ESPINHELA CAÍDA

 

   

         

Também espinguela caída (BA). Para alguns, o mesmo que peito aberto (PE). 

Anotamos a explicação de três rezadeiras de Araçuaí (MG, 1978): Segundo a Fulosina Rodrigues, a espinhela é um ossinho mole que vem do coração. A espinhela caída é proveniente de peso que a pessoa pega. Sintomas: dor nas costas, no estômago e nas pernas e cansaço. Cura tomando a medida da pessoa e depois reza a oração. A medida é tomada da seguinte maneira: com uma linha de algodão mede do dedo anular até o cotovelo. Tomando este tamanho duas vezes passa o fio na cintura dá pessoa. Se passar ou faltar um palmo, a espinhela está caída.  Segundo a Luiza Teixeira Ramalho, a espinhela é um ossinho mole, parecendo um nervo. Está localizado no meio do peito, pouco acima da boca do estômago. Pegar muito peso faz a espinhela cair. Sintomas: dá cansaço e dor nas pernas. Cura na rezadeira, que trata primeiro o "vento caído" tomando a medida e rezando. Depois reza a oração própria de espinhela caída, colocando um objeto de ferro na mão da pessoa. Segundo a Marciana Gomes da Cruz, a espinhela é um ossinho mole que parece uma pazinha e está localizada acima da boca do estômago. Sintomas da espinhela caída: dor nas pernas, a boca do estômago fica inchado, que a pessoa não pode alimentar. Cansaço. A pessoa perde as forças e não pode se abaixar, porque sente dores. Dá mais em adultos. Vai para a rezadeira procurar a cura. Espinhela caída e arca caída é uma doença só.

Também na Bahia, para se saber se a espinhela está caída, tira-se a medida. Com um fio de algodão ou uma toalha, a rezadeira mede da ponta do dedinho à ponta do cotovelo. Depois de um ombro ao outro. Se coincidirem as medidas, a espinhela está normal. Se não, está caída.[1]

Em Itacoatira (AM), Sofia C.de Oliveira mede o tamanho do braço em posição vertical para depois tirar medida nos ombros (1997).

Em Portugal registramos: “A espinhela é um ossinho, como o rabo de uma lebre, na boca do estômago”.[2]

Diz uma benzeção registrada por Sílvio Romero (1851-1914): Espinhela caída,/ portas para o mar;/ Arcas, espinhelas,/ em teu lugar.// Assim como Cristo/ Senhor Nosso andou/ pelo mundo arcas,/ espinhelas levantou.//[3]

Em Goiânia (GO) rezam: Estava São Pedro deitado na sua capela com espinhela caída. Nosso Senhor passou girando seu mundo dele, encontrou São Pedro e perguntou: - Que tem Pedro? - Espinhela caída, Senhor. - Com que eu benzo, Pedro? - Água da fonte, raminho do monte. - Isso mesmo, Pedro, com isso eu curo. A minha caridade é vossa. Aqui estão as três pessoas da Santíssima Trindade. Aqui está a caridade e a virtude, este filho da Virgem Maria, fulano, há de ir melhorando de hora em hora, de minuto em minuto, de dia em dia. Benzer com 3 ramos de fedegoso e fazer a dieta de não comer nada de difícil digestão.[4]

Em Cariranha (BA), Conceição Nicácio diz: Jesus Cristo nasceu,/ espinguela caiu,/ Jesus Cristo levantou, espinguela emborcou,/ Jesus Cristo ressuscitou,/ espinguela de fulano consertou.// (3x)[5] 

Em Soure, na Ilha do Marajó (PA), encontramos a oração: Jesus, quando andou no mundo, levantou arca, espinhela e campainha-caída. Levantai a minha, Senhor. (Inf.: Maria América dos Santos, 1998) v. Barca.

No Ceará, Eduardo Campos registrou: Espinhela caída, ventre derrubado,/ eu te ergo, eu te curo, eu te saro,/ Em nome do Padre, do Filho e do Espírito Santo,/ da espinhela caída estás curado.//[6]

Em Bocaiúva (MG), Geralda Preta reza: Barquinho de Santa Maria/ tá no mundo sem parar/ levantando a sua espinhela/ as suas arcas/ Põe tudo em seu lugar/ sua espinhela/ suas arcas/ a seus ventos.//[7]

Em Araçuaí (MG, 1975), Luiza Teixeira Ramalho reza:  Com o poder de Deus Pai,/ Deus Filho e Deus Espírito Santo./ Deus veio ao mundo,/ três coisas ele curou:/ a arca, o vento e a espinhela caída./ Com o poder de Deus Pai, Deus Filho,/ Deus Espírito Santo,/ Jesus Cristo se alevantou.// Luiza diz as palavras na frente e nas costas da pessoa. O doente segura um ferro ou uma chave na mão durante a reza. Por fim, reza um pai-nosso e três ave-marias e oferece a Nossa Senhora da Arca. v. Ressurreição.  Na entrevista com a Luiza perguntei: A senhora manda a pessoa segurar uma chave ou um ferro qualquer. Por que isso? Ela respondeu: Porque não precisa aqueles dias ficar sem pegar peso. Tem que segurar! Assim não tem dieta de repouso. E se não segurar o ferro? Não tá certo, porque com pouco torna cair a espinhela, ou o vento (ventre), ou a arca. Maldosamente pergunto: É o ferro que sara a pessoa? Ela responde: É Deus que sara, mas a gente tem que fazer como é!

Em Pitangui (MG), a benzedeira amarra uma toalha na altura do tórax e levanta o paciente três vezes, dizendo: Barquinha de Nossa Senhora/ que navega pelo mar/ Arca e espinhela caída/ que caia em seu lugar.// (Inf.: Maria Aparecida dos Santos. Pitangui. MG, 1972).

Segundo a rezadeira Jacomina, de Ribeirão Preto (SP), a espinhela caída tampa a boca do estômago e o doente não pode comer até que a espinhela volta. Para levantá-la, ela usa uma ventosa.  Já a dona Ilda F.Zebral, em Conselheiro Lafaiete (MG, 2001), tira a medida e manda a pessoa beber chá de levante três vezes ao dia, durante três dias.

 

[1] Cf.: SOUZA, José Evangelista de. Pe. C.M. Raízes e Histórias. Vol.I. Petrópolis, Vozes, 1989. p.57.

[2] PIRES, A.Thomaz. Tradições Populares Transtaganas. Elvas, Tipogr.Moderna de Manuel T.Vera, 1927. p.18.

[3] Apud: CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do Folclore Brasileiro. (3a.Ed.) São Paulo, Livr.Martins Ed., 1971. pp.287-288.

[4] LACERDA, Regina. Vila Boa - História e Folclore. Goiânia, Oriente, 1977. p.174.

[5] SOUZA, José Evangelista de. Pe. C.M. Raízes e Histórias. Vol.I. Petrópolis, Vozes, 1989. p.62.

[6] Apud: SERAINE, Florival. Folclore Brasileiro: Ceará. Rio de Janeiro, MEC/ Campanha de Defesa  do Folclore Brasileiro, 1978. p.47.

[7] AZEVEDO, Téo. Plantas Medicinais e Benzeduras. São Paulo, Top-Livros Ltda., 1981. p.22.