GLOBALIZAÇÃO !?

Processo de integração internacional econômica e cultural de vastas implicações e conseqüências no campo social, político e religioso.

A própria história do Brasil só pode ser bem entendida se levarmos em conta todos os povos, economias e culturas das Américas, da Europa, da África e da Ásia que se encontraram no solo brasileiro, com claras vantagens para os que detinham o controle do processo. Nos últimos decênios a internacionalização das relações entre países e blocos de poder tomou proporções mundiais. Por isso, comunicadores, economistas e sociólogos criaram o termo "globalização" para o fenômeno.

Com a integração global ficamos cientes que culturas, povos e continentes vivem num mundo interdependente. As opiniões sobre o significado disso variam de crítica radical à aceitação positiva.

A globalização favoreceu a convergência universal de valores, por ex.: na organização da nações unidas (ONU). A comunicação digital permite ao terceiro mundo um acesso imediato aos avanços tecnológicos do primeiro mundo. A destruição da floresta amazônica, a luta dos sem-terra e a matança de menores no Brasil alcançam uma repercussão mundial. Surgem novas possibilidades para a organização global dos movimentos sociais e de todos os movimentos que lutam por justiça e paz no mundo e pelo meio ambiente. Grupos étnicos marginalizados trocam experiências pela internet. O "Fórum Social Mundial" ganha grande importância.

Mas as vantagens estão fora do alcance de muitos. A globalização dos mercados atinge todos os povos. As previsões que isso traria um crescimento econômico maior ao planeta não se confirmaram. O estudo "Uma Globalização Justa" (ONU, 2004) conclui: o número de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia cresceu em todo o mundo. Aumenta o desemprego.

Diante da globalização da economia, os países tendem à formação de mercados regionais: o Mercosul, a ALCA, o Nafta, a Comunidade Comum Européia. Aos que entendem a globalização como o fim das barreiras comerciais entre os países e o triunfo da economia de mercado, cabe um alerta: a razão econômica não há de sobrepor-se aos direitos humanos e aos valores cristãos.

Perigos da globalização na sua forma atual: (1) O colonialismo e a velha "luta de classes" assumem novas formas no neoliberalismo. (2) Grandes potências praticam uma espécie de guerra 'justa', desrespeitam a ONU e sustentam uma política econômica interesseira. (3) A globalização pode acarretar uma uniformidade imposta pelos poderosos que, controlando os grandes meios de comunicação social, impõem comportamentos e doutrinas. Uniformizam sim, mas paradoxalmente não reduzem a desigualdade. Quem lutar por algo diferente parece perverso ou atrasado. (4) Grupos terroristas ameaçam e agem em qualquer lugar do mundo. (5) Migração em massa de cidadãos de nações subdesenvolvidas para países ricos em busca de emprego, segurança ou realização pessoal.

É sensível o impacto da globalização sobre as religiões mundiais. No Japão surgem novas igrejas cristãs independentes. Cresce o número de mesquitas construídas nos países europeus. Monges e mosteiros budistas encontram adeptos no Brasil. As instituições religiosas diminuem em importância e, ao mesmo tempo, vários grupos tendem ao fundamentalismo. Muita gente muda de religião, facilmente.

No plano cultural a globalização representa não um encontro livre das diferentes tradições culturais do mundo, mas a imposição de padrões de culturas de massa, sobretudo através da televisão e da internet. Por isso, os povos vêm reforçando a defesa das identidades nacionais. Uma pergunta pertinente: na integração global,onde fica a união na diversidade? No reino da utopia?

Na realidade, há países globalizantes e outros globalizados. Os primeiros mandam no processo, os outros são arrastados. Dom Pedro Casaldáliga afirma: "Globaliza-se a miséria, mas não o verdadeiro progresso. Os capitais circulam livremente, mas as pessoas não. Prioriza-se a competitividade, em vez da solidariedade". Frei Beto exemplifica: "Apenas quatro americanos têm fortuna superior a 600 milhões de pessoas. (...) A pobreza é crime hediondo contra a humanidade."

w Mais sobre o assunto: FURTADO, Celso. O Capitalismo Global. São Paulo, Paz e Terra, 1998.

1 - CASALDÁLIGA, Pedro. Dom. "O Grito das Américas". In: Firmando Pé. Ano XII. N.68/69. Out/02. p.20.
2 -
Palestra em Salvador (BA), 24/08/2004. In: Conferência dos Frades Menores do Brasil. O Lugar do Carisma Franciscano na Realidade da América Latina e Caribe: Atas da XVIII Assembléia da União das Conferências Latino-americanas dos Franciscanos. 2005. pp.71 e 75.