contêm o humor popularPaulo
Cezar continua: “Não há nada mais destruidor da ‘seriedade’ do poder do
que a crítica irreverente e festiva. Não é a toa que as ditaduras militares
proíbem sempre os teatros, as músicas, as danças e os disfarces de carnaval
que ‘desrespeitem’ a moral, a família, a religião, o Estado e o poder
militar. E por falar em irreverência, os artesanatos estão plenos de fradinhos
que escondem o seu órgão sexual avantajado debaixo das batinas, noivinhas que
trazem bebês na barriga, quepes militares transformados em pinicos. Nada pode
conter a irreverência popular como forma mais perfeita de resistência ao poder
e à repressão. Nada pode conter o humor popular quando as ‘pessoas sérias’
tentam lhes mostrar um mundo ‘sério’, bem construído e sem possibilidade
de sonhos. O
pensamento ortodoxo é o pensamento ‘sério’ em nome do qual todas as
atrocidades são cometidas. O revolucionário que é incapaz de rir do seu
fracasso na conquista de concretizar as suas utopias será o futuro ditador que
massacrará o direito que as pessoas tem à irreverência e a sonhar seus
desejos. A cultura de resistência, feita de riso e desejos, é diretamente
proporcional à cultura da opressão feita de escárnio e sarcasmos."[3] O
humor é coisa difícil de ser entendida por pessoas autoritárias e inseguras.
No entanto, ele é necessário para viver, sobretudo nas horas de grande
sofrimento, como doença e pobreza. Com humor se enfrentam os horrores da vida e
a ironia da história. Com humor, o cemitério é chamado de chácara do vigário. O riso, que é expressão do prazer, da satisfação, da alegria, do amor, também pode ser uma forma de superar medo e sofrimento. Observem a expressão: O que dá pra rir, dá pra chorar.
(Palhaço
de Folia de Reis, em São Joaquim de Bicas-MG, 2002) O riso e o humor na religiãoO
céu é o reinado do riso. Isto nos asseguram o poeta italiano Alighiere
Dante(1265-1321), na Divina Comédia, e o poeta nordestino Rodolfo
Cavalcante(1959). O último, no folheto “A chegada de
Lampião no Céu”, faz Jesus dizer: Seus
pecados são tantos/ que nada posso fazer/ Alma desta natureza/ aqui não pode
viver/ Pois dentro do paraíso/ é o reinado do riso/ onde só existe prazer.// O
riso de Cristo para a teologia tradicional é um problema. Mas para o povo é
diferente. Em Alagoinhas(BA), pastorinhas cantam na marcha da retirada: Vamos
às nossas moradas/ cheias de santa alegria/ porque para nós sorriu-se/ Jesus
Filho de Maria.//[4]
Também na cruz, Jesus riu.
Isto constatamos no folheto de cordel “História de Dimas, o bom ladrão”
de João Martins de Athayde. Aqui resumimos a parte final: Depois
de vingar a morte de seu pai, Dimas retirou-se para as montanhas e juntou-se a
Abdon e seus quatorze ladrões numa fortaleza. Depois da morte de Abdon, Dimas
virou o chefe dos ladrões. Ele mandava respeitar os velhos e enterrar os
mortos. Num mesmo dia passaram por lá os soldados de Herodes e a Sagrada Família.
Dimas respeitou a Maria e Jesus pelas barbas brancas de São José e serviu-lhes
uma refeição. Depois de os ter servido/
com todo zelo e carinho/ olhou para ela(Maria) e disse: / Dá-me o teu
pequenininho/ para que eu dê um beijo/ nas façes do teu filhinho!// (...) A
terna Virgem chorava/ vendo tanta piedade/ naquele homem perdido/ pelo crime e a
maldade/ pensava no seu filhinho/ tanta ternura e bondade!// Dimas continua
ladrão mas despediu-se emocionado: Oh!
menino formosíssimo/ entre toda geração!/ Se eu precisar algum dia/ ter a
vossa proteção/ por vossa misericórdia/ tende de mim compaixão!// (...)
Trinta e três anos depois/ Jesus foi crucificado/ justamente o Bom Ladrão/ foi
preso e sentenciado/ para morrer mais Jesus/ já estava profetizado.// (...)
Estava chegado o tempo/ profetizado e preciso/ de Jesus recompensá-lo/ e cheio
de graça e riso/ respondeu: hoje entrarás/ comigo no Paraíso.// (Palhaço de Folia de Reis, em São Joaquim de Bicas-MG, 2002) A
teologia do palhaço
O
teólogo inglês Harvey Cox, num esboço de uma teologia do palhaço, cita São
Paulo: “O que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens”(1Cor 1,25)
e apresenta um Jesus palhaço: a personificação da festa e da fantasia, num
tempo em que estão perdidas ambas. Lembra que os primeiros cristãos
consideravam-se “loucos por causa do Reino de Deus”. O
pintor francês Georges Rouault(1871-1958) pintou um Jesus palhaço
explicitamente. Em 1966, um Jesus palhaço do filme protestante
“A Parábola”(The Parable) chocou os visitantes da exposição
Mundial de Nova Yorque. Com
o riso de Jesus, devolve-se à liturgia o aspecto lúdico. Na obra “Homo
Ludens”, o historiador Huizinga fala da proximidade entre religião e jogo. O
liturgista Romano Guardini, no seu livro “O Espírito da Liturgia”(1930)
escreveu um capítulo intitulado ‘A liturgia como jogo’. O cômico está
enraizado na fé. Num bendito popular ouvimos: Fui no céu jogar com Deus/ na
mesa da comunhão/ Deus ganhou a minha alma/ e eu ganhei a salvação.// O
ensaista inglês Gilbert Keith Chesterton(1874-1936) chama a São Francisco de
Assis de “Jongleur de Dieu”(jogral de Deus). Disse que o santo e seus
companheiros espirituais praticavam a ‘ciência alegre’ do amor à dama
pobreza. Eram irmãos menores na prática da verdadeira liberdade. Segundo
Chesterton, “São Francisco, bobo real do Rei do Paraíso, engolfava-se na
pobreza com a mesma avidez de um homem que cavasse ouro”.[5]
Devéras
admirável foi a sociedade medieval que foi capaz de criar ao lado do rei, a
figura do bôbo da corte; colocaram assim um fator crítico ao lado de quem tem
todo poder. Harvey
Cox ainda constata a volta do palhaço na cultura moderna, nos filmes de Charlie
Chaplin aos de Frederico Fellini,
na música do bailado Petrouchka de Igor Stravinski(1882-1971), na obra de
Picasso(1881-1973). (Palhaços
de Folia de Reis, em São Joaquim de Bicas-MG, 2002) Por fimSegundo
o teólogo Hugo Rahner, “embora pareça uma heresia, o sentido do humor
encontra-se na força da instituição religiosa; porque a ação do humor
consiste em mostrar o tanto que as coisas terrestres e humanas ficam a quém das
medidas de Deus.”[6]
Conclusão
de Harvey Cox: “O Cristo palhaço nos leva a uma valorização lúdica do
passado e a uma negação cômica do fantasma de um futuro sem saída.”[7] Frei
Francisco van der Poel ofm e-mail:
freixico@uai.com.br [1] Registrado em Ribeirão
Preto.SP. 1994.
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