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ÁGUA PURA É CULTURA |
"o significado da água na religiosidade popular"
| Frei Francisco van der Poel ofm |
Abertura Numa rápida coleta de costumes e textos ligados à água na vida do povo, a quantidade e a qualidade do material encontrado nos surpreendem. Fomos obrigados a fazer uma seleção. A tentativa de imaginar o que podemos fazer com tudo isso na teologia ou na liturgia, nos leva a uma reflexão sobre a inculturação. De um lado, descobrimos a riqueza e a beleza da religião do povo, do outro lado, percebemos que a cultura e a religiosidade oficial são muito diferentes. A água não pode faltar Quando falta a chuva, quando os córregos estão secos, o povo de Araçuaí (MG) faz procissão de penitência, na cidade e nas comunidades rurais. Cantam: Meu Pai, meu Senhor,/ de nós tenha dó/ que a seca está grande/ já está tudo em pó.//
Já
está tudo em pó/ perdoai, Senhor,/
o
que será de nós/ sem vosso favor.//
Sem
vosso favor/ morremos de fome/ Na casa dos pobres,/ já não se come.// Em Bom Jesus da Lapa (BA) registramos:
Bom
Jesus, a vossos pés/ a tristeza nos conduz./ pelas vossas cinco chagas/ dai-nos chuva, Bom Jesus.// Em Minas Novas (MG), todos os santos são invocados numa espécie de ladainha:
Minha
Santa Catarina,/ ela é do altar do céu,/
dai-me
uma gota d’água/ pelo amor de Deus.// São Sebastião,/ ele é do altar do céu,/
dai-me
uma gota d’água/ pelo amor de Deus.// Na mesma cidade, ouvimos:
Eu
vi o sol tremer/ a lua balancear/ alevanta sua bandeira, meu Jesus,/ deixa a chuva derramar.// Água limpaÁgua há de ser limpa, para aliviar nossa sede, para limpar nossas casas, e até para virar símbolo e ser usado e rituais.Diz a expressão popular: Não é bom cuspir na água, pois nela fomos batizados.Segundo o engenheiro e poeta Anibal Oliveira Freire (1998), "água pura é cultura".Nas periferias, a qualidade da água de beber pode ser péssima. Em Itabuna (BA), o trovador apóstolo Minelvino Francisco da Silva baiano critica o serviço público no “Baião da Falta d’água”:
Ai
dona EMBASA precisa muito cuidar 'água do jegue' não deixe tornar voltar. A água é um dos quatro elementos que compõe o universo. Sem a água não há vida. Diz um samba corrido, tradicional na Bahia:
Ôi...Meu
Santo Antônio, eu quero água.
Água
de beber, água de lavar.
Meu
Santo Antônio, eu quero água. Meu Deus, eu quero água.//[1] A água tem grande força simbólica. Significa pureza, saúde e vida eterna. Em Portugal, registrou-se a reza:
Senhor,
dai-me água pra mim me lavar;
dai-me
parte da Santa Missa pra minha alma se salvar.
Água
divina os mouros fez cristão.
São
João batizou Cristo,/ lá no rio
Jordão,
também
nós fomos batizados pra ganhar a salvação.”[2] Água da salvaçãoA água do batismo e a água benta ocupam um lugar importante no imaginário popular. Pelo batismo somos feitos cristãos. A água é símbolo da salvação. Várias histórias contam como a criança que morreu sem ser batizada, depois de enterrada, pede a água do batismo, pondo a mãozinha para fora da terra, no cemitério. A noção popular da salvação não é moralista, não é só a salvação dos pecados. Isto percebemos quando os pais procuram o batismo para a criança que está doente. É interessante observar que doentes são curados à beira do rio, ou mesmo dentro da água. Aconteceu em Saudades (SC), em 1951: Aos três anos de idade, meu mano e eu, fomos surpreendidos por um vírus, em forma de feridas na cabeça. Foi aproveitado o máximo a medicina, mas nada adiantou. Daí, minha mãe reuniu a família no rio, por nove dias, e rezou uma oração em alemão, à Nossa Senhora. Durante a oração colocava nossas cabeças na correnteza da água. Fomos curados. Não me lembro da oração. (Informante: Lia Maria Dreyer. Saudades. SC, 1996.) Em rituais e benzeções para curar, a água esta muito presente. Com um raminho do monte e água da fonte, a rezadeira benze diversos incômodos: erisipela, queimadura, fogo selvagem. A dor de cabeça é benzida segurando uma garrafa de água na cabeça do doente. Em Coração de Jesus (MG), a Joaquina Ferreira de Sena reza para dor de barriga: Água do mar sagrado/ água de muita valia/ água fria corre de noite, corre de dia/ corre toda hora do dia/ com os poderes de Deus e da Virgem Maria/ assim passa essa dor de barriga/ com os poderes de Deus e da Virgem Maria.//[3]
Batismo
do mastro Com água benta são feitos o batismo da viola e o batismo dos tambores no candomblé, bem como, o batismo do mastro nas festas do Divino e o batismo do boi nas festas do boi-bumbá, ambos no Maranhão. Por ex., em São Luís (MA, 2002), a dona Leonor Maria da Cruz Lima revela as palavras ditas no ritual do batismo do mastro:
Eu
te batizo, “Oliveira”, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Não te dou os santos óleos, porque és um pau e não és um cristão. Neste batismo são usadas água benta, a vela e ramos de vassourinha. Defumam o mastro com incenso de igreja. No terreiro de caboclo “Trindade do Espírito Santo”, no bairro Sacavém, mãe Leonor mantém a vela acesa ao pé do mastro batizado, até a derrubada.
A
água benta entrou na sabedoria popular que diz: Conselho e água benta nunca fizeram mal a ninguém. Ou então: Presunção
e água benta, cada um toma o que quer. Romaria, procissão e água de cheiroMuitos centros de romaria têm alguma fonte ou água santa, onde os romeiros bebem água, enchem garrafas, lavam o rosto, ou até tomam banho. Na linguagem religiosa, Deus é a fonte da salvação. Alguns santuários de romaria com fonte ou cisterna sagrada, no Brasil: Bom Jesus de Iguape; Bom Jesus do Matozinhos; Canindé; N.Sra.das Graças do Sítio Guarda. A fonte milagrosa em Porto Seguro (BA) nasceu por intercessão da Virgem Maria em meio às dificuldades de conseguir água no tempo da construção da igreja de N.Sra.da Ajuda. A água de Sta Luzia, em Salvador (BA), vem de uma fonte na igreja do Pilar. Existem fontes dos milagres em Candeia (BA) e em Ilhéus (BA), no distrito de Olivença. O bendito de Nossa Senhora das Candeias diz: Na vossa sagrada fonte/ na pedra escreveu Jesus:/ Quem vem doente vai sã,/ quem vem cego, vai com luz.// Na Sexta-feira Santa, na procissão do Senhor Morto, sempre há algumas pessoas que carregam na cabeça uma botija com água. Uns servem a água para o povo beber. Outros levam-na para casa como uma coisa sagrada. O mesmo vimos na procissão de São Francisco, em Canindé (CE).
A
água-de-cheiro é aquela perfumada com folhas cheirosas, como a alfazema,
a flor de laranjeira ou mesmo com algum perfume destilado. Seu uso
faz parte da lavagem da igreja de Nossa Senhora
da Purificação,
em Santo Amaro (BA). Em Pirapora (MG), na bênção
de Sto.
Antônio, o padre asperge água benta sobre os fiéis com uma trouxinha
de ramos verdes de alecrim, hortelã, erva cidreira e outras plantas cheirosas.
A água-de-cheiro usada por aspersão,
também é usada em algumas festividades da
umbanda. Acorda MariaGonçalves Fernandes vê a presença das religiões negras no fato de a pessoa que se levanta para beber água de noite mexer na superfície dela dizendo três vezes : Acorda, Maria! “Maria, aproximada de Oxum, seria a dona das águas doces, que estaria dormindo na água.” [4]
Nos
cultos afro-brasileiros, as orixás da água doce são Oxum (rio africano), Obá
(rio africano) e Euá (rio
africano). Logunedé também é
ligado à água durante seis meses do ano, da mesma forma que Oxumaré. As águas salgadas são representadas por Yemanjá
ou Janaina. Nanã é ligada aos pântanos.
Na umbanda, além dos orixás mencionadas, há entidades ligadas à água: as
caboclas Janaína e Iara, o caboclo Ogun Beira-mar, a Sereia do mar, a pomba-gira Mara, os marinheiros. Santos ligados à águaNa véspera da festa de São João, sua imagem é lavada no ribeirão e o povo toma banho. Diz um verso do bendito popular:
São
João batizou Cristo
Cristo
batizou João.
Ambos
foram batizados Nas águas do rio Jordão. O pescador São Pedro manda a chuva. Na sua festa, há inúmeras procissões fluviais.
Santa
Clara é a protetora das lavadeiras, que, em dias de chuva, oferecem farinha
para os patinhos de Santa Clara, lingüiça, ovo, sabão, para o tempo clarear.
Há os que jogam um pedacinho de sabão no telhado, traçam uma cruz de sal no
telhado ou desenham um sol de sal
no terreiro e oferecem uma A.M. para Sta. Clara. Pelo Brasil afora muitas
lavadeiras e mães de família rezam: Santa
Clara, dai o sol,/ pra enxugar nosso lençol.// Em Campo Grande (MS), Aydê
Ricardo de Oliveira reza para cessar a chuva: Santa
Clara clareia o sol/ para eu secar o meu lençol.// v. Santa Justa. Em
Urucuca (BA, 2002), Eudilce S.dos Santos canta: Santa Clara clareou/ São
Domingos iluminou/ vai a chuva, vem o sol,/ pra enxugar o meu lençol.// Em
Diamantina (MG) dizem: Santa Clara, traz o
sol/ pra enxugar nosso lençol.[5]
No Nordeste registramos: Santa
Clara manda o sol,/ São Lourenço manda o vento/ pra enxugar os paninhos/ do Santíssimo
Sacramento.// Mas,
segundo o folclorista Luís da Câmara Cascudo, não a Santa Clara, mas Saint
Clair, bispo de Nantes (séc. III), teria sido inicialmente o padroeiro que
dissipa nevoeiros e dá vista aos cegos.[6] O Rio São Francisco Nosso seráfico pai São Francisco está intimamente ligado às águas do Rio São Francisco. Interessante é uma lenda contada por seu Dió: No tempo antigo, Jesus reuniu seus doze apóstolos e presenteou-os, distribuindo entre eles as muitas riquezas da terra. Quando São Francisco chegou no céu, Jesus quis também presenteá-lo. Ofereceu ao santo de sua estima um grande rio, única riqueza ainda não distribuída, e disse-lhe: Este será o Rio de São Francisco! - O santo recebeu o presente com muita alegria e perguntou a Jesus se poderia fazer com ele o que quisesse. Satisfeito com a resposta afirmativa, percorreu toda a beira do rio e distribuiu bilhetes convocando o povo para reunir-se na Serra da Canastra. Todos reunidos, São Francisco abençoou o rio de seu nome e entregou-o aos pobres, para que habitassem as suas margens e dele pudessem viver. Ao final da reunião, muito solene, o santo proferiu esta sentença: Quem na beira do Rio São Francisco viver, rico não há de ser, de fome e sede não há de morrer e mais de uma camisa não há de ter! (Informante: Deocleciano Francisco dos Santos, na Ilha Nova Esperança, no município de Manga. MG, 1995) [7] A referida sentença é um dito muito popular entre os moradores mais antigos da beira do rio. É riquíssima a cultura do povo barranqueiro do São Francisco. Há várias lendas e figuras mitológicas. Por ex., o caboclo d’água, a mãe d’água, a cobra d’água, o surubim gigante, o minhocão e romãozinho. O folclorista Domingos Diniz registra uma curiosa esconjuração contra as almas dos afogados que atrasam as canoas. Diz que, quando a viagem era de subida, com o rio cheio, as águas barrentas, a barca pesava muito, então, os remeiros cobriam a carranca com um pano preto ou vermelho e, de joelho, rogavam praga: Este ou esta qui tá fazendo esta putaria pra mode a barca não caminhá, mas antes vá fazer no griguilim do zengue-xengue da maculada, do bate-bate, das que bate o outras que infinca, qui – feitiço ni nosso trabalho não pega. Porque lhe boto fogo na fundanga. Boto fogo na fundanga, porque eu sei botá. E não há de faiá. (Informante: O remeiro Joaquim Carvalho, o “Joaquinzão”. Pirapora. MG, 1973) A
travessia final pelo Rio Jordão Em diversas culturas, fala-se de um rio (Acheron, Styx, Gjöll), que os mortos tem que atravessar para chegar no 'outro mundo'. Também na religiosidade popular brasileira é comum a fé de que o defunto deverá atravessar as águas de um rio que mais parece ser o rio Jordão, o qual o povo eleito atravessou para entrar na terra prometida. Trazemos como argumento um canto de enterro. A excelência da saída ou reza da saída (Caruaru,PE), começa a ser falada, pois não tem música, quando o enterro vai para o cemitério, mas só quando a casa do morto já não pode mais ser avistada. Antes de sair da casa, as pessoas fazem três vezes o sinal-da-cruz, e a rezadeira principal vai levando uma vela acesa na mão direita:
Fulano,
quando tu passar no caminho do Bom Jordão
E
perguntares : - O que tu leva? / Tu dizerás:
- Levo cêras e cordão Demui [demônios] comigo não poderão. Antes de encerrar, mais um ditado: Água e conselho só se dá quando se pede. E a expressão: As águas correm para o mar significa: o dinheiro vai parar nas mãos dos ricos. Desfecho:
A pesquisa sobre a água na cultura popular coloca em evidência a grande diferença entre a religião oficial e a fé popular. Percebemos o respeito popular pela água. Descobrimos elementos bíblicos e outros franciscanos. Perplexos imaginamos o que fazer com tudo isso, numa igreja que faz opção pelos pobres e deseja a inculturação. Na realidade, a religiosidade popular é a própria inculturação da religião oficial na vida do marginalizado que tem sua própria experiência religiosa. As coisas pesquisadas são parte da vida dos pobres e nela tem sentido. Não nós, mas eles tem que fazer alguma com isso. Sempre imaginei, a inculturação como algo que funciona de baixo para cima, principalmente. Infelizmente, a estrutura eclesial vertical inibe a iniciativa popular. O negro, o índio, as comunidades pobres não tem como contribuir e permitir à Igreja a brasilidade. Por fim: já têm algumas décadas, que Medellín (1968) e Puebla (1979) nos convocaram para integrar à Igreja o pobre com sua cultura religiosa: "Esta religiosidade coloca a Igreja frente ao dilema de continuar sendo Igreja Universal ou de converter-se em seita, caso não incorpore vitalmente a sí os homens que se expressam com esse tipo de religiosidade" (Medellín, Pastoral Popular, Nº3; Puebla, Nº334). Louvado sejas, ó Senhor da criação, pela água da chuva em terra seca, pelo rio São Francisco e o Jordão, pela água de beber, limpa e fresca, a água da cura e de toda salvação; pelo batismo do cristão, do mastro e dos tambores. Louvado sejas em toda nação. [1] No CD “Samba-de-Roda no
Recôncavo Baiano”. CFCP-47 (Coordenação de Folclore e Cultura Popular)
Funarte.Rio de Janeiro. Cantam os Filhos de Varre-Estrada.
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